Quem tem gato já ouviu — ou até viveu — a situação: aquele amigo que não suporta felinos se senta no sofá… e, em minutos, o gato da casa está no colo dele. Coincidência? Simpatia felina? A resposta, segundo a ciência, está muito mais ligada ao comportamento humano do que a uma espécie de “magnetismo” inexplicável.
Uma questão de linguagem corporal
Os gatos são observadores natos. Reagem menos às palavras e muito mais aos sinais não verbais. Quando alguém gosta desses animais, costuma manter contato visual, falar de forma afetuosa e tentar tocá-los logo de início. Já quem não gosta, evita o olhar, mantém distância e reduz ao mínimo qualquer interação.
Essa postura mais reservada tende a ser interpretada pelo gato como menos ameaçadora. Como explicou o veterinário comportamental John Bradshaw, autor de Cat Sense (2013), “os gatos preferem iniciar o contato por conta própria, e o excesso de entusiasmo humano pode afastá-los”.
Um estudo conduzido em 2021 pela Universidade de Zurique reforçou essa ideia: felinos mostraram-se mais dispostos a se aproximar de pessoas que não os encaravam diretamente. A pesquisadora Nadja Affenzeller destacou que um olhar fixo pode ser interpretado como tentativa de dominação, gerando desconfiança.
A “reciprocidade invertida”
Existe até um termo para isso: reciprocidade invertida. Ao contrário dos cães, que buscam atenção ativa, os gatos valorizam espaço e autonomia. Ambientes em que podem decidir como e quando interagir reduzem o estresse e estimulam a exploração, segundo pesquisa publicada no Journal of Feline Medicine and Surgery (2020).
A especialista Sarah Ellis, da Universidade de Lincoln, explica que “um indivíduo que não força a aproximação dá ao gato o tempo necessário para avaliar a situação, aumentando a probabilidade de contato”. Em outras palavras, quem ignora o gato pode, sem querer, estar criando o cenário perfeito para ser escolhido como companhia.
A psicologia dos “cat-haters”
O curioso é que a postura de quem não gosta de gatos frequentemente agrada aos próprios felinos. Uma pesquisa publicada no Animal Behaviour (2019) observou que eles têm mais tendência a se aproximar de quem os deixa iniciar o contato.
Posturas fechadas, como braços cruzados ou o corpo levemente virado, transmitem uma mensagem de neutralidade ou até indiferença, mas, para o gato, podem ser lidas como sinal de segurança. Como resume Ellis, “é possível que o que para nós é distância, para eles seja um convite velado para se aproximar”.
Did you know? A leitura de sinais corporais pelos gatos é tão refinada que alguns pesquisadores comparam a sensibilidade deles à de animais selvagens, capazes de detectar mudanças sutis no comportamento de outros indivíduos para decidir se aproximar ou se afastar.