O Futuro é Biológica e Espiritualmente Aberto

Maria Júdice Borralho
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Heraclito de Éfeso, que alcançou fama de sábio, é o protagonista de um episódio contado por Aristóteles. António Damásio um, entre os maiores neurocientistas mundiais, apresenta uma visão da existência interior do ser humano verdadeiramente espantosa, na riqueza das possibilidades que encerra. O primeiro, cuja actividade filosófica principal terá terminado por volta de 480 a. C., era nobre de nascimento mas recusou os privilégios que lhe pertenciam vivendo com sobriedade. Terá escrito um livro intitulado Da Natureza dividido em três partes: Do Universo, Da Política, Da Teologia. Dedicou-o a Ártemis e colocou-o no templo da deusa A fama do filósofo expandia-se territorialmente e certo dia um grupo de curiosos desejou conhecê-lo. Que esperariam encontrar? Certamente algo diferente do que vêem, um homem comum, simples, friorento, que se aquece junto ao forno. Nada de raro, nada de excepcional, por isso, decepcionados, retiram-se. Em vão Heraclito tenta detê-los proferindo a célebre frase, Os deuses também estão aqui presentes. A palavra aqui, será o lugar onde se encontra, em casa junto ao forno, ou será o próprio filósofo, o seu corpo convertido em templo?

António Damásio no livro Ao Encontro de Espinosa afirma que vivemos rodeados de estímulos capazes de evocar a espiritualidade, e enumera alguns: contemplação da Natureza, reflexão sobre as descobertas científicas, experiência das artes. O cientista pensa que estes estímulos, e uma vida equilibrada, virtuosa, e delicada proporcionam momentos de efémera plenitude, aquilo que ele classifica de momentos de perfeição, visões furtivas do divino, breves confortos que deixam esses seres humanos à espera do próximo momento de perfeição e da próxima visão furtiva.

O Homem procura um Deus para adorar.

 

 3. Por um Mundo melhor

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares
António Gedeão


 Situado num cenário natural cujo poder não pode igualar e preocupado com as vicissitudes da família humana, o Homem, mesmo aquele cujo espírito está pleno de entusiasmo e com forte tendência para interpretar os factos de modo confiante, por vezes interroga-se: Será trágica a essência da vida? Onde vive a comunidade dos homens piedosos?

Teoricamente o Homem, reparte-se por dois blocos. Os optimistas que acalentam a máxima de Cícero ninguém pode ser bem-aventurado sem virtude e que procuram as fontes do prazer genuíno, conhecimento científico, experiência estética e os pessimistas, que cultivam e embalam angústias, que guardam raivas e ressentimentos que vêem a morte encerrada em cada ser. Entre uns e outros, haverá um grande número de indecisos. Se a confiança se vai apagando como vela que se consome, acabam por engrossar o conjunto dos pessimistas.

Copérnico informou que o Homem não está no centro do Universo e o espanto e a violência acolheram a revelação. Na actualidade, espanto e polémica intelectual, acompanham a marcha do conhecimento científico. Quando no seio da família humana germina o desencanto há sempre um intelectual a culpar outro intelectual, pelo desconserto do mundo.

Bertrand Russel (1872-1970), distinguido com o prémio Nobel da Literatura e com o prémio Nobel da Paz, manifesta alguma reserva acerca dos resultados futuros da teoria da evolução. Pensa ele que no estado actual dos nossos conhecimentos nenhuma filosofia optimista pode fundamentar-se na evolução. Com efeito ainda no século XIX, quando se acreditava que todos os seres vivos eram imutáveis, Darwin observa que, indivíduos da mesma espécie, divergem entre si. Tudo começa quando em 1832, com apenas 24 anos de idade, participa como naturalista, na grande expedição científica do brigue britânico Beagle. Entre muitos outros casos, ele nota que as tartarugas das ilhas Galápagos estão adaptadas às características do ambiente. As que habitam ilhas áridas, alimentam-se de folhas de árvores e possuem pescoços longos, as que vivem em ilhas com abundância de água e vegetação rasteira, têm pescoços curtos. Durante mais de duas décadas Darwin acumula exemplos, estuda-os e, em 1856, apresenta o célebre livro A Origem das Espécies Por Meio da Selecção Natural ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Existência. Sendo um contributo importante para a compreensão da história da vida na Terra, o darwinismo, com o relevo que dá às ideias de selecção natural e sobrevivência do melhor adaptado, passa a imagem de um mundo cruel, de um meio ambiente hostil e, ainda, há quem aproveite o darwinismo para justificar comportamentos desumanos, competições e guerras. Jacques Monod, aumenta o desencanto. Distinguido com Prémio Nobel da Medicina em 1965 e autor do livro Acaso e Necessidade, propõe uma explicação, para o aparecimento da vida e do Homem na Terra. Ele afirma que nada predestinava a vida a aparecer sobre a Terra e o ser humano a emergir do mundo animal o acaso e mais ninguém tem a decisão, isto é, todas as transformações que a vida vem realizando ao longo de milhares de milhões de anos, todas as mutações que os organismos vegetais e animais foram conseguindo de geração em geração, todas as leis da Natureza, descobertas e analisadas pelos homens da ciência, tudo é puramente fortuito. Não restam dúvidas, ficar pela explicação do acaso é muito cómodo, mas o tema merece o esforço de uma conclusão mais digna.

 Popper aponta os malefícios destas e de outras interpretações, que classifica de nefastas e pessimistas: Ele afirma: É precisamente no pessimismo que eu vejo o maior risco, ou seja na tentativa permanente de dizer aos jovens que vivem num mundo cruel. Considero este o mais grave perigo do nosso tempo, mais grave ainda que a bomba atómica o sugerir-se às pessoas que vivem num mundo ruim, num mundo hipócrita ...naturalmente que é um mundo cruel, uma vez que há um mundo melhor... temos que prosseguir nessa procura de um mundo melhor.

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