É na ligação entre as proteínas do vírus e dos receptores da membrana celular que reside o princípio básico da infecção viral. A partir desta ligação podem decorrer diversos mecanismo de actuação. No caso dos bacteriófagos (vírus que parasitam bactérias), o seu material genético é injectado no citoplasma da célula hospedeira e a cápsula permanece no exterior. Já os vírus que atacam células eucarióticas penetram totalmente na célula, ou fundem-se com a sua membrana plasmática, libertando todo o seu material genético no interior da célula. O genoma viral vai fragmentar o ADN da célula, que se torna inoperante e, assim, a maquinaria do metabolismo celular fica sem comandos, sendo facilmente dominável. Os ácidos nucléicos virais são transcritos e são sintetizadas diversas macromoléculas proteicas, que tratam de fabricar tudo o que é necessário à produção da progénie viral. São sintetizadas também enzimas, responsáveis pela lise (destruição) das células hospedeiras, que assim libertam os vírus recém-formados para o ambiente, prontos para atacar novas células. Por vezes, todo este ciclo não dura mais do que 20 a 40 minutos e no final de cada um podem ser libertados milhares de “descendentes”. Contudo, a infecção viral nem sempre conduz à destruição das células hospedeiras.
Entre os vírus mais comuns encontram-se os das gripes, que afectam milhões de pessoas todos os anos. Eles são responsáveis por infecções agudas, com sintomas característicos, resultantes da danificação das células, mas que, apesar do desconforto, são praticamente inofensivos e abandonam-nos rapidamente, assim como aparecem. O mesmo acontece com o sarampo, a papeira, a varicela e com certas doenças respiratórias, em que só surgem complicações se o paciente desenvolver outras infecções virais ou bacterianas, ou quando as infecções se tornam recorrentes. Determinadas infecções agudas também podem degenerar em infecções crónicas, por vezes letais, em que as células podem nem parecer danificadas, mas as suas funções encontram-se alteradas. Por exemplo, existem fortes indícios de que algumas doenças degenerativas, como a esclerose múltipla, sejam resultante de infecções virais. Ocorrem, ainda, vírus que alteram o funcionamento das células e depois desaparecem e outros que permanecem “adormecidos”, sendo activados após longos períodos. São as infecções latentes. Entre este tipo de vírus encontram-se os agentes da raiva, da febre hemorrágica, de doenças encefálicas, da poliomielite, da febre amarela e da SIDA. Existem, ainda, evidências que determinados vírus estejam por detrás de doenças cancerígenas.
Os vírus representam um dos maiores desafios médicos actuais na luta contra as doenças infecciosas, pois não existe forma de combater este tipo de infecção sem afectar as células hospedeiras. Eles não são sensíveis a antibióticos, tal como acontece com a maior parte dos microrganismos patogénicos e não é fácil encontrar medicamentos que penetrem no interior das células e que simultaneamente danifiquem apenas os componentes virais.

Apesar de clássica, a arma mais eficiente contra os vírus é a imunização conferida pelas vacinas, que activam as defesas imunológicas dos hospedeiros contra estes agentes patogénicos, normalmente prevenindo as infecções. Este é o mesmo processo que impede que uma pessoa contraia a mesma infecção duas vezes. No entanto, e tomando como exemplo os vírus da gripe, uma vez que existem dezenas de estirpes do mesmo vírus, enquanto não contrairmos todas as infecções diferentes, estaremos sempre sujeitos a depender dos lenços de assoar. Existem determinadas doenças, como a varíola, que foram praticamente erradicadas, através de programas de vacinação maciça. No entanto, tal só é possível quando o hospedeiro do vírus é unicamente o Homem. Nos casos de existirem mais reservatórios, torna-se difícil impedir a disseminação.
Embora a virologia exista como ciência apenas há cerca de 100 anos, provavelmente os vírus têm parasitado os organismos desde a origem da vida, e terão evoluído à medida que os hospedeiros se tornaram mais complexos, adaptando-se às constantes alterações do ambiente. Infelizmente, não existem fósseis de vírus e, por isso, existem ainda muitas dúvidas por esclarecer relativamente à sua origem. Uma das teorias do aparecimento dos vírus defende que eles deveriam existir no início como fragmentos de material genético desprotegido no interior de células, cuja função seria transportar a informação hereditária de uma forma de vida para a sua descendência. As alterações do ambiente da Terra terão induzido o desenvolvimento de envelopes de protecção contra os elementos naturais nestes mensageiros, e quando as células começaram a auto-reproduzir-se, os vírus terão perdido a sua função primária, passando a actuar como parasitas. Uma outra teoria defende que eles não serão mais do que descendentes de parasitas intracelulares, que teriam perdido a autonomia metabólica durante o processo evolutivo, retendo uma bagagem genética suficiente para manter a sua identidade e a sua capacidade de multiplicação.

Actualmente os vírus são muito complexos e esquivos. Ao longo do tempo eles foram desenvolvendo as suas próprias protecções, meios de sobrevivência e formas eficientes de detectarem os hospedeiros. As investigações médicas prosseguem, na esperança de rapidamente compreendermos estes organismos, mas combatê-los é como lutar contra um inimigo que está sempre à frente em termos tecnológicos, e quanto mais tempo eles têm, mais prudentes e poderosos se tornam.
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