Ambiente e Pobreza

Isabel Abreu
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O combate à pobreza e a conservação ambiental são dois dos maiores desafios que a Humanidade enfrenta actualmente, sendo considerados elementos-chave para atingir um desenvolvimento sustentável.

De uma forma geral, nos países pobres registam-se elevados níveis de degradação ambiental. A falta de recursos financeiros para investimento no tratamento de resíduos sólidos e esgotos e em tecnologias pouco poluentes, conduzem à contaminação dos rios, dos solos e do ar. Por outro lado, os problemas ambientais, como as alterações climáticas, são responsáveis pelo aumento da pobreza ao colocarem em risco muitas das actividades económicas de que as comunidades mais pobres dependem, como as pescas e a agricultura.

Pobreza a nível mundial

Uma das formas utilizadas para a caracterização da pobreza no Mundo é através da Linha ou Limiar de Pobreza. O Limiar de Pobreza actual é de 1 dólar/dia, correspondendo ao valor mínimo necessário para se adquirir um conjunto de bens essenciais à sobrevivência. Trata-se de um valor simbólico que deve ser recalculado para cada país tendo em conta o respectivo nível de vida.

O conceito Pobreza tem vindo a alterar-se ao longo do tempo, passando de uma definição meramente monetária, que apenas tem em conta o rendimento da população, para um conceito que engloba uma série de aspectos necessários à melhoria da qualidade de vida: acesso ao ensino, aos serviços de saúde, a água com qualidade e ao tratamento de esgotos.

 

 
Figura 1 – População mundial que vive com menos de 2 dólar/dia (2005) (Fonte: Adaptado de World Resources Institute)

A pobreza mundial tem vindo a diminuir ao longo dos últimos 25 anos devido, principalmente, ao grande crescimento económico de países como a China e como a Índia. A nível regional, a África sub-sariana constitui a situação mais preocupante, onde a pobreza duplicou entre 1981 e 2001 devido a guerras e doenças, como a SIDA.


Figura 2 – População que vive com menos de 1dólar/dia (Fonte: Adaptado de World Resources Institute)

Como é que o Ambiente afecta a Pobreza?

Vários aspectos ambientais contribuem para a vulnerabilidade da população mais pobre. Por exemplo, a poluição da água e do ar conduz ao aparecimento de doenças, que tornam a população enfraquecida para trabalhar e usufruir de rendimento.

Além disso, as condições ambientais são um factor determinante no rendimento de muitas comunidades pobres que dependem da pesca, da agricultura e da exploração de florestas, sectores bastante vulneráveis às alterações climáticas e às associadas secas, cheias e temperaturas elevadas.

Água e saneamento básico

O grande crescimento populacional nos países pobres representa uma maior produção de esgotos e de resíduos que geralmente são lançados no meio ambiente sem tratamento, levando à contaminação do solo, lençóis freáticos e rios. Além disso, a necessidade de água para satisfazer uma população crescente conduz muitas vezes à grande exploração dos recursos hídricos.

 
Figura 3 – Crescimento populacional (Fonte : Adaptado de United Nations Environment Programme)

 

 
Figura 4 – Água com qualidade (2000) (Fonte: Adaptado de Inheriting the world:The atlas of children's health and the environment.)

Recursos naturais

Uma correcta gestão dos recursos naturais é importante para a redução da pobreza, uma vez que a sobrevivência de cerca de 75% da população dos países pobres depende da produção de mel, tabaco, resina, cogumelos, nozes, algodão, café, chá, cacau, entre outros.

 

 
Fonte:World Resources Institute

Se por um lado estes sectores económicos são muito vulneráveis às alterações climáticas, por outro, os países pobres têm dificuldades em retirar benefício económico da venda destes produtos. Além de terem de competir com a qualidade dos produtos dos países ricos com melhores condições de produção, transporte e conservação, os produtos dos países pobres chegam ao mercado internacional com preços elevados, devido aos subsídios praticados nos países ricos.

Graças aos subsídios à produção e à exportação, os países ricos conseguem vender os seus produtos a preços abaixo do custo de produção. Uma vez que os países pobres não conseguem competir com preços tão baixos, são obrigados a abandonar certas actividades económicas que deixam de ser rentáveis e a importar dos países ricos. Com o objectivo de aumentar o seu rendimento, os países pobres procuram aumentar a sua produção, muitas vezes à custa da grande exploração dos recursos naturais. Assim, é comum registarem-se níveis elevados de pesticidas nos recursos hídricos, nomeadamente na água utilizada para consumo humano, devido a práticas agrícolas incorrectas.

Os subsídios à produção do algodão dos produtores dos EUA levaram ao aumento da taxa de pobreza de países africanos que dependiam da exportação deste produto, como o Benin, Mali, Burkina Faso e Chade.


Fonte: Nações Unidas

Os países pobres têm assistido à destruição das suas florestas, muitas vezes devido a práticas ilegais de extracção de madeira para venda aos países industrializados. Além disso, a madeira é uma matéria muito procurada uma vez que a sua queima constitui uma das principais fontes de energia das habitações, que não têm electricidade nem gás.

A exploração dos recursos piscatórios dos países pobres pelos países ricos, conduz muitas vezes à depleção destes recursos, e ao aumento de pobreza das famílias que dependem da pesca.

As frotas europeias de pesca industrial no Senegal são responsáveis pela depleção de muitas espécies de peixes.


