Prosa e Poesia nos montados

João Bugalho
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O SOBREIRO


O montado de sobro, na sua soturnidade, é uma das belezas rudes e severas da terra. Sobrevivência da floresta primitiva, fonte apetecida e explorada de riqueza, mau grado as pragas e o desbaratamento económico que tem sofrido, esta árvore mantém em muito a sua robustez bravia e acaso daí a particular sedução que desperta.

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Vivendo nos terrenos mais ingratos, nascido na grande maioria, ao acaso da disseminação natural, suga o sustento modesto nas areias graníticas, nos solos de seco cascalho, obstando neles aos efeitos da depauperante erosão. Vegeta como pode, o que não o impede de atingir por vezes proporções opulentas, desentranhando-se da sua dadivosa produção. Cria a cortiça fina, da qual colhemos metade da produzida em todo o mundo, e da melhor qualidade, dando ainda o entrecasco, utilizado na curtimenta de coiros, as lenhas, o carvão de sobro e também a lande que engorda a cria montanheira – as varas de porcos que em seu pasto fossam no terreno em volta, nutrindo-se do fruto, não tão rico e menos doce do que o da azinheira, mas sem deixar por isso de ter o seu apreciável valor nutritivo.

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É um sinal característico de muitas das zonas meridionais, sobretudo nas proximidades da orla marítima – solos soalheiros e de húmus pobre. Agrupam-se em montados, num revestimento florestal de densidade rala, e de manhã, ou ao entardecer, é de beleza surpreendente ver o sol atravessar por entre os troncos e ramaria, num fino rendilhado de claridade e sombra. Dão alento à charneca, os majestosos sobreiros, tocam de graça forte este mundo desabrido, que os ventos varrem e o sol cresta.

Manuel Mendes
Roteiro Sentimental – A Sul do Tejo

 

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