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Sobreiros e Montados

Cristina Pereira

O sobreiro e a cortiça têm uma excepcional importância ecológica e socio-económica no nosso País. Conheça um pouco do que se passou nos muitos séculos de história da sua exploração.

O sobreiro (Quercus suber), surgiu no final do Miocénico no Mediterrâneo Ocidental. Com a fixação dos agregados familiares, o sobreiro passa a ser encarado pelo homem primitivo como um bem precioso, fonte de alimento, de lenha para se aquecer e de material para o revestimento e isolamento das suas casas. 
 
No reinado de D. Dinis aparecem, nas cartas de criação das coutadas, medidas com o objectivo de proteger o sobreiro e a azinheira, que proibem e punem práticas já na altura consideradas maléficas: caso das queimadas, do varejamento indiscriminado do fruto, da colheita abundante de rama verde para alimentação do gado e sobretudo cortes indevidos. Eram também atribuídas compensações a quem protegesse os novos chaparros. O objectivo primeiro destas medidas era a preservação dos sobreiros e azinheiras tendo em vista a conservação do ambiente propício à caça e ao desenvolvimento de animais, como ursos, corços, veados e javalis com fins cinegéticos. Desde então, uma vasta legislação relativa ao sobreiro, ao montado e à cortiça foi sendo promulgada pelos nosssos reis incidindo sobre variados aspectos, desde a exploração ao comércio da cortiça.

É contudo no século XX que a legislação do sobreiro assume a sua maior expressão através de diplomas que visam não só a sua conservação mas também o seu fomento e adequada gestão.

Para isto contribuiu grandemente o facto dos sobreiros passarem a ser encarados, desde meados do século XVIII, como matéria-prima indispensável à produção de rolhas para engarrafamento de bebidas. Tal deve-se ao famoso D.Pierre Pérignon, mestre dispenseiro da abadia de Hautvillers, que adoptou a cortiça como vedante das garrafas do vinho espumoso da região - o Champagne - em substituição da lascas de madeira forradas a canhâmo e embebidas em azeite.


No entanto, o tratamento e exploração sistemático dos sobreirais, visando a produção suberícola, só se generaliza, nos moldes próximos dos que ainda hoje perduram, na segunda metade do século XIX.


Em Portugal, a grande mancha suberícola localiza-se sobretudo a sul do Tejo, onde é a espécie dominante, e a norte do Tejo na região pertencente ao distrito de Santarém. A área ocupada pelo sobreiro, em povoamento puro e misto dominante corresponde a 22% da área florestal nacional, sendo apenas ultrapassado pelo pinheiro bravo.


Da área total mundial ocupada pelo sobreiro, Portugal, com 730 000 hectares é o país com maior área, seguido da Espanha e da Argélia. 
 
A realização de cortes rasos para ocupação agrícola com cereais, as podas violentas e o abandono puro e simples a que estiveram votados os montados, contribuíram para uma acentuada degradação destes ecossistemas. Associados a estes factores de degradação surgiram uma série de pragas e doenças, reflexo do debilitado estado sanitário a que chegaram os povoamentos.


Este processo degradativo tem uma forte influência na abundância, riqueza, diversidade e estabilidade das comunidades animais dos montados, influenciando negativamente o seu valor económico e biológico.


Alguns passos têm sido dados no sentido de alterar esta situação. O incremento da investigação científica, na tentativa de determinar as causas de enfraquecimento e morte dos sobreiros, o fomento de actividades complementares que aumentem e faseiem no tempo os rendimentos provenientes da exploração corticeira dos montados, são passos importantes para que o montado ocupe um dos lugares cimeiros na floresta portuguesa.
 
Actualmente o montado de sobro é explorado num sistema que se designa por uso múltiplo, de complexidade variável. À utilização suberícola e cerealífera junta-se a criação de gado, a exploração cinegética, a utilização dos matos e plantas aromáticas e o fomento de um conjunto de actividades, como a observação de aves, os passeios equestres, ligadas ao turismo em espaços rurais.


A paisagem dos montados merece, pela sua beleza, biodiversidade e importância socio-económica, continuar a ser apreciada e conservada por todos.


 

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