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Biografia de Eugene Odum (1913-2002)

António Barreto

Eugene Odum, pioneiro da ecologia moderna e figura incontornável do seu ensino e divulgação, é identificado nas mentes dos seus alunos na Universidade da Georgia com a frase “o ecossistema é maior que a soma das suas partes”. Faleceu em Agosto de 2002.

Eugene Odum nasceu em Chapel Hill, Carolina do Norte, Estados Unidos da América, em 17 de Setembro de 1913. Era o filho mais velho do distinto sociólogo Howard W. Odum. É ao pai que Eugene atribuiu a sua própria capacidade de pensar holisticamente, aspecto que determinou o seu precurso científico. 
 
Eugene graduou-se na Universidade da Carolina do Norte e doutorou-se na Universidade de Illinois em 1939. Depois do doutoramento foi contratado pela Universidade de Georgia como professor de zoologia, onde ensinou, mesmo depois de reformado em 1984, até à sua morte em 2002.

Odum foi quase sempre contra a corrente de pensamento científico dominante. Tal como descrito na sua biografia no “Ecology Hall of Fame”, Odum suportou a hipótese de Lovelock e Marguli de que a terra é uma entidade auto-regulável, mantendo, no entanto, reservas de que é auto-organizável. Desenfatizou as teorias da evolução porque achava que os estudos da evolução focavam demais o organismo individual e o seu código genético. Tirou importância a um dos mais populares “slogans” do movimento ambientalista “small is beautiful”, mudando-o para “small is beautiful, but Big is powerful”.

Durante o seu percurso profissional, Eugene Odum demonstrou o que significa a palavra ECOLOGIA, primeiro aos seus cépticos colegas, depois ao resto da comunidade académica e finalmente ao país e ao mundo. Estudou o sistema como um todo e demonstrou o poder desse conceito. Trouxe uma nova abordagem à visão sobre o ambiente e transformou a ecologia numa nova ciência integrativa. Explorou ligações entre lagos, plantas, animais, clima, tempo, etc. Ultimamente fez notar que a teoria dos ecossistemas fornece um denominador comum para o Homem e a Natureza e que os benefícios e malefícios de ambos são interdependentes: sem sistemas naturais saudáveis para suportar actividades industriais, urbanísticas, agrícolas, etc., não pode haver uma economia saudável ou uma elevada qualidade de vida.

 

Durante a sua vida, Eugene Odum ganhou três prémios internacionais e publicou vários livros dos quais se destaca a obra Fundamentals of Ecology, escrita em colaboração com o seu irmão, Howard Odum, cuja primeira edição foi publicada em 1953. Durante dez anos, este foi o único livro existente sobre o tema. Ainda hoje o livro de Odum continua a ser “O Livro” para o estudo científico da ecologia. Em breve será publicada a sua 5ª edição.

Eugene Odum foi eleito membro da “National Academy of Sciences” em 1975. Faleceu na sua casa de Athens, em Agosto de 2002, com 88 anos de idade.

 

Tradução da entrevista efectuada por Daniel Edelstein a Eugene Odum, publicada em 27 de Outubro de 2000 em BioMedNet (www.bmn.com)

Daniel Edelstein (DE) – Como se descreve a si próprio?

Eugene Odum (EO) – Sou um ávido ecologista e ambientalista

DE – O que é que em primeiro lugar o inspirou para se dedicar ao seu campo de trabalho?

EO – Na pequena cidade onde cresci podia-se sair de casa e entrar imediatamente na floresta. Assim, em criança, interessei-me por aves. Inspirava-me identificá-las e estudar os seus cantos e chamamentos. Depois de conhecer todas as aves, passei a questionar-me sobre o ambiente em que viviam. A ecologia da paisagem em que viviam intrigava-me.

DE – Porque pensa que fez tantos avanços durante a sua carreira?

EO – Porque fui capaz de ver os sistemas numa perspectiva “do todo”, em vez de ver só as partes. Olhei para as grandes questões juntando todas as peças do “puzzle”.

DE – O que é que gosta acerca do seu trabalho?

EO – Não é unicamente excitante explorar o mundo. É bom ter a sensação de contribuir um pouco para esse mundo, sendo um professor, educando.

DE – O que é que não gosta no seu campo de pesquisa?

EO – Arranjar financiamento é actualmente difícil. Um dos aspectos mais duros na minha profissão é ter de escrever propostas para receber dinheiro para a investigação.

DE – Há aspectos que alteraria?

EO – Não mudaria nada!

DE – Qual foi a sua primeira experiência científica?

EO- Foi o estudo da ecologia de uma parcela de terreno depois de ser fertilizada, observando as consequentes alterações.

DE – Quais foram os resultados da sua primeira experiência?

EO – Bons!

DE – Como é que essa experiência aumentou a sua maturidade como cientista?

EO – Ensinou-me que para verificar se algo é verdade, tem que se fazer um bom teste. Aprendi que não podia aceitar a teoria simplesmente, mas que tinha que testá-la.

DE – Como eram os seus professores de ciências no liceu?

EO – Tive um professor de física que era bastante exigente.

DE – Isso inspirou-o?

EO – Sim, no sentido de que aprendi que nada se consegue facilmente.

DE - Qual é o seu maior motivo de orgulho?

EO – Os livros que publiquei, incluindo “Fundamentos de Ecologia”, que originalmente não tinha mercado porque nessa época não havia cursos de ecologia. As coisa mudaram, claro, e o meu livro ainda é utilizado.

DE – Qual é o seu conselho para um jovem cientista?

EO – Seja o que for que te dá prazer fazer, vai em frente e fá-lo. Faz aquilo que te inspirar.

DE – Em que áreas pensa que precise, você próprio, de conselhos?

EO – Em trabalhar arduamente e aceitar desafios.

DE – O que seria se não fosse cientista?

EO – Seria canalizador.

DE – Porquê?

EO – Eu era tímido quando era jovem, e gostava de saber como é que as coisas funcionavam em conjunto. Tal como na ecologia, notando como as coisas interagem.

DE – Qual o cientista da História que gostava de conhecer?

EO – Aldo Leopold, o ecologista e escritor.

DE – O que lhe perguntaria?

EO – Perguntar-lhe-ia porque é que ele não publicou mais livros, incluindo um estritamente dedicado à ética da terra, desenvolvendo este tema para além das suas ideias iniciais expressas em “The Sand County Almanac”.

DE – Qual o cientista vivo que mais admira?

EO – Lynn Margulis, professor da Universidade de Massachusets.

DE – Qual foi a maior descoberta científica no século XX?

 

EO – A estrutura do DNA.

DE – Porquê essa?

EO – Porque abriu novas oportunidades para muitos campos de investigação e porque levantou novas perguntas sobre a questão de até onde queremos “brincar a ser Deus”, digamos assim.

DE – Quais serão as grandes descobertas deste século?

EO – A maneira de desenvolver uma fonte de energia renovável que passe a integrar o nosso programa energético.

DE – Quais os objectivos de investigação que os cientistas devem impor a si próprios?

EO – Manterem-se focados e serem persistentes.

DE – Como é que a Internet influenciou o que faz para além de lhe proporcionar o e-mail?

EO – Não usei muito a Internet, mas um livro em que estou a trabalhar pode vir a ser publicado “on-line” e vendido através da Internet.

 

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