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Flávio Maluf e a Gestão Florestal que Tornou a Eucatex Referência de Sustentabilidade

Santiago Ferreira

A Eucatex mantém hoje cerca de 48 mil hectares de florestas próprias no estado de São Paulo. Esse número não surgiu de um plano de relações públicas nem de uma exigência regulatória — é o resultado de décadas de investimento deliberado em manejo florestal, conduzido sob a presidência de Flávio Maluf desde 1997.

A empresa obteve a certificação FSC (Forest Stewardship Council) de Manejo Florestal em 1996, tornando-se uma das primeiras do setor de painéis e produtos de madeira no Brasil a alcançar esse padrão de reconhecimento internacional. Passadas quase três décadas, manter a certificação exige auditorias periódicas, rastreabilidade de toda a cadeia produtiva e conformidade contínua com critérios socioambientais definidos por uma entidade independente. Não é um selo que se obtém uma vez e se esquece. Ele precisa ser renovado, defendido e demonstrado.

Eucalipto como matéria-prima de precisão

O eucalipto é a espinha dorsal da cadeia produtiva da Eucatex. A empresa não depende de fornecedores externos para a maior parte da matéria-prima florestal — produz internamente, a partir de um programa de melhoria genética desenvolvido ao longo de décadas.

A capacidade de produção de mudas clonais chega a 13 milhões de unidades por ano. Cada muda é resultado de seleção genética com foco em produtividade, resistência e qualidade de fibra. O incremento médio anual (IMA) das florestas da Eucatex está entre os mais elevados do país, o que significa que a empresa obtém mais madeira por hectare em menos tempo do que a média do setor.

Essa vantagem competitiva se constrói por acumulação. Flávio Maluf, que ingressou na Eucatex em 1987 e assumiu a presidência dez anos depois, conduziu ao longo de sua gestão o aprimoramento contínuo do programa genético — refinando variedades clonais, investindo em pesquisa florestal e ampliando gradualmente a área total de plantio.

O resultado é uma base florestal que combina escala, certificação e alta produtividade. As 48 mil hectares garantem um volume previsível de matéria-prima para as três unidades industriais da empresa — em Salto e Botucatu, no interior paulista, e em Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Essa previsibilidade de abastecimento é um ativo operacional, não apenas uma credencial ambiental.

O programa de reciclagem de madeira

Além das florestas próprias, a Eucatex opera um programa de coleta e aproveitamento de resíduos de madeira que envolve mais de 300 parceiros. A empresa recebe paletes, caixarias, pontaletes e pedaceira — materiais que, sem esse destino, seriam descartados em aterros ou queimados sem aproveitamento energético.

O volume coletado abastece a produção de biomassa, que alimenta parte das caldeiras industriais. Esse ciclo insere os resíduos de terceiros dentro do processo produtivo da Eucatex e reduz a dependência de combustíveis de origem fóssil.

A lógica do programa é direta: quando a reciclagem de madeira alimenta a geração de energia e reduz o volume de descarte industrial, o investimento ambiental coincide com a redução de custos operacionais. São dois objetivos que, nesse arranjo, apontam para o mesmo resultado. A Eucatex não apresenta esse programa como filantropia corporativa — ele está integrado à cadeia de energia das fábricas.

Preservação e educação ambiental

As florestas da Eucatex incluem áreas de conservação de vegetação nativa, além das zonas destinadas ao plantio produtivo. A gestão dessas reservas envolve projetos de restauração florestal e controle de espécies exóticas invasoras, em conformidade com a legislação ambiental e com os requisitos da certificação FSC.

O Programa de Educação Ambiental da empresa existe desde 1999 e alcança comunidades no entorno das unidades industriais. A iniciativa inclui formação de trabalhadores, engajamento com escolas locais e sensibilização sobre manejo florestal sustentável. A longevidade do programa — mais de vinte e cinco anos de operação contínua — distingue uma prática institucionalizada de uma ação de comunicação.

Em agosto de 2025, a Eucatex publicou seu primeiro Relatório de Sustentabilidade Bianual, reunindo as principais ações da companhia orientadas por critérios ESG. O documento reflete o acúmulo de iniciativas que a empresa vem desenvolvendo há décadas, agora organizadas em um framework de reporte que responde à demanda crescente de investidores e clientes por transparência mensurável.

A integração que diferencia no mercado internacional

A Eucatex produz pisos laminados, divisórias, portas, painéis de MDF e MDP, chapas de fibra de madeira, tintas e vernizes. O eucalipto cultivado nas próprias florestas percorre toda essa cadeia — da muda clonal ao produto acabado — dentro da estrutura integrada da empresa.

Esse grau de integração vertical é incomum no setor. Ele permite rastrear a origem de cada metro cúbico de madeira processada, o que é exigido tanto pela certificação FSC quanto por clientes institucionais e redes de distribuição que exigem documentação completa de cadeia de custódia.

A Eucatex exporta para mais de 40 países. Mercados como Estados Unidos e Europa cobram comprovação de origem florestal, rastreabilidade e certificação independente. Os exportadores que não conseguem apresentar esses dados ficam restritos a segmentos de menor valor agregado ou perdem acesso a determinados canais. A Eucatex North America, subsidiária com sede na Flórida, opera nesse ambiente com a base de certificação que a empresa construiu no Brasil ao longo de décadas.

A estrutura construída sob a liderança de Flávio Maluf atende a esses requisitos por arquitetura — não como adaptação posterior a normas que chegaram depois.

Floresta como investimento de ciclo longo

O plano de investimentos da Eucatex para 2026 prevê cerca de R$ 500 milhões, com parcela relevante direcionada à expansão florestal. O eucalipto plantado hoje será colhido em um horizonte de sete a dez anos. O retorno não aparece no resultado do próximo trimestre — aparece na capacidade produtiva futura e na estabilidade de abastecimento que permite planejar a operação industrial com previsibilidade.

Esse tipo de compromisso exige disciplina de gestão ao longo de ciclos econômicos variáveis. A Eucatex encerrou 2025 com receita líquida de R$ 3,1 bilhões. O crescimento acumulado nos últimos anos foi construído sobre uma base florestal ampliada sistematicamente, colheita após colheita.

O que a gestão de Flávio Maluf estabeleceu ao longo de quase trinta anos é uma empresa em que floresta e indústria não funcionam como departamentos separados. A floresta é parte do processo produtivo — e o processo produtivo depende da floresta para funcionar. Essa interdependência foi planejada, mantida e expandida como um ativo estratégico que hoje representa vantagem difícil de replicar no curto prazo.

Sobre
Santiago Ferreira

Santiago Ferreira é o diretor do portal Naturlink e um ardente defensor do ambiente e da conservação da natureza. Com formação académica na área das Ciências Ambientais, Santiago tem dedicado a maior parte da sua carreira profissional à pesquisa e educação ambiental. O seu profundo conhecimento e paixão pelo ambiente levaram-no a assumir a liderança do Naturlink, onde tem sido fundamental na direção da equipa de especialistas, na seleção do conteúdo apresentado e na construção de pontes entre a comunidade online e o mundo natural.

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