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Zooplâncton Estuarino

Susana Ribeiro

O zooplâncton é constituído por pequenos animais cujas deslocações são asseguradas pelas correntes, ainda que a maioria destes organismos efectue migrações verticais e/ou sazonais. Desempenham um papel fundamental nos ecossistemas estuarinos.

O zooplâncton é extremamente diverso, sendo constituído pelos organismos cujas deslocações são asseguradas pelas correntes (plâncton) e que não têm a capacidade de produzir o seu próprio alimento (heterotróficos).

É possível reconhecer categorias distintas de animais consoante a sua localização neste ecossistema: o Pleuston, animais e vegetais cujas deslocações são fundamentalmente asseguradas pelo vento; e o Neuston, animais que vivem nas camadas superficiais. O Neustonm, por sua vez, pode ainda ser subdividido em Epineuston, animais que se encontram na interface ar/água, e Hiponeuston, que compreende os organismos que habitam os primeiros 10 cm da coluna de água. Nesta última categoria, temos como exemplo os copépodes (Classe Crustacea, Filo Arthropoda).

Pleuston é constituído por organismos do Filo Cnidaria, como por exemplo as medusas.


Pandea conica - Filo Cnidaria

Há organismos que passam todo o seu ciclo de vida no seio do Neuston (holoplâncton), enquanto outros ocorrem apenas durante parte do seu ciclo vital (meroplâncton), como por exemplo o caranguejo, que apenas é planctónico no seu estado larvar.



É possível encontrar, ainda, no domínio neustónico numerosas espécies que vivem no fundo estuarino – bentónicas, durante o período diurno e que efectuam migrações verticais durante a noite para se alimentarem.

Os grupos dominantes do holoplâncton pertencem aos Phylum: Sarcomastigophora, Cnidaria, Ctenophora (grupo maioritariamente planctónico), Nemertina, Annelida, Mollusca, Arthropodam, Chaetognatha e Chordata.


Nautilus

Na maioria dos sistemas estuarinos é a jusante que se verifica uma maior diversidade específica, tendendo a diminuir nas regiões intermediárias, sofrendo um ligeiro acréscimo próximo do limite superior do estuário, devido à presença de espécies dulciaquícolas.

A maior ou menor abundância de zooplâncton estuarino está relacionada com a turbidez da água, que funciona como um factor limitante da produção primária, e com as correntes que tendem a transportar os organismos para o domínio marinho. Este último factor é contrariado pelo facto dos zooplanctontes exibirem estratégias de retenção, que utilizam as correntes de entrada de água no estuário para lá permanecerem e evitam as correntes de saída de água, dirigindo-se para zonas mais profundas.



Migrações verticais

A maioria dos zooplanctontes fazem migrações verticais na coluna de água, numa média de 400 m para as espécies de menores dimensões e de 600 a 1000 m, para as espécies de maiores dimensões. Estas migrações podem ser realizadas duas vezes por dia.

Os movimentos verticais estão relacionados com a alternância noite/dia. Os organismos realizam migrações ascendentes durante o período crepuscular, a partir da profundidade diurna; descem a meio no período nocturno, voltam a subir na coluna de água com o raiar da aurora e finalmente, após o nascer do dia, retornam à profundidade diurna.


Bolinopsis vitrea

Apesar da maioria dos animais fazerem migrações verticais, não é sempre assim. Estes movimentos, podem ser suprimidos em determinadas fases do ciclo de vida. Algumas espécies não apresentam qualquer tipo de migração enquanto outras apresentam migrações inversas, ficando à superfície durante o dia e em zonas mais profundas durante a noite, outras espécies podem ainda migrar a diferentes profundidades durante o dia e em diferentes regiões.

Os estados do ciclo de vida que não efectuam migrações estão normalmente associados a períodos de não alimentação, enquanto que os períodos com migrações mais marcantes são os que exigem mais alimento. No entanto, parece não haver dúvidas sobre as variações na intensidade da luz como factor principal destes movimentos. Outros factores de interesse são a temperatura, a pressão e a atracção gravítica.



O zooplâncton de maiores dimensões faz migrações, durante a noite, menos frequentes do que as formas mais pequenas, sugerindo que a predação visual nocturna de certos peixes planctívoros pode ser um importante factor de pressão selectiva. Apesar da luz ser um factor essencial nas migrações, outros, tais como a idade, o sexo ou a proximidade da época de postura, podem regular as migrações individuais.


Aequorea victoria

As vantagens da migração estão relacionadas com a alimentação, reprodução (certos animais vêm à superfície para realizarem a postura), predação no bentos, como é o caso dos amphipodes que evitam a intensa predação à noite através deste processo.

O padrão de migração varia entre espécies ou dentro da mesma e está provavelmente dependente da capacidade natatória dos organismos.


Alguns copépodes evitam as correntes fortes que entram no estuário, permanecendo junto ao fundo, fazendo migrações quando a velocidade das correntes de superfície é fraca. Por outro lado, algumas espécies apresentam uma boa habilidade natatória, mantendo a sua posição primariamente pela migração lateral, evitando as correntes fortes de saída do estuário, altura em que se concentra junto ao fundo, mas aproveitando as correntes fortes de entrada no estuário para se fixar no interior do mesmo.


Copépode

Variações temporais e espaciais

Ao longo de um período anual, verifica-se uma sucessão de organismos. Algumas formas meroplanctónicas, apresentam um período de vida planctónica estreitamente relacionado com a temperatura média das águas.

Estes organismos meroplanctónicos (larvas de Hydrozoa, Polychaeta, Crustacea, assim como larvas de peixes) podem dominar, em certos períodos do ano estuarino. Os organismos holoplanctónicos também apresentam variações importantes, que estão relacionadas com alguns parâmetros físico-químicos das águas.



Normalmente verifica-se um sincronismo da reprodução com os máximos de produção fito e zooplanctónica. No Atlântico, anualmente ocorrem dois picos de abundância, nos períodos primaveril e outonal. Nos estuários, verifica-se um máximo no final do período primaveril. A produção primária e secundária nos estuários é condicionada pela turbidez, transporte da maré e sem dúvida pela concentração de nutrientes.


Caranguejo

Em latitudes polares, as migrações são predominantemente sazonais. Durante o verão polar, os organismos permanecem à superfície e no longo Inverno polar voltam para zonas de maior profundidade.

Em termos da distribuição espacial, podem-se reconhecer dois tipos, a distribuição nerítica e oceânica. O plâncton nerítico é constituído fundamentalmente por formas larvares de organismos bentónicos (meroplanctónicos). Contrariamente, no plâncton oceânico, aparecem formas de organismos nectónicos. Determinadas espécies podem ser indicadoras de águas costeiras, oceânicas ou intermédias, como é o caso do género Sagitta dos Chaetognatha. Esta distribuição está ainda relacionada com diversos factores como a salinidade, temperatura, oxigénio dissolvido e nutrientes.

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