Fonte: Nações Unidas

Alterações climáticas

Apesar dos países industrializados serem os grandes emissores de gases com efeito de estufa responsáveis pelas alterações climáticas a nível global, tem-se vindo a registar um aumento das emissões dos países mais pobres, que poderão vir a ultrapassar os países ricos nos próximos anos. Tal deve-se ao facto do crescimento económico dos países pobres ser, de uma forma geral, suportado por uma actividade industrial poluente responsável por elevadas emissões de poluentes para a atmosfera. De facto, países pobres como a Índia e a China têm apresentado um grande crescimento económico à custa de um desenvolvimento industrial, maioritariamente baseado em tecnologia obsoleta e poluente.

Como consequências das alterações climáticas são esperados vários impactes, cuja gravidade será maior para os países pobres, uma vez que estes têm maiores dificuldades em prevenir e adaptar-se.

 
 
 


Tecnologia limpa

No âmbito do Protocolo de Quioto, e com o objectivo de reduzir as alterações climáticas, os países industrializados comprometeram-se a reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2012. O Protocolo prevê várias formas de alcançar este objectivo a nível global, prevendo que os países ricos possam investir em projectos de redução de emissões de gases com efeito de estufa nos países pobres, através dos designados Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL).

A partir de projectos de MDL, os países em desenvolvimento recebem apoio tecnológico e/ou financeiro de países industrializados para a redução das emissões de gases com efeito de estufa. As emissões evitadas são “creditadas” aos países industrializados que investiram nestes projectos, sendo utilizadas para atingir as metas impostas pelo Protocolo de Quioto.

 

Energia e Pobreza

Cerca de 2 biliões de pessoas não têm electricidade, estando muitas delas localizadas em zonas remotas onde a extensão do sistema de distribuição eléctrico é economicamente inviável.

A falta de electricidade e de gás, leva a que cerca metade da população mundial recorra à queima de biomassa no interior das habitações para cozinhar e para aquecimento das casas: lenha, sementes, folhas, estrume. Quando este material é queimado em fracas condições de ventilação, há libertação de monóxido de carbono e de partículas que são responsáveis por problemas respiratórios.

 


Figura 5 – População com acesso a electricidade (2000) (Fonte: World Energy Outlook)
 
 

 
Figura 6 – Queima de biomassa no interior das habitações (Fonte: Adaptado de Inheriting the world:The atlas of children's health and the environment.)

A utilização de energias renováveis assume especial importância nos países pobres sem electricidade ou gás mas abundantes em recursos que podem ser usados na produção de energia: biomassa, água e vento. Através dos referidos MDL existe um grande incentivo de investimento neste tipo de projectos.

Apesar dos países pobres não terem de reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa no âmbito do Protocolo de Quioto, muitos têm vindo a investir em projectos de tecnologias limpas, movidos pela importância da qualidade ambiental na redução da pobreza. São disso exemplo a Índia e o Brasil que têm investido em combustíveis alternativos com o biodisel e na utilização de fontes de energia renováveis.


Figura 7 – Forno solar numa aldeia rural da Índia (Fonte: http://www.renewingindia.org)

A utilização de fornos solares em muitas aldeias rurais permite abandonar a queima de biomassa no interior das habitações, responsável por muitos problemas respiratórios.


Considerações finais

A redução da pobreza passa pela tomada de medidas, quer a nível dos países ricos, quer a nível dos próprios países pobres. No primeiro caso, indica-se a título de exemplo, como possíveis medidas a redução de subsídios e taxas que destroiem a economia dos países mais pobres, bem como a ajuda económica e a transferência de tecnologia limpa.

A crescente globalização e a possibilidade dos países industrializados adquirirem produtos e recorrerem a mão de obra de países pobres, requer um esforço por parte das empresas dos países industrializados para a implementação de uma política de responsabilidade social que vise a protecção dos recursos naturais e a melhoria da qualidade de vida das populações pobres.

A nível individual, todos temos um papel importante na redução da pobreza mundial. Podemos optar pela aquisição de produtos de países pobres através de cadeias de comércio justo que garantam uma remuneração correcta aos produtores permitindo assegurar as condições de vida necessárias e a protecção dos recursos naturais locais.

Além disso, ao reduzirmos a nossa contribuição para as alterações climáticas que tanto afectam a agricultura e as pescas estamos a contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população mais pobre que depende destas actividades. Neste sentido, é muito importante a redução do consumo de electricidade, do uso do carro e a reciclagem dos resíduos.

A nível dos países pobres, será necessário maior integração da relação ambiente/pobreza nos programas de desenvolvimento locais, nomeadamente através do investimento em práticas sustentáveis de agricultura, pescas e exploração de florestas. A educação da população constitui um elemento importante na redução das taxas elevadas de natalidade e das doenças, conduzindo a uma população mais forte e mais apta a conseguir melhores empregos de forma a vencer o ciclo da pobreza.

Ideias para a erradicação da pobreza têm surgido dos mais variados campos. Por exemplo, a nível do financiamento dos mais pobres com dificuldade em aceder aos bancos comerciais, o microcrédito tem vindo a revelar-se bastante útil na melhoria do nível de vida da população dos países mais pobres.

A utilização de organismos geneticamente modificados, nomeadamente, sementes de grande produtividade, adaptadas a secas, requerendo poucos fertilizantes, pesticidas e maquinaria, também poderá ser importante na redução da pobreza.

Referências bibliográficas

UNICEF - United Nations Children’s Fund - Progressos para as crianças – um relatório sobre água e saneamento. Setembro 2006.

WHO - World Health Organization. Inheriting the World:The Atlas of Children's Health and the Environment. 2004.

WRI - World Resources Institute. World Resources 2005 -- The Wealth of the Poor: Managing Ecosystems to Fight Poverty. Outubro 2006.

WWF - World Wildlife Foundation – Países Ricos, Água Pobre. Agosto 2006

Sites de interesse

Programa das Nações Unidas para a Pobreza e Ambiente

Banco Mundial para o Desenvolvimento

 

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