
As ilhas reúnem um conjunto de condições que as tornam ambientalmente frágeis. As Nações Unidas reconhecem-nas como sistemas a que se deve dedicar especial atenção, apontando a gestão dos resíduos sólidos como uma das áreas prioritárias de acção.
Este artigo procura sintetizar algumas ideias desenvolvidas no âmbito de uma tese de mestrado (ver Referências) com o mesmo título, onde se desenvolveu uma metodologia de avaliação de diferentes opções para a gestão dos resíduos sólidos produzidos em ilhas, nas quais a produção de energia a partir dos resíduos tem um papel importante. As estratégias de gestão de resíduos sólidos desenvolvidas no trabalho tiveram por base a importância da produção de energia como forma de diminuir a dependência energética das ilhas e ao mesmo tempo dar um destino adequado aos resíduos produzidos.
Fragilidades das ilhas
Muitas ilhas têm tido dificuldade em assegurar um desenvolvimento sustentável por razões inerentes às suas características económicas, sociais e ecológicas.
Do ponto de vista económico, os problemas que as ilhas enfrentam estão associados à sua pequena dimensão e ao limitado leque de recursos naturais. Uma vez que a dimensão dificulta a exploração de economias de escala e o número de actividades produtivas é geralmente reduzido, as ilhas têm de recorrer à importação de produtos, tecnologias e energia. Devido à sua posição geográfica, os custos de transporte são elevados, não só pelas vias a que se recorre (mar e ar), mas pelas reduzidas quantidades envolvidas para satisfazer um mercado de pequenas dimensões.

Do ponto de vista ambiental, as ilhas sofrem uma grande exploração dos recursos naturais, muitas vezes pouco disponíveis, como é o caso da água potável. Apesar de as ilhas contribuírem pouco para a emissão de gases com efeito de estufa, elas são dos territórios mais susceptíveis aos efeitos das alterações climáticas tais como secas, chuvas intensas, aquecimento, e subida do nível do mar.
A gestão de resíduos em ilhas
Muitas ilhas deparam-se com o problema de como encaminhar correctamente os resíduos produzidos, verificando-se a sua deposição em aterros contaminando os terrenos e dos recursos hídricos. Se por um lado a sua pequena dimensão e consequente dificuldade de explorar economias de escala condicionam o desenvolvimento de infra-estruturas para a gestão dos resíduos, por outro lado o transporte dos resíduos para o continente representa também um custo elevado.

A valorização dos resíduos
Uma vez que os produtos são geralmente importados, as actividades de reutilização de resíduos, como por exemplo, os resíduos de embalagem, não são muito frequentes uma vez que isso implicaria que as embalagens utilizadas fossem enviadas para o local onde sofreriam o processo de recuperação, tornando esta opção economicamente inviável. Outros tipos de valorização de resíduos, como por exemplo, a reciclagem, representa actualmente em muitas ilhas uma actividade pouco atractiva do ponto de vista económico, não só pelo investimento que representa, mas também pela falta de mercado para os produtos reciclados.
Um dos principais problemas associados à reciclagem de resíduos prende-se com a baixa quantidade e qualidade dos materiais recolhidos, pelo que se torna importante alargar as redes de recolha de materiais e implementar programas de educação dos consumidores, pois se eles não participarem na separação dos resíduos os programas de reciclagem não serão economicamente viáveis.
A produção de energia
Devido à ausência de fontes de energia fóssil e à fraca utilização de fontes renováveis, as ilhas são altamente dependentes da importação de energia, principalmente petróleo. O fornecimento de energia a ilhas é bastante caro, principalmente por causa da pequena dimensão, ineficiência dos seus sistemas energéticos e elevados custos da importação de petróleo, a qual chega mesmo a representar mais de 15% do total de importações de algumas ilhas.
A produção de energia a partir de fontes renováveis poderá ajudar a diminuir muitos dos problemas com que as ilhas se deparam. De facto, a energia produzida poderá ser utilizada na dessalinização da água do mar para ser utilizada na produção de água para consumo humano, no tratamento de águas residuais, na produção de electricidade e no aquecimento e arrefecimento de casas.
Produção de energia a partir dos resíduos sólidos
A produção de energia a partir dos resíduos sólidos constitui uma importante forma de produção de electricidade e calor, permitindo reduzir a dependência energética das ilhas e ao mesmo tempo conseguir um destino adequado para os resíduos produzidos. Existem métodos de aproveitamento dos resíduos por via térmica (incineração, pirólise, gaseificação) e por via biológica (digestão anaeróbia e recuperação de metano). A energia pode ser obtida directamente a partir da queima dos resíduos com produção de calor, ou indirectamente a partir da conversão dos resíduos em combustíveis gasosos, sólidos ou líquidos que podem ser armazenados para posterior uso.
As estratégias
Dadas as especificidades das ilhas, a Comissão Europeia publicou um código de práticas para a gestão dos resíduos sólidos, onde aponta 3 estratégias possíveis, descritas no Quadro I.
Quadro I – Estratégias para a gestão de resíduos em ilhas

