O Futuro é Biológica e Espiritualmente Aberto

Maria Júdice Borralho
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Aristóteles (384-322 a.C.), o mais importante filósofo e cientista da Antiguidade, cujos textos influenciaram o pensamento cosmológico medieval, situa a Terra imóvel no centro do Universo. O céu, imutável e majestoso, lugar plausível para a morada dos deuses, é o espaço da perfeição e do poder. Na obra DOS Céus escreveu:

...A Terra não se move, nem se localiza em mais nenhum lado a não ser no centro...Todos os homens têm uma concepção dos deuses e todos atribuem o lugar mais elevado ao divino, tanto bárbaros como Helenos... Ao longo de todo o tempo passado, de acordo com registos apontados de geração em geração, não encontramos vestígios de mudança nem no conjunto do céu exterior nem em nenhuma das suas partes.

O tempo flui, passam séculos e milénios e em 1965, Arno Penzias e Robert Wilson descobrem uma “luz” fraca, muito fria, que preenche todo o espaço do Universo. O astrofísico George Gamow, trinta anos antes, já a havia anunciado. As estrelas estão mergulhadas nessa luz originária cuja intensidade e temperatura vêm diminuindo com a expansão do Universo. Entre a imutabilidade do céu de Aristóteles e a detecção desta radiação fóssil, crescem ideias que tentam explicar a origem e destino do Homem, a origem e estrutura do Universo. Tudo se resume à saga de substituir teoria por teoria. A Ciência não sai molestada desta dança de conjecturas, porque o seu objectivo é atingir a sempre fugidia “verdade absoluta” mas o ser humano, que já inscrevera num quadro coerente as acções práticas e espirituais, que já tornara inteligível o cenário onde decorre a aventura da vida, que já encontrara explicações satisfatórias para os fenómenos que observa na Natureza, cada vez que uma alteração ocorre, ressente-se. Cosmologia, teologia e moralidade estão indelevelmente entrelaçadas e as teorias substituindo-se umas às outras, alteram valores que dão sentido e coerência à vida da família humana.

Desde Copérnico (1473-1543) sabe-se que a Terra não ocupa o centro do Universo nem sequer o centro do sistema solar. Ao expulsar a Terra de uma posição central e com ela o Homem, Copérnico revela um facto, real, não apresenta uma nova filosofia nem emite juízos, contudo a revelação gera escândalo, e ameaça a doutrina da Igreja. Não é raro fazer-se humor acerca daquilo que, de certo modo, é assustador. Lutero zomba de Copérnico e chama-lhe o tonto que quer virar de pernas para o ar toda a ciência.

 Thomas Kuhn inclui no sexto capítulo do livro A Revolução Copernicana dois poemas que condenam o exílio da Terra nas trevas do firmamento. Conservantismo cosmológico, endeusamento das fontes clássicas do conhecimento, estão na origem dessas manifestações poéticas. Como é natural os poetas que as produziram contribuíram para a divulgação dos novos conhecimentos, já que a poesia atinge uma audiência muito mais vasta do que os complicados tratados científicos. O primeiro, poema publicado em França e Inglaterra em 1578, anuncia já o grande debate que se seguiria:

 Aqueles letrados que pensam (pensar, que brincadeira absurda)
Que nem o céu nem as estrelas giram,
Nem dançam à volta desta grande bola terrena;
Mas que a própria Terra, este nosso globo volumoso,
Dá uma volta em cada vinte e quatro horas:
E nós parecemos novatos do interior
Recém trazidos para bordo, para aventuras nos mares
Que ao afastarem-se da terra , supõem que o barco fica quieto, e a terra vai
Assim, nunca uma seta lançada para cima devia,
Cair no mesmo lugar onde está o atirador

No segundo, publicado em 1611, e escrito pelo teólogo inglês John Donne adensam-se as preocupações. Intitulado, A Anatomia do Mundo lamenta-se a pulverização das velhas teorias:

A nova Filosofia põe tudo em dúvida,
O elemento do fogo está posto de parte;
O Sol está perdido, e a Terra, e não há engenho de homem
Que possa indicar onde o procurar.
E livremente os homens confessam que este mundo está exausto

Quando nos Planetas e no Firmamento
Eles procuram tanta novidade; depois vêem que isto
Se fragmentou novamente em Átomos .
Tudo está em pedaços, toda a coerência desapareceu...

Em 1543, Copérnico, ainda terá visto um exemplar da primeira edição do seu livro De Revolutionibus Orbium Caelestium mas, segundo a tradição, já no leito de morte. Pior sorte teve Giordano Bruno. Ao tempo a dissensão incluía uma questão que hoje ainda não foi resolvida, os limites do Universo. Os teólogos diziam que só Deus é infinito. Num Universo infinito onde se localizaria o trono de Deus? Bruno afirmava que o seu Deus era mais poderoso pois criara um Universo infinito Esta ousadia e outras, valeram-lhe a fogueira em 1600.

Os séculos continuam a passar, a influência mágica de Igreja esbate-se e a religião desiste de perseguir a Ciência. A teoria da evolução da matéria, e do aparecimento da vida na Terra, o parentesco profundo do Homem com tudo o que existe no Universo contradizem a cosmologia bíblica sem reacções fatais, contudo, ainda há quem continue a fazer uma interpretação literal do Livro do Génesis.

O Universo não foi criado em seis dias mas em milhares de milhões de anos, o cérebro dos nossos mais longínquos antepassados era cerca de três vezes menor, que o do Homem actual, as lutas entre animais são anteriores à existência do Paraíso Terrestre, o célebre casal Adão e Eva, não foi expulso daquele lugar de delícias onde como relata o livro do Génesis Deus passeava pela viração do dia.

A existência de um Deus para adorar é importante na vida do ser humano. O livro mundialmente respeitado, O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade afirma que o homem a-religioso no estado puro é um fenómeno muito raro, mesmo na mais dessacralizada das sociedades modernas. Os velhos deuses homéricos demasiado humanos, que roubam, mentem, cometem adultério, vivem no Olimpo, Aristóteles declara que todos atribuem o lugar mais elevado, o céu, ao divino, certos teólogos não aceitam a ideia de um universo infinito porque assim têm dificuldade em localizar o trono da Deus, no livro do Génesis, Deus passeava pelo jardim do Eden. Onde mais pode estar a divindade?

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