Fauna selvagem atropelada – Um problema ignorado

Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes (fotografia)
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A investigação em Portugal

Em Portugal, os primeiros trabalhos de investigação sobre a mortalidade de animais por atropelamento datam dos meados da década de 1990. De entre os estudos científicos portugueses directamente relacionados com esta temática salientam-se quatro trabalhos, com destaque para a publicação pioneira de J. Marques (1994), realizada num troço de 20 km da EN118, numa área limítrofe da Reserva Natural do Estuário do Tejo. Muito mais tardios são os trabalhos de Inês Franco (2000) e Fernando Ascensão (2001). Se no caso de Inês Franco a área de estudo se centrou nos distritos de Évora e Beja, onde foram estudados troços de 7,5 km em três estradas nacionais (EN114, EN258 e EN 260), no caso de Fernando Ascensão a área de estudo foi a região do Alto Alentejo, tendo a investigação decorrido em três troços de cerca de 25 km de extensão em duas estradas: dois troços no IP2 (entre Portalegre e Monforte e entre S. Manços e Portel) e um na EN4 (entre Vendas Novas e Montemor-o-Novo). Mais recente ainda é o trabalho de Carlos Santos (2002), biólogo do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), cujo estudo foi realizado no âmbito de uma tese de mestrado e abrangeu um troço de 19 km da EN221, entre Sendim e Miranda do Douro, e um troço de 18 km de estradas municipais entre Bemposta e Paçó, e visou, segundo o investigador, “permitir a detecção de pontos negros de mortalidade, ou seja pontos onde a mortalidade de uma espécie ou de um grupo de animais é muito superior à do restante troço”.

Necrologia das estradas portuguesas: aves e anfíbios

Lobos, toirões, linces, sapos, cobras, corujas… o rol dos animais mortos por atropelamento parece interminável, embora ninguém saiba ao certo quantos animais selvagens morrem anualmente em Portugal, vítimas do tráfego rodoviário. O facto, reside, sobretudo, na ausência de um projecto nacional de seguimento da mortalidade de vertebrados em estradas, à semelhança do que acontece em Espanha com o PMVC (Proyecto Provisional de Seguimiento de la Mortalidad de Vertebrados en Carreteras). No entanto, e não obstante a inexistência em Portugal de estimativas baseadas em censos nacionais – a única estimativa credível, da autoria de Fernando Ascensão, estabelece um valor anual na ordem dos 139 000 a 262 000 animais mortos por atropelamento, mas apenas para estradas do tipo IC e IP – os números apresentados pelos vários estudos individualmente são, por si só, reveladores da gravidade do problema. Na investigação levada a cabo por J. Marques, foram inventariados 600 animais mortos pertencentes a 61 espécies, das quais 40 são aves. Aliás, o grupo mais afectado, segundo este estudo, foi o das aves (60% do total de registos), destacando-se as rapinas nocturnas, com 57 corujas-das-torres, 10 corujas-do-mato e 8 mochos-galegos, o que não deixa de constituir um valor significativo, atendendo a que as rapinas nocturnas são predadores de topo, apresentando, por isso, densidades populacionais mais reduzidas. Se tivermos em conta as estimativas do autor que cifra em cerca de 100 o número de corujas-das-torres mortas anualmente apenas neste troço de estrada, e os dados provenientes de Espanha, onde a espécie ocupa o terceiro lugar entre as aves mais atropeladas, e Inglaterra, onde se calcula que cerca de 5000 corujas-das-torres sejam atropeladas todos os anos, torna-se fácil aferir das consequências que a sua supressão poderá provocar na composição das comunidades biológicas locais. Para além das aves de rapina nocturnas, dezenas de outras aves, sobretudo pequenos passeriformes como o pardal-comum, a toutinegra-de-cabeça-preta, a toutinegra-de-barrete-preto, o cartaxo-comum e o pisco-de-peito-ruivo, figuram igualmente na lista de espécies atropeladas. Aliás, a questão é unânime entre os investigadores portugueses que consideram os passeriformes como as aves mais afectadas pelos atropelamentos, com valores que oscilam entre os 15% no trabalho de Carlos Santos e os 37% no estudo de Inês Franco.


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