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Ficha da Rã-ibérica

Joana Teixeira Ribeiro

Endémica do Noroeste da Península Ibérica, a rã-ibérica é uma ilustre habitante das nascentes dos rios, amante das águas límpidas, frias e rápidas. Distribui-se numa mancha quase contínua a norte do rio Tejo, com um só núcleo populacional a sul deste, na Serra de S. Mamede.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
A rã-ibérica, Rana iberica, é um anuro (anfíbio sem cauda) cujo comprimento raramente ultrapassa os 5,5 cm. Rã esbelta de focinho pontiagudo, possui olhos grandes e proeminentes com pupila horizontal elíptica. Ao contrário da rã-verde (Rana perezi), os seus tímpanos são pequenos e geralmente pouco perceptíveis. Nos membros anteriores possuem quatro dedos e nos longos membros posteriores, adaptados ao salto, têm cinco dedos unidos por membranas interdigitais bem desenvolvidas. A pele é lisa, possuindo pequenos grânulos na região dorsal. Apresenta pregas cutâneas dorsolaterais paralelas e bem separadas entre si, que se estendem desde o olho até à parte posterior do corpo. Não possui sacos vocais nem glândulas parótidas. A coloração dorsal é muito variável, havendo predominância de tons acastanhados, alaranjados ou mesmo avermelhados. Possui uma característica mancha pós ocular escura, que vai diminuindo de largura até à parte posterior, e, debaixo desta, uma estreita banda esbranquiçada que se estende desde a parte inferior do olho até ao ângulo da boca. A região ventral é esbranquiçada, podendo apresentar um reticulado escuro mais intenso na garganta.

As fêmeas são geralmente maiores do que os machos, que são mais esbeltos, possuem membros anteriores mais robustos e, durante o período de acasalamento, desenvolvem rugosidades negras nos dedos internos destes membros.

As larvas podem atingir os 5 cm de comprimento total, com o espiráculo situado no flanco esquerdo do tronco. A coloração é acastanhada ou acinzentada, com numerosas manchas escuras e claras arredondadas. É possível observar o intestino através da pele transparente do ventre.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
A rã-ibérica é uma espécie endémica do quadrante Norocidental da Península Ibérica, ocorrendo desde o nível do mar até aos 2424 m. Em Portugal, ocorre desde o nível do mar até aos 1900 m, na Serra da Estrela, distribuindo-se de forma praticamente contínua a norte do rio Tejo. A sul do rio Tejo ocorre apenas na Serra de S. Mamede.

 

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Encontra-se listada como Quase Ameaçada na Lista Vermelha da UICN por se encontrar em declínio significativo.

FACTORES DE AMEAÇA
Anfíbio particularmente ameaçado pela poluição dos cursos de água por efluentes industriais e domésticos, e pela destruição dos habitats ribeirinhos. Outras ameaças incluem o abandono de algumas práticas agrícolas tradicionais (p.ex.: lameiros), e ameaças globais como a disseminação de doenças infecciosas e as alterações climáticas.

HABITAT
Habita zonas montanhosas, perto de ribeiros de água limpa, com substrato rochoso e vegetação abundante nas margens. Pode ainda ser observada numa grande variedade de habitats incluindo charcos, prados húmidos e terrenos encharcados, com muita vegetação envolvente. Espécie tipicamente associada a habitats de características atlânticas, ocorrendo com frequência em simpatria com outros endemismos do Noroeste peninsular, como a salamandra-lusitânica e o lagarto-de-água.

 

INIMIGOS NATURAIS
Os seus principais predadores são as cobras-de-água, as trutas e pequenos mamíferos carnívoros. As larvas podem ser predadas por insectos aquáticos, cobras-de-água, trutas e pelo tritão-marmoreado. O principal mecanismo de defesa dos adultos desta espécie é a fuga para água.

 

REPRODUÇÃO
O período reprodutivo estende-se geralmente de Novembro a Março, variando com a altitude. O acasalamento é mais frequente durante a noite, sendo o amplexo axiliar. A fêmea deposita as posturas (100 a 450 ovos) em massas esféricas e compactas na vegetação aquática, entre pedras, em zonas de remanso de ribeiros ou no fundo lamacento de charcos. O desenvolvimento larvar dura cerca de três meses.

ALIMENTAÇÃO
Alimentam-se essencialmente de pequenos invertebrados, como aranhas, larvas de insectos, caracóis e escaravelhos.

 

ACTIVIDADE
Apresenta actividade diurna bem como nocturna. Encontra-se activa durante todo o ano, embora seja menos conspícua nos dias mais frios de Inverno e durante os meses quentes de Verão.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA
Almeida, N.F., Almeida, P.F., Gonçalves, H., Sequeira, F., Teixeira, J. & Almeida, F.F. (2001) Guia FAPAS Anfíbios e Répteis de Portugal. FAPAS. Porto. 249pp.

Barbadilho, E. & Javier, L. (1987) La guia de incafo de los anfíbios y reptiles de la Peninsula Iberica, islas baleares y Canárias. Incafo, S.A. 694 pp.

Teixeira, J. (2008): Rana iberica. Pp. 124-125, in: Loureiro, A., Ferrand de Almeida, N., Carretero, M.A. & Paulo, O.S. (eds), Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Lisboa.

http://www.iucnredlist.org

 


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