O estudo dos fósseis e a evolução da vida

Sara Otero
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Algumas plantas silicificadas do Devónico de Rhynie no Condado de Aberdeen, mostram não só particularidades da estrutura celular, mas também vestígios de filamentos de fungos e núcleos no interior de células. As Camadas Purbeck do Jurássico Superior de Dorset, forneceram testemunhos não só de peixes, tartarugas e dinossaurios, moluscos e ostracodos (artrópodes microscópicos com conchas bivalves), mas ainda troncos de árvores e folhas, uma exuberante fauna de insectos e de pequenos mamíferos trepadores primitivos, que nos permitem reconstruir a ecologia geral da época. Uma outra fauna do Jurássico Superior, de excelência e diversidade pouco vulgares, é a das camadas litográficas marinhas de Solenhofen no sul da Alemanha, onde se encontrou a primeira ave, a Archaeopteryx. Uma fauna muito mais precoce e célebre, notável especialmente pelos artrópodes bizarros que encerra, é a dos xistos câmbricos de Burgess na Columbia Britânica, descrita no século passado. Portanto, estas e outras localidades têm fornecido os testemunhos que de certa forma permitem avaliar da diversidade da vida em tempos passados. Além disso, a estes testemunhos adicionam-se continuamente novas descobertas. 
 
Não surpreende, portanto, que alguns conceitos evolutivos nascidos de estudos paleontológicos ilustrem até que ponto o registo fóssil tem contribuído para a teoria da evolução.

Um dos aspectos notáveis do registo fóssil é o de testemunhar a existência em determinados tempos duma diversificação morfológica muito rápida. Se bem que esta diversificação para se efectuar tenha demorado muitos milhões de anos, o conhecimento do facto deu lugar a que se fale de "evolução explosiva".

O primeiro acontecimento explosivo na evolução, e de que nos dá conta o registo fóssil, aconteceu na base do Câmbrico, onde a vida marinha teve uma rápida dispersão. A diversidade é manifestada pela gama de tipos novos reconhecidos neste nível, embora exista a necessidade de trabalhos paleontológicos pormenorizados na parte inferior do Sistema Câmbrico, cobrindo talvez 30 milhões de anos, de modo a estabelecer-se uma ordem de aparecimento dos tipos referidos. Nos grupos surgidos pela primeira vez no Câmbrico Inferior incluem-se nove filos de invertebrados marinhos.

Para os peixes, e de um modo semelhante para as plantas vasculares primitivas, o período de "evolução explosiva" foi o final do Silúrico e o Devónico. Para os répteis, a mais antiga radiação Mesozóica foi "explosiva", e para as plantas com flores (Angiospérmicas), o crescimento brusco que as tornou dominantes teve lugar no Cretácico Médio. Foi nos primórdios do Terciário que o desenvolvimento dos Mamíferos teve maior importância e foi no Paleocénico e Eocénico (Terciário Inferior), provável período de diversificação extremamente rápida, que pela primeira vez apareceu a maioria dos actuais grupos de mamíferos.

Os períodos de diversificação brusca de um grupo relacionam-se normalmente com a exploração por parte desse grupo de algumas circunstâncias novas e vantajosas para ele. Entre estas pode considerar-se a evolução dum carácter físico ou fisiológico vantajoso, ou alterações ambientais vantajosas, produzidas quer por variações ou extinções noutros grupos, quer por modificações paleogeográficas. 
 
Muitas vezes estes três factores interpenetram-se de tal forma que é difícil dizer qual o mais importante, ainda que o primeiro seja normalmente fundamental. O resultado da íntima relação entre a diversificação evolutiva e a exploração da mudança ambiental traduz-se, na natureza, por a diversificação evolutiva ser manifestamente adaptativa. O facto encontra-se bem ilustrado pelos mamíferos placentários e pelos marsupiais, onde a classificação em ordens é quase uma questão de comportamento (insectívoros, roedores, cetáceos, carnívoros, primatas, etc.), reflectindo a primeira radiação adaptativa estabelecida nos primórdios do Terciário. Situações semelhantes surgem nos répteis, onde a evolução Permo-Carbónica dos ovos com casca, dando-lhes maior liberdade relativamente à água, tornou possível a exploração da terra.

O registo fóssil dá-nos exemplos de adaptação ao ambiente e modos de vida particulares, como é o caso da grande variedade em apêndices nos artrópodes euripterídeos do Paleozóico, relacionados com maneiras de marchar, rastejar, nadar e depredar. Por vezes torna-se difícil julgar qual o papel funcional de determinadas características, contudo, tem-se confirmado que a função e morfologia estão intimamente relacionadas e são da maior importância para o estabelecimento dos grupos extintos.

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