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Ficha do Grou

Nuno Leitão

Uma das aves mais marcantes, seguramente a mais elegante e responsável pelas maiores algazarras dos Invernos Alentejanos.

 

 

 

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O Grou-comum (Grus grus) é uma ave da ordem dos gruiformes. É grande, maior do que a Garça-real, tem pescoço comprido e pernas longas, o que contribui para o seu aspecto muito elegante. Junto á cauda, as penas rémiges terciárias alongadas caiem sobre aquela, os Grous parecendo peludos como as ovelhas quando vistos ao longe. É uma ave de cor cinzento prateado, mas mais escura no pescoço que, no entanto, é marcado por uma faixa branca, e apresentam uma mancha vermelha, acima dos olhos. Os juvenis apresentam ainda a cabeça e pescoço acastanhados. Tanto os machos como as fêmeas atingem cerca de 1,2 m de altura e 2,40 m de envergadura.

Em voo mantêm o pescoço esticado, e em bando formam frequentemente um V, deslizando e planando nos céus. São típicos os "krrau" constantes que emitem, tanto em voo como no solo.


DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Hoje em dia os Grous concentram-se entre a tundra ártica e as zonas estepárias do Paleártico Ocidental. Noutros tempos esta ave reproduzia-se em locais onde agora se encontra extinta como nidificante, como em Espanha, e distribuindo-se agora durante a Primavera e Verão somente no Norte da Europa.

No Inverno, no entanto, cerca de 45000 aves migram para a Peninsula Ibérica, e destas, um número que varia entre os 2000 e 3000 permanece em Portugal durante o Outono e Inverno.

ESTATUTO E CONSERVAÇÃO

Desde a Idade Média que se regista um marcado declínio desta espécie, devido sobretudo a drenagem de zonas de nidificação. Também nas áreas de invernada, a alteração de habitat é agora uma ameaça. A acelerada transformação da paisagem agrícola, com a evolução de uma agricultura extensiva de sequeiro para uma agricultura intensiva de regadio, ou a florestação com espécies de crescimento rápido com eliminação de montados de Azinho, são factores de degradação das condições de invernada desta espécie.

 

A vulnerabilidade desta espécie, e a redução de área dos habitat de que depende, conferiram ao Grou o estatuto de protecção especial, estando incluido no Anexo II da Convenção de Bona (sobre Conservação de Espécies Migradoras Selvagens), no Anexo II da Convenção de Berna (sobre Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa) e no Anexo I da Directiva 79/409 do Conselho das Comunidades Europeias (referente à Conservação das Aves Selvagens).

HABITAT

Na sua área de nidificação, os Grous ocupam a região da taiga boreal e temperada e a floresta de caducifólias. Nidificam geralmente em terras baixas, mas chegam a reproduzir-se a 2200 m de altitude na Arménia. Encontram-se em turfeiras desarborizadas, pantanosas ou áreas dominadas por urzes, húmidas ou junto a lagos. Reproduzem-se nas clareiras alagadas de florestas de pinheiro densas e pantanosas da Suécia e nas zonas húmidas da Alemanha. As zonas estepárias ou semi-desérticas são também local de nidificação, desde que associadas a água, aliás estes habitat são similiares, aos da Extremadura espanhola, na altura em que ali nidificavam.

No Outono, migram para as áreas de alimentação, áreas agrícolas geralmente com searas, em zonas identicas a savanas como os montados de azinho da Península Ibérica. Nesta altura do ano utilizam dormitórios comunitários, para segurança do grupo, localizados nas margens de superfícies de água, como albufeiras, cursos de água e depressões alagadas, onde a existência de água e boa visibilidade são essenciais. Ao nascer do dia dispersam em bandos pelos campos de alimentação para regressarem ao dormitório ao crepúsculo.


ALIMENTAÇÃO

Os materias vegetais, como rebentos e folhas de cereais e de plantas herbáceas espontâneas, os grãos de cereal e as bolotas das Azinheiras, são os principais componentes da dieta dos Grous, mas estes podem alimentar-se também de invertebrados (insectos, caracóis, vermes, aranhas) e mesmo de alguns vertebrados (cobras, lagartos, rãs e pequenos ratos.

Durante a época de reprodução são fortemente territoriais, e os casais ocupam territórios grandes, mas tornam-se gregários no Outono e Inverno, agrupando-se em bandos de dimensão variável para explorarem em conjunto as áreas de alimentação.


REPRODUÇÃO

Na Primavera os Grous nidificam no chão, ou em massas de água pouco profundas. Os largos ninhos, construídos pelo macho e pela fêmea com a vegetação disponível, são reutilizados em anos sucessivos. O casal tem uma dança -"dança dos grous"- de acasalamento (vénias e saltos altos esvoaçantes) e o casal emite sons agudos em dueto. Ambos os elementos do casal revezam-se, em turnos de 2-4 horas, para a incubação de 2 ovos (raramente 1 ou 3 ovos) durante 30 dias, e no Verão o par reprodutor vive escondido com as crias. Os juvenis atingem a maturidade aos 2 anos de idade.

 

MOVIMENTOS

O Grou é uma espécie migradora, distinguindo-se uma população Oriental e outra Ocidental que seguem rotas migratórias distintas. A população Oriental reproduz-se na Suécia, Finlândia e Rússia, e migra durante o Outono para os Balcãs, Turquia e para a zona Oriental do Mediterrâneo. Os grous da população Ocidental têm como principal área de reprodução o Norte da Europa, a Escandinávia e a Rússia, e depois de percorrerem cerca de 3000 km, a sua maioria inverna na Península Ibérica, mas também são encontrados em Marrocos e em França. Em Portugal, ocorrem nalgumas zonas do Alentejo (ver abaixo), onde podem ser vistos desde o fim de Outubro até fins de Março.


CURIOSIDADES

O Grou é protagonista de mitos e lendas, sendo em certas regiões, um simbolo de longevidade e felicidade.

Os característicos movimentos de dança frequentes na Primavera, podem também ser observados no Inverno, podendo propagar-se de um indivíduo para todo o bando, e podem inclusivé ser induzidos pelo Homem, imitando estes movimentos.


LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

Em Portugal, desde fins de Outubro até fins d Março encontram-se normalmente nos Montados de Azinho do Alentejo. Mais concretamente, há 4 zonas favoráveis de observação:

. Mourão-Moura: é a área mais importante em termos numéricos e estende-se ao longo da fronteira com Espanha onde se encontram vários locais de dormida e onde utilizam uma área de cerca de 36700 hectares para alimentação.

. Évora: nos montados de azinho e searas a sul da cidade, utilizam com regularidade dois locais de dormida, e uma área de alimentação com 14000 ha.

. Campo Maior: também junto à fronteira, utilizam um local de dormida e 19300 ha de montado de azinho.

. Castro Verde: com uma zona principal de dormida, espalham-se por 7700 ha de terreno aberto e montado de azinho disperso.

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