Os defensores do ambiente alertam que as fugas ou derrames de petróleo podem causar danos irreparáveis ao ecossistema único e pouco estudado. Estão a processar o governo brasileiro e o seu maior produtor estatal de petróleo, a Petrobras, para interromper o projecto.
À medida que os líderes mundiais concluem as conversações anuais sobre o clima das Nações Unidas em Belém, no Brasil – uma cimeira destinada a acelerar a acção global sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis – o governo brasileiro enfrenta críticas crescentes sobre a sua recente decisão de autorizar a perfuração de petróleo offshore perto do Grande Sistema de Recifes da Amazónia.
Este habitat marinho único e pouco estudado constitui um dos maiores recifes do Brasil. Alguns cientistas estimam que possa abranger pelo menos 20.000 milhas quadradas, embora menos de 5% do ecossistema tenha sido mapeado. Até recentemente, algumas pessoas duvidavam da sua existência.
“É um grande debate até hoje. As pessoas não acreditam que o recife exista”, disse Fabiano Thompson, oceanógrafo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Grande parte do recife está escondida sob as águas turbulentas, cheias de sedimentos e nutrientes, que fluem do Rio Amazonas para o Atlântico, na costa do estado do Amapá, no norte do Brasil, numa área conhecida em português como Bacia da Foz do Amazonas, ou Foz do Amazonas. A sua localização e as correntes notoriamente fortes tornam o seu acesso muito difícil.
Thompson é uma das poucas pessoas que viu o recife de perto. Em 2017, ele se juntou a uma expedição científica a bordo do navio do Greenpeace, o Esperanza, e desceu mais de 600 pés debaixo d’água em um submersível para duas pessoas para explorar o recife. Essa missão produziu as primeiras fotografias do ecossistema.
“Fiquei feliz porque pudemos mostrar a existência do recife”, disse Thompson. “Eu sabia que isso teria um impacto.”
Longe de ser um típico recife de coral raso, este ecossistema profundo e com pouca luz, conhecido como recife mesofótico, é em grande parte composto, não por corais, mas por vastos montes de algas vermelhas semelhantes a rochas chamadas rodolitos. Essas pedras vivas servem como âncoras para uma variedade de esponjas multicoloridas rosa, brancas e amarelas, bem como para algumas espécies de corais, como os corais negros, conhecidos por seus esqueletos duros, pretos ou marrons. Mais de 90 espécies de peixes de recife, incluindo o pargo do sul, comercialmente importante, também dependem deste habitat crítico, onde se alimentam e se abrigam em suas fendas e cavernas.
Durante anos, as principais empresas de energia, incluindo a Chevron, a ExxonMobil, a TotalEnergies e a gigante estatal brasileira de energia, a Petrobras, consideraram a Bacia da Foz do Amazonas como uma nova fronteira promissora. Geólogos e analistas da indústria acreditam que a área pode conter milhares de milhões de barris de petróleo recuperável, considerando a sua localização próxima da vizinha e altamente produtiva Bacia Guiana-Suriname.
Até recentemente, os reguladores brasileiros recusavam-se a autorizar a perfuração naquele local, alegando grandes lacunas no conhecimento científico, riscos ecológicos e planos de emergência insuficientes. Thompson disse que alguns dos dados que ele e seus colegas coletaram sobre o recife contribuíram para que o país adiasse a concessão de licenças de perfuração às empresas petrolíferas. Mas “finalmente, é claro, o petróleo e o gás tiveram sucesso”, disse ele.

No mês passado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, concedeu à Petrobras licença para perfurar um poço exploratório, conhecido como Bloco 59.
O local está localizado em águas profundas ao longo da Margem Equatorial do Brasil, a cerca de 160 quilômetros da costa do Amapá e a cerca de 32 quilômetros do recife amazônico. Segundo a empresa, a perfuração começou imediatamente após a emissão da licença.
Esta decisão, dizem os defensores do meio ambiente, contradiz os compromissos públicos do Brasil de conservar o oceano e de se afastar dos combustíveis fósseis.
Na sessão plenária de abertura da COP30, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva disse: “Acelerar a transição energética e proteger a natureza são as duas formas mais eficazes de conter o aquecimento global”.
Depois, na terça-feira, o presidente prometeu o seu compromisso de gerir de forma sustentável quase todas as águas costeiras do Brasil até 2030. De acordo com um comunicado de imprensa do World Resources Institute, Lula disse: “Sem o oceano, não podemos enfrentar verdadeiramente as alterações climáticas. Devemos aproveitar o seu imenso potencial para reduzir as emissões e proteger as nossas costas de condições meteorológicas extremas”.