Na prática, assiste-se a uma mistura das várias estratégias mencionadas. Por exemplo, algumas ilhas enviam os resíduos recicláveis para o continente, tratando no seu território os restantes resíduos. Contudo, a estratégia europeia de gestão de resíduos aponta para que os resíduos sejam geridos próximo do local de produção, que seja reduzido o transporte de resíduos e que se promova a auto-suficiência quanto à gestão dos resíduos. No caso da Madeira e dos Açores, os materiais recicláveis são enviados para o Continente para valorização, sendo os restantes resíduos geridos localmente.
Qual a melhor estratégia para a gestão dos resíduos sólidos em ilhas?
Não existe uma estratégica única para ilhas. A estratégia mais adequada varia de situação para situação. Um aspecto importante em qualquer uma das estratégias a adoptar é a inclusão da valorização de materiais e da produção de energia. Na Tese que serviu de base a este trabalho, foi desenvolvida uma metodologia que poderá ser uma ferramenta no processo de decisão de escolha da estratégia a adoptar, sendo, no entanto uma ferramenta que deverá ser utilizada caso a caso, uma vez que as situações são diferentes de ilha para ilha.
O primeiro passo na identificação de alternativas para a gestão dos resíduos sólidos é a identificação dos objectivos. Para tal devem ser analisadas as características dos resíduos em causa, as infra-estruturas existentes e a legislação, como por exemplo, as metas de reciclagem de embalagens, de produção de electricidade a partir de fontes renováveis, de redução da matéria orgânica em aterros sanitários, etc. Um aspecto importante no que diz respeito a estratégias que incluam a valorização de materiais é o eventual mercado para produtos reciclados. Na Tese que serve de base a este trabalho, encontra-se um exemplo detalhado de identificação de cenários de gestão de resíduos. Os diferentes cenários dizem respeito não só ao leque de opções de tratamento/eliminação de resíduos, mas a todas as actividades desde a deposição de resíduos pelos produtores, recolha dos resíduos, transporte, triagem e tratamento/eliminação.
A metodologia AMC – Análise de Múltiplos Critérios
A AMC é uma metodologia utilizada em processos de decisão para comparação de diferentes cenários, com base em critérios tão diferentes como os económicos, sociais e ambientais, permitindo desta forma incluir a opinião dos diferentes grupos com intervenção na matéria Na Tese que serve de base a este trabalho, encontra-se um exemplo detalhado de aplicação da AMC a um caso concreto de gestão de resíduos numa ilha, extrapolando-se para outras situações.
Neste tipo de metodologia cada cenário é avaliado tendo em conta os diferentes critérios, que poderão ser económicos (por exemplo os custos, eventuais poupanças de energia) sociais (por exemplo, emprego, aceitação dos cidadãos) e ambientais (por exemplo, emissões atmosféricas e aquáticas, cheiros, impacte visual, eventual redução de emissões), construindo-se uma matriz em que cada linha corresponde a um critério e cada coluna corresponde a um cenário diferente. Cada célula da matriz representa o valor que cada cenário tem para cada critério, permitindo através da variação da importância de cada critério, ter em conta as especificidades da situação em causa.
Considerações finais
As ilhas são sistemas nos quais a utilização das energias renováveis deverá ser vistas como forma de contribuir positivamente para as causas ambientais e como forma de diminuir a importação de energia, uma das grandes fatias da importação das ilhas. Neste artigo fez-se apenas referência à utilização dos resíduos sólidos para a produção de energia, mas todas as fontes renováveis de energia deverão ser avaliadas, tanto que as directrizes comunitária apontam para um aumento da utilização das energias renováveis, nomeadamente para a produção de electricidade.
Sendo o turismo uma das principais actividades económicas das ilhas, o recurso a energias verdes aliado a uma correcta gestão dos resíduos será sem dúvida uma boa forma de marketing. Além das vantagens referidas, é importante dizer que todas as actividades de gestão de resíduos representam oportunidades de emprego.

Referências
Isabel Abreu (2000). Integrated Waste Management in Islands. Center for Environmental Technology, TH Huxley School of Environment, Earth Sciences and Engineering, Imperial College of Science, Technology and Medicine, University of London, Novembro de 2000.
Links interessantes:
International Scientific Council for Islands Development
International Centre for Island Studies
Island Forum on Innovation and Sustainable Development
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