Animais

Força motriz descoberta por trás da migração em massa de grandes animais de pasto

Santiago Ferreira

A Grande Migração é um fenómeno notável que ocorre todos os anos no Parque Nacional do Serengeti e envolve mais de dois milhões de animais.

Zebras, gnus e gazelas seguem as mesmas rotas migratórias, uma após a outra, dependendo do tamanho do corpo. Esta “sucessão de pastoreio” há muito que intriga os cientistas, especialmente considerando que os animais partilham recursos alimentares limitados.

Sucessão de pastoreio

Um estudo recente liderado por Michael Anderson, da Wake Forest University, lançou luz sobre a intrincada dinâmica que rege esta sucessão de pastoreio, revelando uma complexa interação de competição e facilitação no trabalho.

Durante esta viagem migratória, animais de tamanhos corporais variados seguem-se numa ordem específica devido às diferenças nos seus hábitos de pastoreio e ao impacto na vegetação.

A zebra do Serengeti, pesando aproximadamente 230 quilos, lidera a migração, seguida pelo gnu com cerca de 180 quilos e, por fim, a gazela bem menor, pesando cerca de 20 quilos.

Este movimento sequencial tem intrigado os investigadores, levando à questão: Porque é que estas espécies, competindo por recursos alimentares limitados, migram de forma tão harmonizada?

“Desvendar os mecanismos potenciais que orientam os padrões de movimento, os tempos de chegada e os comportamentos de alimentação das três espécies migratórias tem sido dificultado pela falta de dados detalhados e de longo prazo à escala apropriada”, afirmaram os investigadores.

Padrões de migração animal

Para investigar, a equipe usou uma variedade de ferramentas de pesquisa modernas, incluindo um levantamento de armadilhas fotográficas de 8 anos, rastreamento de animais com coleira por GPS e metabarcoding de DNA fecal.

Esta abordagem inovadora permitiu à equipe analisar o momento, a chegada e as interações entre a zebra, o gnu e a gazela com detalhes sem precedentes.

As descobertas oferecem uma nova perspectiva sobre os impulsionadores dos padrões migratórios destes herbívoros.

A pesquisa destaca um equilíbrio delicado entre interações competitivas e facilitadoras entre as espécies. As zebras, ao que parece, são empurradas para a frente na migração pela competição pelos recursos alimentares com os gnus.

Como pastores dominantes, os gnus desempenham um papel central neste ecossistema, moldando o ambiente de uma forma que desafia e beneficia os seus companheiros migrantes.

Ao pastar, os gnus reduzem a biomassa das gramíneas, o que por sua vez estimula o crescimento de nova vegetação. Este novo crescimento é então ideal para as gazelas que se especializam em capitalizar essas oportunidades.

Dinâmica push-and-pull da sucessão de pastejo

Esta dinâmica de “empurrar e puxar”, como descrevem os investigadores, sublinha a complexidade das interacções ecológicas e o papel da facilitação na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.

Curiosamente, o estudo não encontrou evidências de que a predação influencie a ordem de sucessão do pastoreio, um fator que foi considerado em teorias anteriores.

Além disso, a equipa observou que factores externos como incêndios florestais e chuvas têm um impacto significativo nos padrões de pastoreio sucessionais.

Descobriu-se que incêndios florestais intensos e períodos de chuva fortalecem os padrões observados, sugerindo que as condições ambientais desempenham um papel crucial na formação dos comportamentos migratórios destas espécies.

“Os nossos resultados destacam um equilíbrio entre forças facilitadoras e competitivas”, afirmaram os investigadores, enfatizando a relação matizada entre as espécies e o seu ambiente.

O estudo não só aprofunda a nossa compreensão dos padrões de migração e pastoreio no Serengeti, como também ilustra a importância de dados detalhados e de longo prazo para desvendar os mecanismos complexos que governam os ecossistemas naturais.

“Várias linhas de evidência apontam para uma dinâmica de ‘empurrar e puxar’, na qual os gnus, o herbívoro dominante, empurram a zebra para frente, reduzindo a biomassa da grama, enquanto puxam a gazela por meio de facilitação”, escreveram os autores do estudo.

“Nosso estudo ajuda a reconciliar décadas de resultados conflitantes, demonstrando que a competição e a facilitação operam simultaneamente durante a migração animal com tamanhos de efeito que dependem da disponibilidade de recursos”.

Um novo capítulo para o Serengeti

Em resumo, esta importante investigação da Universidade Wake Forest desafia a sabedoria convencional de relações harmoniosas entre espécies com provas convincentes de competição.

Ao utilizar uma extensa gama de métodos de recolha de dados, a equipa revelou a complexa interação entre gnus e zebras, alterando fundamentalmente a nossa perceção das interações ecológicas e dos padrões de migração.

As suas descobertas iluminam os meandros do comportamento animal num dos ecossistemas mais emblemáticos do mundo e oferecem informações valiosas para os esforços globais de conservação e gestão de ecossistemas face às mudanças nas condições ambientais.

Esta pesquisa sublinha a importância da colaboração interdisciplinar na descoberta das verdades da natureza, marcando um avanço significativo na nossa busca para compreender e preservar o mundo natural.

A pesquisa está publicada na revista Ciência.

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Santiago Ferreira é o diretor do portal Naturlink e um ardente defensor do ambiente e da conservação da natureza. Com formação académica na área das Ciências Ambientais, Santiago tem dedicado a maior parte da sua carreira profissional à pesquisa e educação ambiental. O seu profundo conhecimento e paixão pelo ambiente levaram-no a assumir a liderança do Naturlink, onde tem sido fundamental na direção da equipa de especialistas, na seleção do conteúdo apresentado e na construção de pontes entre a comunidade online e o mundo natural.

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