“Abrir uma nova fronteira petrolífera é uma contradição clara”, disse Daniela Jerez, consultora jurídica do Greenpeace Brasil, em um e-mail ao Naturlink. “Em vez de expandir a produção de combustíveis fósseis, o Brasil e o mundo deveriam planejar uma transição justa e urgente para longe disso.”
O Greenpeace Brasil é um dos oito grupos ambientais e de direitos humanos brasileiros que agora tentam impedir a Petrobras, alegando que suas atividades representam graves riscos ambientais e de direitos humanos.
“Esta não é apenas uma questão ambiental, mas também uma questão de direitos humanos. O Tribunal Internacional de Justiça reconheceu o Direito a um Ambiente Saudável como uma norma fundamental do direito internacional, que inclui o dever dos Estados de prevenir danos ao sistema climático”, disse Jerez. “A falta de regulamentação das atividades de combustíveis fósseis, como a concessão de novas licenças de exploração, pode violar estas obrigações.”


Juntas, as organizações estão processando o governo brasileiro, o IBAMA e a Petrobras para anular a licença de perfuração da empresa, citando uma série de falhas que, segundo elas, permitiram o sucesso do processo de licenciamento.
A Petrobras e o IBAMA não quiseram comentar. Mas um comunicado no site do IBAMA diz que “a emissão da licença segue um rigoroso processo de licenciamento ambiental”.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, também afirmou em nota: “Atuaremos na Margem Equatorial com segurança, responsabilidade e qualidade técnica. Esperamos obter excelentes resultados nesta pesquisa e comprovar a existência de petróleo na porção brasileira desta nova fronteira energética global”.
Mais de 120.000 comunidades pesqueiras vivem ao longo da costa amazônica do Brasil, que dependem fortemente da pesca perto do recife amazônico para sua sobrevivência e subsistência, de acordo com Nicole Oliveira, diretora executiva do Instituto Internacional Arayara, uma organização ambiental brasileira sem fins lucrativos que é demandante no processo.
Mas, segundo Oliveira, nenhuma dessas comunidades foi consultada pela Petrobras, como exige a constituição brasileira e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que determina que os povos indígenas e tribais sejam consultados sobre os impactos dos projetos de desenvolvimento em suas terras.
Defensores ambientais como Jerez também argumentam que o processo de licenciamento sofreu grandes falhas na modelagem de derramamentos de óleo da Petrobras. Para receber a aprovação do Ibama, a Petrobras teve que mostrar como o petróleo se comportaria em caso de acidente e apresentar um plano para conter o derramamento.
Mas Jerez disse que uma análise técnica conduzida pelas organizações demandantes encontrou sérias lacunas tanto nos dados quanto no modelo utilizado pela Petrobras. “O IBAMA aprovou a licença com base em estudos desatualizados e tecnicamente falhos”, disse Jerez.
A análise técnica dos demandantes indica que, no caso de um derramamento, cerca de 20 por cento do petróleo provavelmente afundaria na coluna de água, representando uma ameaça significativa à vida marinha e às pessoas que dela dependem, disse ela.
“No caso de um acidente, os danos ao Grande Sistema de Recifes da Amazônia, aos ecossistemas marinhos e costeiros e aos meios de subsistência locais, como a pesca, seriam irreparáveis”, disse Jerez.
Um tal derrame provavelmente não só teria impacto no recife, mas também em vastas áreas de mangais, que servem como berçários para muitos peixes juvenis e outras espécies aquáticas. A costa norte do Brasil abriga o segundo maior cinturão de manguezais do mundo, segundo Thomás Banha, oceanógrafo brasileiro que estuda o recife amazônico. “Os mangais como um todo são considerados o ecossistema mais difícil de limpar após derrames de petróleo”, disse ele.
Alguns modelos mostram que um derramamento de óleo na Foz do Amazonas poderia se espalhar além das fronteiras do Brasil, chegando à Guiana Francesa e a países do Caribe como Trinidad e Tobago, segundo Thompson, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O Bloco 59 pode ser apenas o começo. Mais de 20 outros blocos petrolíferos ao longo da costa amazônica já foram leiloados para exploração na região, segundo Jerez.
A menos que as atividades da Petrobras sejam interrompidas, Oliveira, do Instituto Internacional Arayara, disse que as perfurações na área provavelmente se espalharão.
“Este bloco é a porta de entrada para o resto da Amazônia para perfuração”, disse ela.
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