O Futuro é Biológica e Espiritualmente Aberto

Maria Júdice Borralho
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Curiosamente a revista CAIS de Outubro de 2007 inclui um texto repassado de amargura e sofrimento escrito por Arnaldo Rozembaum Spatz. Ele, que eleva ao expoente máximo o seu pessimismo, vive as plurais misérias da época: uma vida opaca e vazia, considera-se uma mazela, um peso morto e sente-se tratado como lixo. A solidão o medo, a pobreza, a dor, são os ingredientes que fazem o quotidiano de Arnaldo Spatz, e por tudo isso ele afirma: já não sei até que ponto ainda existo, pois o facto é que nos dias actuais nós não somos nada além do que temos . Portanto, como não tenho nada já não sei mais quem sou. Talvez eu seja apenas uma ilusão da minha própria mente cansada e deturpada pelas muitas vezes em que perco os sentidos no meio da minha própria dor.

Imerso num mar de sentimentos magoados, pune-se a si próprio, ao perder a capacidade de procurar fontes de alívio. Spatz passa pelas coisas sem as ver: bibliotecas com quilómetros de prateleiras repletas de livros prometedores de preciosas horas de leitura, museus com obras de arte, realizações singulares da mente humana, de valor eterno, espectáculos naturais de impressionante beleza, capazes de transformar a mágoa em admiração e em espiritualidade.

Arnaldo Spatz sente na pele a necessidade de existir um mundo melhor, mas talvez não tenha pensado ainda que, para isso, todos, são precisos, ele também.

4. ESPERANÇA

Procurem ver o mundo como na verdade ele pode ser
visto, como um lugar maravilhoso, que, à semelhança
de um jardim, podemos cultivar e tornar ainda
melhor. Procurem ter a humildade de um
jardineiro experiente, de um jardineiro que sabe que
muitas das suas tentativas não irão ser bem sucedidas.
Karl Popper (1983)

Sendo a Noite povoada por um número incalculável de estrelas, algumas cem vezes maiores que o Sol e mil vezes mais quentes, por que motivo é ela negra? Desejando o ser humano viver uma vida pacífica, venturosa, feliz, por que razão novos conflitos nascem, equívocos multiplicam-se, e o alívio para o sofrimento tarda?

Sobre a Noite os cientistas explicam o fenómeno que atribuem à expansão do Universo: a luz das estrelas espalha-se num espaço cada vez mais vasto. A expansão é responsável pela existência da noite informa Reeves no livro Um Pouco Mais de Azul. Sobre o Homem, que tal como o Universo também está em “expansão,” paira um certo mistério. O conhecimento que procura na forma de interrogação permanente, não tem limites: vai à Lua, desce às profundezas oceânicas, dispõe de um império tecnológico, descobre o ADN chave do código genético, porém, há uma diferença abissal entre o seu desenvolvimento intelectual, e a quase estagnação, nalguns casos até retrocesso, das qualidades morais. Elas não acompanham o desenvolvimento intelectual. Há uma explicação para esta evidência? É possível que a situação se altere? Se do passado, chegam ecos de vidas, vividas de um modo tão exemplar, por que não sonhar com a multiplicação destes exemplos, de tal modo que a Paz reine sobre a Terra?

Kant, entre muitos outros, é um modelo notável e o episódio que se segue esclarecedor. O ano de 1804 ainda não tinha meia centena de dias. Naquele 12 de Fevereiro em Konigsberg, onde Immanuel Kant vivera os oitenta anos da sua vida, corre a notícia da morte do filósofo. Vivera os últimos anos da vida em completo recolhimento e por isso os amigos pensam que vai ter um funeral simples. Enganam-se. À medida que a notícia se espalha, aumenta o fluxo das pessoas que vão render-lhe a última homenagem e, no dia do funeral, um cortejo imenso acompanha a urna ao som de todos os carrilhões da cidade. Os relatos dos contemporâneos informam que jamais a cidade de Konigsberg vira cortejo fúnebre semelhante. Herder, que fora seu aluno, fala assim do grande pensador: valorizava tudo e reconduzia tudo a um conhecimento sem preconceitos da natureza , e ao valor moral dos homens. A história dos homens, dos povos e da natureza...eram as fontes que davam vida à sua lição e à sua conversação ...Encorajava e obrigava docemente a pensar por si. Popper afirma que os concidadãos de Kant acorreram ao funeral para lhe testemunharem o seu reconhecimento como mestre e proclamador dos direitos do homem, da igualdade perante a lei, do cosmopolitismo, da auto-libertação através do saber e, quiçá mais importante ainda da paz eterna sobre a Terra

Viver ainda poderá ser uma aventura feliz, quando um dia, a Paz reinar entre os homens. Pablo Neruda (1904-1973) laureado com o prémio Nobel em 1971 crê que isso seja possível. No livro Confesso que vivi, escreve sobre o futuro:

Resta-me uma fé absoluta no destino humano, uma convicção cada vez
mais consciente de que nos aproximamos de uma grande ternura.
Escrevo sabendo que sobre as nossas cabeças, sobre todas as cabeças
existe o perigo da bomba da catástrofe nuclear, que não deixaria
ninguém nem nada sobre a Terra. Pois bem nem isso altera a minha
esperança. Neste momento crítico, neste sobressalto de agonia sabemos
que entrará a luz definitiva pelos olhos entreabertos.
Entender-nos-emos todos. Progrediremos juntos. Esta esperança é
irrevogável.

No reino do amor há muitas moradas.

 

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