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O Papa-ratos, uma garça rara em Portugal

Helena Barbosa e Florbela Elias

O Papa-ratos é uma garça migradora transaariana, de bela plumagem, e também uma das mais raras na Europa. No nosso País, a sua tendência populacional é desconhecida, não estando bem determinadas a sua distribuição e abundância.

O Papa-ratos (Ardeola ralloides) pertence à família dos Ardeídeos (garças), que inclui o maior número de espécies nidificantes de aves aquáticas em Portugal. É uma garça de tamanho médio, com plumagem branca no abdómen e asas, e pardacenta no dorso, o qual na época de reprodução, adquire uma coloração castanho-alaranjada. Habita em zonas inundadas de água doce, pouco profundas e com vegetação densa onde forma, geralmente, uma minoria em colónias mistas de garças.

Apresenta uma distribuição dispersa através da Europa Meridional, do Sudoeste da Ásia, Norte e Centro de África. É considerada uma das garças mais raras na Europa, o que condiciona a informação disponível, não estando sequer bem determinadas as suas condições de ocorrência. Esta situação é agravada pelo facto de ser uma ave migradora que percorre milhares de Km, entre as áreas de reprodução e invernada, atravessando fronteiras de países e continentes o que dificulta a recolha de dados sobre a ecologia da espécie e consequentemente, a tomada de medidas para a sua conservação.

Para além do seu interesse científico e importância como parte do nosso património biológico, o Papa-ratos, assim como o resto dos Ardeídeos, pertencendo ao topo da cadeia alimentar, pode funcionar como indicador biológico das biocenoses aquáticas permitindo definir critérios de avaliação relevantes no âmbito da conservação de zonas húmidas.

Uma das maiores ameaças à espécie foi o comércio de penas que ocorreu durante o séc. XIX e princípio do séc. XX, que afectou principalmente as populações da Europa e Ásia. Posteriormente, como consequência da industrialização e aumento da densidade populacional humana, surgiu outra séria ameaça - a fragmentação e destruição do habitat. A estrita associação que estabelecem com zonas húmidas torna-as susceptíveis a fortes pressões humanas de vária ordem: poluição, actividades do sector primário (agricultura, pastoreio, pesca) e actividades recreativas (motas de água, esqui aquático, caça), não estando as colónias aí existentes protegidas devido à fácil acessibilidade destes habitats.



Nos últimos anos, e de acordo com contagens realizadas em Espanha, França e Itália, onde existem as colónias mais significativas na Europa Ocidental, as populações desta garça têm vindo a aumentar devido à criação de reservas, implementação de medidas de protecção e redução de predadores. Outro factor que permitiu este crescimento foi a sua adaptação a habitats transformados, como é o caso dos arrozais, utilizados como zonas de alimentação e que suprimem em parte a ausência de áreas naturais inundadas. Contudo, têm surgido problemas devido a mudanças nas práticas agrícolas que conduzem à redução e contaminação das populações-presa, como sejam a introdução de métodos de irrigação mais eficientes e a utilização de pesticidas. De facto, o uso massivo de compostos químicos afecta toda a cadeia alimentar provocando um efeito tóxico cumulativo nos predadores do topo.



As alterações climatéricas que têm ocorrido nas últimas décadas agravam situações de seca, provocando o desaparecimento de zonas húmidas pondo em perigo todas as espécies que delas dependem, como é o caso do Papa-ratos que prefere áreas de climas quentes, onde este problema tem sido mais acentuado.

O Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal atribui a esta espécie o estatuto indeterminado; de facto é descrita como pouco abundante sendo desconhecida a sua tendência populacional. É considerada mais rara no Norte do país do que no Centro e Sul, regiões onde é provável que nidifique, facto que só foi confirmado no Paúl do Boquilobo. No entanto, existem observações de indivíduos em plumagem nupcial noutros locais (ex.: Estuário do Tejo, Ria Formosa), embora de forma esporádica e irregular.



No Paúl do Boquilobo, a população nidificante de Papa-ratos tem vindo a decrescer desde os anos '60, altura em que foram estimados cerca de 10 a 15 casais. A última confirmação de nidificação data do início dos anos '80, porém o facto de, esporadicamente serem feitas observações de indivíduos em plumagem nupcial leva a supôr a existência de alguns casais que aí nidifiquem. A falta de registos de observações que confirmem a nidificação desta ave deve-se a dificuldades de ordem vária: baixo efectivo em relação ao número total de aves existentes na colónia; natureza esquiva e hábitos crepusculares; inacessibilidade da colónia, agravada pela proliferação do Jacinto-de-água.

Tendo em conta a situação precária desta espécie em Portugal e a quase inexistência de informação, torna-se urgente desenvolver projectos que permitam a curto prazo acumular conhecimentos sobre ela, com o objectivo de tomar as medidas conservacionistas adequadas. Deste modo, sugere-se a inventariação dos locais potenciais onde pode nidificar sabendo qual o habitat preferido. Depois de confirmada a sua presença, devem realizar-se censos para a determinação de parâmetros populacionais (abundância, densidade populacional e nº de casais reprodutores), mas com extremo cuidado uma vez que a simples aproximação pode levar ao abandono da área de reprodução, mesmo que esteja a ser utilizada há vários anos. Por esta razão são fortemente desaconselhadas técnicas de anilhagem e armadilhagem. É importante organizar um plano de monitorização para detectar as tendências populacionais e evitar o desaparecimento da espécie. Face ao que foi anteriormente referido sobre a utilização de arrozais como zonas de alimentação e seu impacto negativo sobre a ornitofauna, é urgente implementar medidas racionais de gestão para práticas agrícolas sensíveis do ponto de vista ambiental.



O futuro desta espécie depende da manutenção e gestão dos habitats que usam ao longo do seu ciclo anual (locais de reprodução, de invernação e locais de passagem durante a migração), quer sejam naturais ou artificiais, e da criação e recuperação de zonas que possam vir a albergar colónias mistas de garças.

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