Fauna selvagem atropelada – Um problema ignorado

Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes (fotografia)
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Répteis: vítimas da lentidão

Os répteis são um grupo de vertebrados fortemente propenso a atropelamentos nas estradas, não apenas devido à utilização das estradas como zona de passagem, mas também pelo facto de as utilizarem para termorregulação. Os números disponíveis para o nosso País indicam uma maior taxa de mortalidade entre os Ofídeos do que entre os Sáurios, excepção feita ao camaleão, cujas populações algarvias se vêem anualmente confrontadas com enormes taxas de mortalidade, sobretudo durante o período de reprodução da espécie, no Verão. Embora não existam dados recentes sobre a mortalidade desta espécie nas estradas algarvias, valores relativos aos meses de Agosto e Setembro de 1995, por exemplo, dão conta de 57 camaleões mortos por atropelamento em cinco pequenos troços de estradas, enquanto nesse mesmo ano, em Espanha, o número ascendia a 535 animais atropelados.

As serpentes, devido ao corpo alongado, locomoção lenta e tendência para termorregularem nas estradas são os répteis mais vulneráveis aos atropelamentos. Além disso, muitas espécies percorrem vastas áreas durante a época de reprodução, ficando assim mais expostas aos perigos causados pelo tráfego rodoviário. Dos estudos conhecidos em Portugal, a mortalidade entre as serpentes parece ser mais elevada em espécies como a cobra-rateira, a cobra-de-escada e a cobra-de-água-viperina, embora outras, como a víbora-cornuda ou a víbora-de-Seoane possam, localmente, apresentar valores de mortalidade elevados. O caso das víboras é, aliás, sintomático dos riscos que representam os atropelamentos para algumas espécies com populações ameaçadas ou de distribuição localizada, como é o caso da víbora-de-Seoane, um endemismo do norte da Península Ibérica que em Portugal se encontra circunscrito a algumas zonas do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Num destes estudos, levado a cabo pelos biólogos José Carlos Brito e Francisco Álvares, em duas estradas do PNPG, foi possível determinar que das 76 víboras atropeladas (55 víboras-cornudas e 21 víboras-de-Seoane), uma grande maioria correspondia a machos, potencialmente reprodutores, o que, segundo os autores, poderá ter impactes significativos sobre a população total de ambas as espécies.


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