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Prosa e Poesia nos montados

João Bugalho

Muitas são as formas de transmitir conhecimentos, opiniões e sentimentos. A literatura, para além do seu papel recreativo, tem sido, e continuará a ser, uma excelente via para nos ajudar a melhor compreender e admirar a natureza.

No âmbito do Projecto de Educação Agroambiental “O Mundo Rural e a Conservação da Natureza”, da iniciativa conjunta do IPAMB e do ISA, um dos temas abordados é o da relação entre a carne de porco e os montados. Esse tema chama-se exactamente “O Porco às avessas”, aludindo para que na salsicha, ou nos outros enchidos que as crianças bem conhecem, se conservou a carne, metendo-a dentro da própria tripa do animal. Parte-se depois da salsicha para o conhecimento dos montados de sobro e azinho, ecossistemas da maior importância para o nosso país, quer pelo seu valor económico, quer ecológico. De facto, os montados, para além de suportarem actividades económicas das quais dependem milhares de postos de trabalho, suportam uma fauna de grande importância internacional, já que algumas espécies que hoje se pretendem protegidas porque rareiam, encontram aí o seu habitat preferido.


Nunca é demais chamar a atenção de todos para a importância destes temas e, por vezes, para além da importante informação de carácter científico, outras formas de comunicação conseguem atrair outros tipos de leitores. Aqueles com maior pendor para as letras, mais do que por uma informação científica, deixar-se-ão atrair mais facilmente pela beleza ou valor literário de um texto.

Da Colectânea de Textos Literários realizada no âmbito do referido projecto, salientam-se, a propósito da campanha que agora se iniciou em defesa dos montados, dois textos - um em prosa, outro um poema – que nos cativam e estimulam a melhor compreender o montado de sobro e a exploração da cortiça:


O SOBREIRO


O montado de sobro, na sua soturnidade, é uma das belezas rudes e severas da terra. Sobrevivência da floresta primitiva, fonte apetecida e explorada de riqueza, mau grado as pragas e o desbaratamento económico que tem sofrido, esta árvore mantém em muito a sua robustez bravia e acaso daí a particular sedução que desperta.

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Vivendo nos terrenos mais ingratos, nascido na grande maioria, ao acaso da disseminação natural, suga o sustento modesto nas areias graníticas, nos solos de seco cascalho, obstando neles aos efeitos da depauperante erosão. Vegeta como pode, o que não o impede de atingir por vezes proporções opulentas, desentranhando-se da sua dadivosa produção. Cria a cortiça fina, da qual colhemos metade da produzida em todo o mundo, e da melhor qualidade, dando ainda o entrecasco, utilizado na curtimenta de coiros, as lenhas, o carvão de sobro e também a lande que engorda a cria montanheira – as varas de porcos que em seu pasto fossam no terreno em volta, nutrindo-se do fruto, não tão rico e menos doce do que o da azinheira, mas sem deixar por isso de ter o seu apreciável valor nutritivo.

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É um sinal característico de muitas das zonas meridionais, sobretudo nas proximidades da orla marítima – solos soalheiros e de húmus pobre. Agrupam-se em montados, num revestimento florestal de densidade rala, e de manhã, ou ao entardecer, é de beleza surpreendente ver o sol atravessar por entre os troncos e ramaria, num fino rendilhado de claridade e sombra. Dão alento à charneca, os majestosos sobreiros, tocam de graça forte este mundo desabrido, que os ventos varrem e o sol cresta.

Manuel Mendes
Roteiro Sentimental – A Sul do Tejo

 

CORTICEIROS


No silêncio ardente do dia parado,
Há lida de gente no denso montado.


Há troncos despidos, já lívidos, frios,
E troncos que esperam, em funda ansiedade,
Com gestos convulsos, de sonhos sombrios,
Em dor e silêncio, por toda a herdade. 
 
Os pés descalços trepam ágeis,
Sobem...
O machadinho crava-se e segura,
Como se fora um croque de abordagem,
O homem
A subir, na faina dura.
E lembra-me, assim vistos a distância,
- Os vultos a trepar pelos troncos gigantes –
Como em contos de infância,
Cornacas dominavam enormes elefantes.


Que os troncos majestosos e inermes
Têm o ar daqueles paquidermes,
Lentos, laboriosos, resignados. –
Desses trágicos braços contorcidos,
Que mais tarde, a sangrar,
São a gala maior desta paisagem,
E, agora, estão gelados, confrangidos
Pela tortura sem par,
No pino da estiagem,
Vão homens rudes, escuros e suados,
Lenço metido sob o chapéu largo,
Arrancando aos bocados,
Em férrea luta obscura,
Com qualquer coisa de febril e amargo,
A epiderme dura.


-Oh, velhas árvores dos montados!


E há pasmo na canícula.
E há silêncio, de assombro, na paisagem!


-Troncos dilacerados!...

Francisco Bugalho
Poesia

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