Heráclito e o Rio

João Bugalho
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Em Engels (1820-1895) cuja raíz filosófica é considerada por muitos como mais profunda que a de Marx, vamos encontrar um sistema dialéctico para a natureza que contém as três leis da dialéctica materialista. A segunda lei designou-a por lei da compenetração dos contrários, segundo a qual a contradição é a origem do movimento.

É precisamente baseado em Engels que Stalin (1879-1953) - segundo Klimke-Colomer em Historia da Filosofia – esboça as seguintes teses:

“O cosmos não pode ser considerado como uma acumulação de casos e acontecimentos, independentes entre si, mas sim como uma totalidade unitária em que as coisas e os acontecimentos estão orgânicamente enlaçados, dependendo e condicionando-se uns aos outros; a natureza não deve entender-se num estado de repouso ou imobilidade mas sim num movimento incessante e numa mudança constante de renovação e evolução; a dialéctica considera o processo evolutivo como um desenvolvimento que passa de mudanças quantitativas insignificantes e ocultas a mudanças visíveis, fundamentais, qualitativos e isto como que em saltos repentinos e não graduais; este processo evolutivo é determinado pela lei da unidade e da luta dos opostos segundo a qual a luta entre o velho e o novo, o que perece e o que nasce, constitui o núcleo interno da evolução e do seu salto de quantitativo a qualitativo; a natureza do cosmos é material , os diversos fenómenos que nele se dão representam somente diferentes formas de matéria e o desenvolvimento inteiro do cosmos rege-se por leis do movimento da matéria sem que seja necessário recorrer à hipótese de um Espírito Cósmico; a matéria, a natureza e o ser constituem a realidade objectiva que existe fora da consciência e independente dela; o pensamento é um produto da matéria, mais em concreto, um produto do cérebro e não pode separar-se dela sem que se caia num erro crasso; o universo e as suas leis são cognoscíveis, no cosmos não se dão coisas incognoscíveis mas apenas coisas que ainda não são conhecidas e que o serão pelo esforço da ciência e da praxis.”


Fotografias de José Romão

Recentemente, num polo quase diametralmente oposto, bem diferente destes na sua essência e nalguns aspectos específicos, nomeadamente na compreensão das teorias evolucionistas, deparamos com as teorias bem recentes de Edward O. Wilson – seguramente um dos mais importantes pensadores e cientistas actuais e pioneiro dos mais modernos e profundos estudos sobre a biodiversidade, bem no cerne do pensamento científico contemporâneo.

Wilson intitulou o seu último livro de Conscilience. Esta palavra, que construiu repescando da etimologia e buscando nos significados mais antigos, pretende significar a fusão, a integração dos conhecimentos parciais num todo, a fusão das ciências, a fusão mesmo das artes e da ciências para o conhecimento integrado, sem a qual não será possível a mais profunda e mais global compreensão de todas as coisas!

Parece que dois mil e quinhentos anos depois, a corrente do rio em que mergulhou Heráclito chegou assim, fresca, torrencial, aos nosso tempo...

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