Meio ambiente

Empresa australiana BHP considerada responsável por danos em um dos piores desastres de mineração do Brasil

Santiago Ferreira

Um Tribunal Superior do Reino Unido decidiu que a BHP foi responsável pelo rompimento da barragem de Mariana, depois de a empresa ter sido absolvida de acusações criminais no ano passado num tribunal brasileiro. Os requerentes estão pedindo até US$ 47 bilhões em danos.

Em 2015, uma barragem de rejeitos de uma mina rompeu perto da cidade de Bento Rodrigues, no estado brasileiro de Minas Gerais. O colapso derramou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de resíduos da mineração de minério de ferro na paisagem, soterrando aldeias na lama, matando 19 pessoas e poluindo milhares de córregos ao longo do Rio Doce.

Há um ano, um tribunal federal brasileiro absolveu as empresas-mãe da mina, a Vale no Brasil e a BHP na Austrália, de acusações criminais, três semanas depois de terem anunciado um acordo de 30 mil milhões de dólares com o governo brasileiro para pagar por danos.

Mas um Tribunal Superior do Reino Unido decidiu na sexta-feira que a BHP é responsável pelo rompimento da barragem de acordo com a legislação ambiental e civil do Brasil e poderá ter de pagar ainda mais.

“Para nós representa um marco muito importante”, disse Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues que perdeu sua casa e seus amigos no desastre de 5 de novembro de 2015, em mensagem de vídeo. Trata-se de “responsabilizar a BHP pelo crime ocorrido” no dia 5 de novembro.

Em declaração ao Naturlink, o presidente da BHP Americas, Brandon Craig, disse que a empresa pretende recorrer da decisão do tribunal e que o Brasil é o local mais apropriado para fornecer remediação. Ele disse que os pagamentos já feitos por meio do acordo deveriam reduzir pela metade os mais de 600.000 reclamantes no caso do Reino Unido.

“O tribunal manteve as liberações fornecidas no Brasil e 240.000 requerentes na ação coletiva do Reino Unido que já receberam indenizações no Brasil assinaram liberações completas”, disse Craig.

O escritório de advocacia britânico Pogust Goodhead abriu o caso em nome de cerca de 620 mil requerentes, incluindo indivíduos, empresas e municípios que pedem até 47 mil milhões de dólares em indemnizações. O caso alegou que a BHP, proprietária de 50 por cento da operadora da mina Samarco, foi negligente no financiamento da expansão da mina, embora soubesse que a barragem de Fundão corria risco de colapso. Eles instauraram o caso no Reino Unido porque uma das pessoas jurídicas da BHP estava registrada lá na época.

Caroline Narvaez Leite, diretora jurídica da Pogust Goodhead, disse que alguns requerentes que receberam dinheiro de acordos no Brasil podem não ter renunciado aos direitos por todos os danos que sofreram e que a compensação no âmbito da ação teria que ser avaliada caso a caso. Um julgamento para avaliar os danos está marcado para outubro.

Numa decisão de 233 páginas na sexta-feira, a juíza Fiona O’Farrell decidiu que “o risco de colapso da barragem era previsível” e que era “imprudente” da BHP continuar a elevar a barragem dados os “sinais óbvios de rejeitos contrativos e saturados e numerosos incidentes de infiltração e fissuras”. Ela escreveu que a empresa era responsável, embora não fosse proprietária e operasse diretamente a barragem.

Leite, disse que a decisão foi inovadora porque marcou a primeira vez que uma das empresas foi considerada responsável desde o desastre ocorrido há 10 anos.

“A BHP foi considerada estritamente responsável como poluidora pela legislação ambiental brasileira, mas também por culpa, por culpa própria devido à sua negligência em relação ao colapso”, disse Leite. “O que estamos tentando fazer é obter uma compensação total e garantir que todos que sofreram perdas serão reparados ou compensados ​​pelas perdas específicas que sofreram.”

A decisão do Tribunal Superior surge num momento em que delegados de todo o mundo se reúnem em Belém, no Brasil, para a COP30, as conversações anuais sobre o clima das Nações Unidas, onde os países passarão duas semanas a negociar um plano global para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva defendeu causas ambientais e fez progressos na redução do desmatamento na Amazônia em 50 por cento. Ele também foi criticado por seu apoio às indústrias extrativas, incluindo a aprovação da perfuração de petróleo neste verão na foz do rio Amazonas.

Edson Krenak, um dos ativistas indígenas do Brasil presentes na conferência, disse que seu povo, os Krenak, continua sendo afetado pela contaminação do Rio Doce, que eles chamam de Watu.

“Perdemos os locais tradicionais que as nossas famílias costumavam visitar, para rituais, para orações ao longo do rio”, disse ele. “Estes locais já não são seguros… Ainda recebemos água de camiões, ainda não podemos plantar as nossas culturas em segurança e fazer com que os nossos animais bebam dessa água.”

Ele disse que a regulamentação dos rejeitos de minas continua a ser uma grande preocupação no Brasil e que recebe regularmente relatórios sobre práticas de gestão negligentes de comunidades de todo o país.

“Os rejeitos no Brasil não são seguros. Eles não estão mais seguros do que eram há 10 anos; ainda são os mesmos”, disse Krenak. “Os reguladores e o legislativo não estão alcançando a indústria para responsabilizá-los e responsabilizá-los por fechamentos adequados e seguros.”

Ele disse que esteve em dois eventos na COP30 sobre padrões de mineração organizados pela indústria e pela ONU que não permitiram perguntas do público, incluindo um hoje onde o desastre de Mariana e a decisão do Reino Unido não foram mencionados.

“Estou chocado com o silêncio”, disse ele. “Ninguém está realmente falando sobre isso.”

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Sobre
Santiago Ferreira

Santiago Ferreira é o diretor do portal Naturlink e um ardente defensor do ambiente e da conservação da natureza. Com formação académica na área das Ciências Ambientais, Santiago tem dedicado a maior parte da sua carreira profissional à pesquisa e educação ambiental. O seu profundo conhecimento e paixão pelo ambiente levaram-no a assumir a liderança do Naturlink, onde tem sido fundamental na direção da equipa de especialistas, na seleção do conteúdo apresentado e na construção de pontes entre a comunidade online e o mundo natural.

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