Apesar da queda no tamanho das áreas desmatadas, o número de incêndios florestais na região aumentou mais de 30%.
O número de quilômetros desmatados na Amazônia brasileira entre agosto de 2025 e março de 2026 caiu 36% em comparação com o ano anterior, de acordo com um relatório recente publicado pelo Instituto Brasileiro da Amazônia Humana e Ambiental, também conhecido como Imazon.
No total, 1.460 quilómetros quadrados (564 milhas quadradas) de terrenos foram cortados durante esse período, o valor mais baixo desde 2018.
Paulo Brando, pesquisador e professor associado da Escola de Meio Ambiente de Yale, disse que os números do desmatamento mostram quão bem os líderes nacionais estão administrando a região.
“Em geral, quando você vê não apenas um padrão, mas uma tendência na redução do desmatamento, isso significa que esse tipo de ação tomada pelo governo geralmente está na direção certa”, disse ele.
Pará e Mato Grosso, estados com desmatamento historicamente elevado na Amazônia, registraram reduções acentuadas no período de nove meses mais recente em comparação ao anterior. No Pará, o desmatamento caiu 52 por cento (467 quilómetros quadrados, ou 180 milhas quadradas de terra, menos), enquanto Mato Grosso, o principal produtor de soja do país, registou uma queda de 38 por cento (163 quilómetros quadrados, ou 63 milhas quadradas, menos).
No coração da floresta amazónica, o maior estado brasileiro, Amazonas, também registou um declínio. No total, foram desmatados 219 quilómetros quadrados (85 milhas quadradas), em comparação com 335 (129 milhas quadradas) no período de nove meses anterior.
Ana Clis Ferreira, porta-voz do Greenpeace Brasil, disse que as taxas de declínio são notícias animadoras e podem ser atribuídas ao departamento de meio ambiente da ministra Marina Silva. Ela disse que a restauração e o fortalecimento do Primeiro Plano de Ação para o Controle do Meio Ambiente na Amazônia, a forma como o governo gerencia o fogo e o reforço das operações com o Ibama, instituto brasileiro de meio ambiente e energias renováveis, entre outras coisas, foram ações decisivas que levaram a essa diminuição.
“A história mostra-nos que esta diminuição pode ser frágil e que a destruição ocorre mais rapidamente do que a proteção”, disse Clis Ferreira. “Estamos em ano eleitoral e a dinâmica do desmatamento é altamente sensível às variações na fiscalização e ao contexto político. Além disso, o Congresso tem sido uma ameaça à proteção ambiental.”
Em 2019, o primeiro ano do mandato do presidente Jair Bolsonaro, o país viu os seus números de desflorestação atingirem os níveis mais elevados desde que os dados de satélite foram disponibilizados. O desmatamento no bioma vem diminuindo desde 2020.
O bioma da floresta amazônica atinge partes de nove dos 26 estados do Brasil, e o relatório mostra uma redução drástica no desmatamento em todos, exceto um. Um relatório separado descreve as condições em Roraima, onde a agência espacial brasileira, INPE, que rastreia incêndios florestais, registrou o maior número de focos de incêndio de janeiro a abril deste ano. Sete dos 10 municípios com mais focos de incêndio estavam localizados no estado, que registrou um aumento de 21% no desmatamento. O estado perdeu 222 quilômetros quadrados (86 milhas quadradas) de sua floresta.
Esse relatório descreve o clima em Roraima como geralmente mais seco que o resto da região, o que favorece as atividades que mais prejudicam a floresta tropical, como queimadas e extração de madeira.
Caracaraí, município de Roraima, é foco de focos de incêndio no país há pelo menos três anos. Mais de um quarto dos incêndios em Roraima aconteceram no município, que vinha sendo investigado pela Polícia Federal por incêndios ilegais, conforme noticiou a CNN Brasil. O município também teve o maior desmatamento do país.
Para todo o bioma Amazónico, apesar da desaceleração da desflorestação, o número de incêndios florestais aumentou um terço nos primeiros meses de 2026. Além disso, de acordo com o relatório do Imazon, Março trouxe um aumento de 17 por cento na desflorestação em comparação com o ano passado – de 167 quilómetros quadrados em 2025 para 196 quilómetros quadrados em 2026 (64 milhas quadradas para 76 milhas quadradas).
Larissa Amorim, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Humanidade e Meio Ambiente da Amazônia, disse que os números de março devem servir de sinal para que os governos intensifiquem ainda mais o combate ao desmatamento ilegal, com fiscalização e punição aos infratores. Ela destacou a necessidade de fortalecer as iniciativas bioeconômicas na região, como a produção de açaí, castanha-do-pará e outros produtos, e de designar áreas não utilizadas para conservação.
O relatório mostrou que as áreas de conservação designadas não estavam totalmente protegidas do desmatamento. A área de proteção ambiental de Triunfo do Xingu, no Pará, perdeu 35 quilômetros quadrados (14 milhas quadradas). A região ficou entre os cinco municípios mais afetados no estudo.
Stephen Porder, professor de ecologia da Universidade Brown, disse que ficou encorajado ao ver as taxas de desmatamento na Amazônia caírem. No entanto, ele disse que a região tem visto taxas mais baixas e “realmente o número precisa chegar a 0 muito rapidamente”.
“Temos que estar cientes de que passar do corte do tamanho de Connecticut todos os anos para o corte do tamanho do meu estado natal, Rhode Island, todos os anos é um progresso, mas ainda assim acabará por destruir o resto da floresta”, disse ele.
Ainda assim, Brando e Porder enfatizam a importância das tecnologias de sensoriamento remoto utilizadas para monitorar o desmatamento na Amazônia. O sistema de satélite do Instituto Brasileiro de Humanidade e Meio Ambiente da Amazônia, desenvolvido em 2008, detecta áreas desmatadas por meio de imagens de satélite.
Do ponto de vista científico, disse Brando, é reconfortante saber a dimensão do problema e onde ele se encontra quase diariamente.
“Não vou afirmar que tenho a solução para reduzir o desmatamento aqui, porque é uma questão muito multifacetada”, disse ele. “Mas depende da transparência. Você pode saber o tamanho do problema e depois construir as políticas a partir daí.”
Clis Ferreira disse que ainda é cedo para afirmar que 2026 será diferente dos anos anteriores, pois, historicamente, o desmatamento na Amazônia e em outros biomas apresentou aumentos significativos no segundo semestre. O período está associado à estação seca e a uma maior acessibilidade para abertura de novas áreas.
Mas se os padrões do ano passado se mantiverem, disse ela, “o cenário aponta para uma possível redução histórica na taxa anual de desmatamento na Amazônia”.
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