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Escutar Dezembro – A Actualidade de um Diário Antigo

Maria Júdice Borralho
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Não é comum ilustrar períodos, paisagens e acontecimentos a partir dos seus sons, mas subalternizar a audição valorizando a visão não é uma inevitabilidade. Propomos-lhe aqui um percurso por Dezembro, escutando-o.

1

   Ecos silenciosos passam tranquilos enchendo o ar fresco

                                                                                                                                       Hölderlin

Na Natureza, tudo parece existir para os olhos: variedade de paisagens, os documentos da Beleza do rosto da Terra, prodigalidade de cores que brilham no repouso. Tudo começa e acaba com a sensação visual, quase nada parece existir para os ouvidos. O rumor das águas, o estoiro do trovão, o vento que passa, uma assembleia de pássaros, são sons que se perdem entre o céu e a Terra. Valoriza-se a visão e desvaloriza-se a audição?

O Homem, mago imprevisível, inventou a palavra que utiliza no comércio da vida e incendeia a imaginação do poeta, compôs milhões de horas de música, fabricou máquinas com o seu chinfrim, encheu a Terra de sons. Dialogamos, ouvimo-nos uns aos outros. Cada mês é uma floresta de sons, a melodia de Dezembro, porém, é singular, além do mais, repete os ecos de um episódio real que encontrou morada neste mês.

 

2

                                                                             A chuva anda descalça pelas ruas molhadas

                                                                                                                Pablo Neruda


O dia não deu em chuva e a brisa mal se sente, o céu tem a frescura do azul e lá de cima o sol espalha quentura sobre o povoado. Brandura assim no coração de Dezembro faria recear a agonia do Inverno pelo efeito de estufa se a meteorologia não tivesse anunciado que uma tempestade se aproxima. Entre a calma e a grande agitação, a vida não cala o seu rumor. Ressoa à nossa volta a azáfama ruidosa do dia. A voz, o grito, o ritmo, qual teatro em movimento, sobem e descem no cenário da aventura humana, mas os sons do quotidiano, não fazem a marca deste Dezembro que está a passar como onda de pesadas águas.

Acordou vento, aproxima-se o mau tempo. Turva-se a paisagem, o dia vai dar em chuva. O vento varre a rua e sacode árvores desfolhadas aparentemente frágeis mas que resistem, por isso ressuscitarão na próxima Primavera, estrondos arrastados e ribombantes descarregam a trovoada, caiu a vedação do cercado. A chuva bate nos vidros e do choque intermitente das gotas sai um som inspirador, águas descem dos telhados, misturam-se com outras que descem rua abaixo por leito improvisado, como diz o poeta a água anda descalça pelas ruas molhadas. O rugido dos ventos encharcados, o bramir das águas e um uivo de cão assustado, parece um diálogo de fadas zangadas. A TEMPESTADE de Beethoven terá sido inspirada em procela semelhante? Os dedos ágeis do pianista percorrem o teclado. Vão do piano suave ao enérgico súbito e conferem grande beleza à interpretação. A tempestade lá fora e a audição simultânea da sonata, proporcionam momentos de reflexão. Albrecht Dürer afirmou: A arte está na Natureza e quem daí a consegue arrancar possui-a.

Quando da Serra vier o grito gutural do gaio Aah… Aah… Aah anunciará o fim da tempestade.

3                

                                                                              Misteriosa experiência de existir

                                                                                                        Fernando Pessoa

A noite já cobre as casas do povoado. Aproxima-se uma comoção longínqua, o sagrado irrompe subtilmente neste início de noite, o sino desperta ecos adormecido, cânticos entram nos sonhos dos homens, festeja-se o nascimento de um humilde judeu ocorrido no século I num modesto lugar. Do que Ele terá escrito nada chegou até nós, e é pena, porque além do mais, teria sido poeta, também não alterou a situação política, social e económica do país e viveu pobremente porém, acabou por ser uma das figuras mais importantes da História da humanidade. A memória não tem presente mas alimenta-o, aquele acontecimento antiquíssimo, vai dar vida a esta noite e ao dia de amanhã impregnando-os de poeira de sagrado.

 

 

O Tempo retirou-se para deixar o povo entregue à festa e a noite escorre pelos meandros da memória. Tudo vai ser revivido, tudo vai ser reencontrado. Narrado por Lucas, sente-se a vibração poética do episódio bíblico dos pastores, naquela serena noite em Belém. A cena apresenta-se silenciosa, estática. Os pastores que conquistaram a intimidade dos campos, sentiam o rebanho saciado, e respeitavam o silêncio do pássaro que dorme, não perguntaram à noite que rolava se escondia alguma surpresa. Eles estavam no campo e guardavam durante as vigílias da noite o seu rebanho, informa o evangelista. De súbito tudo se anima, ganha movimento e raro fulgor: um anjo vindo do alto precipita-se na cena, enche-a de etérea luz e deixa os pastores assustados até à inércia: eis que o anjo do Senhor veio sobre eles e a glória do Senhor os cercou de resplendor e tiveram grande temor. Solta-se-lhes a respiração quando o anjo dá a grande notícia, atingem o clímax do espanto, quando um coro de anjos vindos pelas estradas do céu se junta ao primeiro.Tudo voltou ao silêncio inicial.

Vamos até Belém e vejamos isso que acontece, disseram os pastores. E foram apressadamente e acharam Maria e José e o Menino deitado na manjedoura.

 

4

                                                  Duração profana em que se desenrola a humana existência

                                                                                                                           Mircea Eliade

Dezembro está a cumprir-se, como onda cujo corpo sevai descontrair até ao abandono final. Dezembro entrou discretamente, não fez ruído, não repicaram sinos, não estalaram foguetes mas vai acabar no meio de grande euforia.

 

 

Dança-se freneticamente festejando o derradeiro dia. A música torna irrequieto o mais sedentário. Quando as doze badaladas começam a soar há risos, gritos, abraços e um gordo fogo-de-artifício. A alegria continua com mais música mais sapateado até que chega o silêncio final.

Dezembro cumpriu-se qual onda a desfazer-se no areal, por onde as águas deslizam e espalham a branca espuma.


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