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Estudo revela como os cães mutantes de Tchernobyl evoluíram após o desastre

Daniel Faria

Em 26 de abril de 1986, a explosão na usina nuclear de Tchernobyl forçou a evacuação de mais de 200 000 pessoas e deixou uma área de cerca de 2 600 km² em estado de exclusão. Décadas depois, pesquisadores resolveram investigar pela primeira vez o impacto genético desse ambiente nos cães que permaneceram na região.

Uma assinatura genômica única

Em 2017, uma equipe liderada pelo biofísico David Brenner, da Universidade de Columbia, coletou cerca de 300 amostras de sangue de cães errantes em três pontos distintos: à beira da usina, na cidade fantasma de Prypiat (15 km) e em Slavutych (45 km). Foram detectados níveis de césio-137 até duzentas vezes maiores nos animais mais próximos ao reator.

Além disso, a análise genética mostrou que essas populações formaram grupos bem diferenciados entre si e de outros cães de raça livre. “A variabilidade genômica sugere uma assinatura única, resultado de anos de reprodução em um ambiente altamente radioativo”, explica Christophe Hitte, do Instituto de Genética e Desenvolvimento do Cão (IGDR), em Rennes.

Lembro de ter assistido à minissérie sobre o desastre e pensado em como a vida selvagem conseguiu resistir — descobrir esse “DNA resistente” nos cães de Tchernobyl é, de fato, uma janela única para a ciência.

Como eles conseguiram sobreviver?

Os pesquisadores agora buscam entender quais mutações ajudaram esses cães a prosperar onde outros mamíferos sucumbiriam. Um dos desafios é separar as alterações provocadas pela radiação daquelas resultantes de fatores como dieta, clima ou isolamento reprodutivo.

Para Hitte, é provável que esses cães tenham desenvolvido versões mais eficientes de genes de reparo de DNA, permitindo-lhes suportar níveis de radiação letais para humanos e animais comuns. “Uma colônia isolada há 30 anos em um dos ambientes mais mutagênicos do planeta representa um laboratório vivo perfeito para biólogos e geneticistas”, celebra o cientista.

Esse estudo abre caminho não apenas para compreender a evolução sob estresse extremo, mas também para avaliar os efeitos da exposição prolongada à radiação em termos de saúde humana no futuro.

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