Luciano de Vries descreve a sua entrada no investimento anjo com a mesma pragmática com que aborda quase tudo o resto nos negócios. Não foi uma decisão tomada numa conferência, nem o resultado de uma estratégia construída sobre papel. Nasceu de conversas. “São mais velhos, alguns mais novos, mas principalmente os mais velhos, que já fazem investimentos há dez, quinze anos. Fala-se, bebe-se uma cerveja numa festa, fala-se sobre isso e vê-se quais são as boas oportunidades. Partilham-se os pitch decks e depois lê-se tudo, claro, e vê-se o que faz sentido.”
Hoje, o empresário neerlandês radicado em Tavira, Portugal, figura entre os investidores de 20 ou mais startups através da Gaet Investment Holding e da MIG Prime Investments. O portfólio abrange inteligência artificial, gestão de energia, comunicações digitais e bem-estar, com participações em empresas como a DAITABLE, especializada em sistemas de gestão de energia para uso industrial, a Xolvis GmbH, focada em soluções de comunicação digital, e a Daitabase, plataforma de marketplace de ferramentas de IA que o próprio co-fundou. Para além dessas, mantém posições noutras empresas em diferentes fases de desenvolvimento.
A Mentalidade Antes do Modelo de Negócio
Quando de Vries avalia uma proposta, o primeiro filtro não é financeiro. É humano. Passou por demasiadas situações em que currículos impecáveis e modelos de negócio bem estruturados não produziram resultados. A conclusão que tirou é direta: a vontade de aprender e a disponibilidade para trabalhar duro valem mais do que qualquer experiência prévia no papel.
“Há pessoas que chegam com CVs que parecem perfeitos para o cargo, mas depois de três, quatro meses, simplesmente não funciona”, afirma. O que procura, acima de tudo, é disposição. Um fundador que admite não saber tudo, mas que demonstra que vai descobrir, interessa-lhe mais do que alguém com uma resposta polida para cada pergunta.
Esta preferência pela mentalidade sobre o currículo não é uma postura filosófica. Tem raízes no modo como o próprio de Vries construiu as suas empresas. Nas primeiras fases do seu percurso empresarial, internalizou serviços quando os fornecedores externos falharam, criou uma transportadora quando a logística se tornou um obstáculo, formou equipas de marketing quando as agências externas cobravam muito e entregavam pouco. O padrão repete-se: identifica um problema, encontra alguém com vontade de o resolver, e aposta nessa pessoa.
Produto, Equipa, Timing
Depois da avaliação humana, de Vries observa a proposta em si. Mas faz isso com uma cautela que muitos investidores menos experientes ignoram. Para ele, uma startup que corre demasiado depressa para a fase de crescimento sem ter construído nada sólido é uma das razões mais comuns pelas quais empresas com potencial acabam por falhar.
“Claro que é preciso ter objectivos ambiciosos, mas passo a passo. Não se constrói um foguete num dia. Há pessoas que saltam etapas porque querem chegar à próxima ronda de financiamento. Querem o dinheiro, querem a avaliação de vinte milhões. Mas se não fizerem o trabalho, não vão conseguir essa avaliação. E quando chegar a hora de uma nova ronda, as pessoas já não vêem o valor. Não criaram nada.”
Num contexto de crescente incerteza macroeconómica, os investidores europeus tornaram-se progressivamente mais selectivos, com muitos a concentrar-se nas carteiras existentes em vez de novos compromissos, segundo o relatório State of European Angels 2025, produzido pela Nordic Angels em parceria com a BCG. De Vries navega esse clima com uma abordagem que privilegia a substância demonstrável: quer ver produto real, procura real no mercado, e uma equipa que já provou que é capaz de executar antes de pedir mais capital.
O horizonte temporal é outro factor que ele tem em conta com seriedade. Investimentos em rondas pré-seed podem demorar dez a doze anos a produzir retornos tangíveis. A paciência não é apenas uma virtude neste contexto. É um requisito. “Com os investimentos, esperamos receber algum dinheiro de volta daqui a três, quatro anos”, diz, referindo-se às apostas mais próximas da fase de mercado. Para as mais precoces, o horizonte é mais longo e a tolerância ao risco tem de ser proporcional.
Redes e a Lógica da Partilha
Uma das particularidades do estilo de investimento de de Vries é a sua dependência deliberada de redes de confiança. Não recorre a plataformas formais de triagem nem a processos de due diligence altamente estruturados como ponto de partida. Começa pelas pessoas que já conhece, que já demonstraram julgamento, e que partilham oportunidades porque confiam no seu discernimento.
“Só de sair de casa, fazer networking, fazer amigos, acho que é assim que se consegue mais”, diz. O conselho parece elementar, mas a lógica por trás dele é específica: num mercado onde a maioria das melhores oportunidades pré-seed nunca chega a plataformas públicas, o acesso depende de quem o conhece e, mais importante, de quem confia no seu julgamento. Para de Vries, a rede não é um canal de distribuição de oportunidades. É o mecanismo de triagem que substitui os processos formais que ele deliberadamente evita.
A partilha de pitch decks dentro de círculos de confiança é, para de Vries, tanto um mecanismo de curadoria como de eficiência. Quando alguém em quem ele confia lhe traz uma proposta, uma parte da análise já está feita. O filtro humano foi aplicado antes de o documento chegar às suas mãos.
Alocação e Disciplina
De Vries não investe de forma indiscriminada. Mantém uma estrutura de alocação clara para o conjunto das suas actividades: uma fatia vai para imobiliário, outra para novos investimentos, uma terceira é reinvestida nas empresas existentes, e uma parte menor sustenta as despesas pessoais. “Decidimos fazer uma certa percentagem — acho que vinte, trinta por cento — em imobiliário; vinte, trinta por cento em novos investimentos; vinte, trinta por cento volta para a empresa; e com dez por cento vivemos e fazemos o que queremos.”
Esta disciplina de alocação serve dois propósitos. Impede que o entusiasmo por uma nova oportunidade comprometa a estabilidade das operações existentes. E força uma avaliação constante: se um investimento anjo vai competir por uma fatia do capital disponível, tem de justificar esse lugar face às alternativas.
O resultado é um portfólio onde cada posição foi escolhida com consciência do custo de oportunidade. Não é a abordagem de quem quer fazer dez apostas e esperar que uma resulte. É a de quem quer entender cada empresa suficientemente bem para ter convicção antes de assinar.
