Animais na decoração do Palácio Nacional de Sintra

Maria Júdice Borralho
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Cisnes, Pêgas, Veados e Pombas na decoração do Palácio Nacional de Sintra. Há local mais apropriado para juntar Cultura e Natureza do que Sintra? Espreitemos os tectos do Palácio Nacional de Sintra para começar a responder a esta pergunta.

Dois mundos despertam e interpelam o HOMEM. Um rodeia-o e é objecto de estudo da astronomia à biologia. O outro é o mundo das suas vivências pessoais e subjectivas, das esperanças, alegrias e sofrimentos, das metas que persegue. A interacção entre ambos vai da harmonia ao sobressalto.


Ciência, Arte, Religião e Mito testemunham-no e são os poetas que sentem com mais originalidade essa ligação. Quando Fernando Pessoa escreveu "Eu, em cuja alma se reflectem as Forças do Universo", não quis dizer apenas que o ritmo cósmico da rotação da Terra está inscrito em si, sob a forma de relógio biológico, ou que os tempos solar e lunar, organizavam-lhe o calendário e as festas. O poeta vibra com o que a NATUREZA lhe sugere de eterno, sente-a, funde-se com ela.


Em lugares de características raras, de uma outra realidade, diferente da que o homem vive na sua existência quotidiana, a NATUREZA parece manter ainda em reserva, as forças vitais primordiais. Sintra é um desses lugares. O Conselho de René Dubos - NAMOREMOS A TERRA - há muito vem sendo realizado ali. Não é possível apanhar na linha do tempo o início do arroubamento, embora os documentos abundem. No século XVI, por exemplo, Gil Vicente chama a Sintra


"Um jardim do paraíso terreal. Que Salomão mandou aqui. A um rei de Portugal"


e a carta escrita em 1436 pelo rei D. Duarte, concedendo privilégios e regalias aos moradores, apresenta os motivos que estão na origem das estadias frequentes da corte na vila saloia:

- bons ares e águas
- abundância de mantimentos de mar e terra
- folganças e desenfadamentos de montes e caças
- nobres paços de mui espaçadas vistas 
 
O PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA e estes " nobres paços de mui espaçadas vistas" são um e o mesmo monumento, aquele que domina a vila. O alcantilado dos terrenos onde se ergue condicionaram-lhe volumes e assimetrias arquitectónicas e as mui espaçadas vistas, a caça, os montes e as águas iriam também deixar-lhe marcas.


Nalgumas salas a lenda mistura-se com o facto histórico, o quotidiano inspira os temas e a NATUREZA fornece os elementos apropriados. As mais importantes incluem no ornamento cisnes, pêgas, veados e pombas. Os vinte e sete cisnes que decoram o tecto da SALA DOS CISNES deleitam quem os contempla. Um, nada com elegância, outro, prepara-se para entrar na água, o que estende o comprido e fino pescoço, não é mais belo que aquele que o recurva ou de um outro que se coça com o bico.


Se este tecto se deve atribuir a D. João I para recordar a filha Isabel, duquesa de Borgonha, ou a D. Manuel I, homenageando assim a filha Beatriz, casada com o duque de Sabóia, não é o mais importante. A tradição que liga os cisnes à beleza de uma princesa e ao amor paternal de um rei, caminha pelos séculos e encanta os visitantes.


Significado muito diferente terão as pêgas do tecto da sala, que destas aves tomou o nome. Pintada com cento e trinta e seis pêgas, cada uma segurando no bico uma banda serpenteada com a inscrição "por bem", materializará o castigo infligido às damas, cuja tagarelice pôs a corte em alvoroço? Porém, o que mais terá lastimado o rei e decerto também, a beldade que o acompanhava, foi a interrupção forçada do inocente beijo, que a súbita entrada da rainha, provocou.


Damião de Góis, cronista do rei D. Manuel I, informa que este monarca "deleitava-se muito no monte e era bom besteiro e caçador de vontade, para o que tinha muitos lebreus e sabujos.". Compreende-se por isto, que a sala dos Brasões, construída no seu reinado, seja decorada com veados, animais que ao tempo existiam na Serra de Sintra, e que certamente ele caçara. Oitenta veados, setenta e dois dos quais exibem brasão pendente do colo e timbre entre as hastes, dão originalidade à sala e realizam o propósito do rei: imortalizar " por este modo os venerandos feitos de varões tão dignos de eterna fama" (Visconde de Juromenha). O exterior desta enorme sala ostenta como remate decorativo um singular e rendilhado pombal. E são ainda inúmeras, as pombas brancas, cada uma com seu ramo de oliveira no bico, que preenchem as paredes da vetusta capela gótica, dedicada ao Espírito Santo.


É pois, por um conjunto de factos, que os cisnes, pêgas, veados e pombas conferem mais beleza e significado às salas onde se encontram.
As características biológicas das espécies em causa, e outras que o HOMEM lhes vai colando, comandaram a escolha.


É possível imaginar a Sala dos Brasões decorada com pombas, a capela com pêgas ou os veados substituindo os cisnes?


NATUREZA e HOMEM convivem e às vezes entendem-se. Ou será só uma questão de cultura?

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