Na Primavera, um breve apontamento sobre a Beleza

Maria Júdice Borralho
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António Damásio, prestigiado cientista que estuda o modo como os sentimentos e as emoções moldam a condição humana, esclarece: os sentimentos são acontecimentos mentais proeminentes, têm o poder de chamar a atenção para as emoções de onde provêm e para os objectos que desencadearam essas emoções. Com a palavra objecto o cientista refere entidades tão diversas como uma obra de arte, um lugar, um pôr-do-sol sobre o oceano, uma equação matemática, o mal-estar de uma doença.

Os objectos estéticos, inscrevem-se no conjunto das mais singulares realizações que o ser humano produz. Eles afectam, comovem, modificam. Rudolf Arnheim afirma que a arte é moral na medida em que desperta. Contemplar a tela de Botticelli Alegoria da Primavera tranquiliza e reanima, escutar o esplendor extraordinário de A Sagração da Primavera de Stravinsky, fascina. A Primavera colabora com o artista, a BELEZA convida a presença da felicidade.

O que é então a BELEZA? Que ideias satélites gravitam à sua volta? É possível descrevê-la? Por que é que a BELEZA é tão difícil de definir estando ela perante os nossos olhos? E por que é tão frágil que ao menor deslize esvai-se? Através dos séculos onde foi o Homem colocando o rótulo de Belo?

3 A irresistível Beleza de Helena de Tróia ficou célebre, mas a fealdade exterior de Sócrates que resplandecia de BELEZA espiritual ficou mais célebre ainda. A BELEZA encontra-se muitas vezes associada a qualidades; oráculo de Delfos disse que o mais justo é o mais belo, e há quem diga que belo é o que se ama.

Percorrendo as 438 páginas do livro A HISTÓRIA DA BELEZA, dirigido por Umberto Eco, sente-se o modo como pelo fluir dos tempos, se concebeu a BELEZA do corpo humano, do mundo natural, das ideias, do paraíso, do inferno. Documentada com obras de arte e muitos textos antológicos esta obra declara algo de muito importante: formas de paixão, ciúme, vontade de posse, inveja ou avidez não têm nada que ver com o sentimento do Belo...: foram os artistas, os poetas, os romancistas que nos contaram através dos séculos o que consideravam belo e nos deixaram exemplos disso...

António Gedeão e Rui Belo, escreveram dois poemas que confirmam a última parte da citação. Cantam a BELEZA e o AMOR, falam da perplexidade perante o mistério da vida.

António Gedeão dedicou os seus versos a uma árvore. Chama-lhe feiticeira dos cabelos verdes... prazer dos meus olhos estáticos e pede-lhe: ensina-me a transformar um raio de sol nesses perfumes subtis que a toda a hora perdes prolongando o teu ser no ar que te emoldura. Rui Belo, dedicou o poema a uma estátua. Depois de passar por várias esculturas que, segundo, informa não mereceram mais que um apressado olhar o poeta afirma: na tua presença eu tenho de parar/ dama desconhecida com certeza viva mais aqui/ que no segundo século em roma onde viveste/ moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar...para que uns dezoito séculos mais tarde te pudesse encontrar quem ...te ama ó mulher perdidamente.

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