Doninha, o menor dos carnívoros da nossa fauna

Miguel Monteiro
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A Doninha é o mais pequeno dos carnívoros da nossa fauna. Muito adaptável e activa, é capaz de perseguir os roedores de que se alimenta nas suas próprias tocas. Embora difícil de ver, distribui-se por todo o País.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

A Doninha Mustela nivalis pertence à família dos mustelídeos e é o mais pequeno carnívoro existente em Portugal. Tem um corpo delgado e alongado, as patas curtas com garras não retrácteis, uma cabeça pequena com um focinho proeminente e orelhas também pequenas e redondas. A cauda, curta e pouco espessa, não ultrapassa 2/3 do comprimento cabeça-corpo. A pelagem curta é castanha arruivada no dorso, patas e cauda, sendo o ventre completamente branco. A linha de demarcação entre o dorso e o ventre é geralmente irregular embora possam aparecer indivíduos com uma linha direita. Em termos de medidas há um claro dimorfismo sexual sendo as fêmeas mais pequenas do que os machos, pesando aproximadamente metade destes. O comprimento total dos machos varia entre 18-27 cm, a cauda entre 5-6.5 cm e pesam cerca de 70-170 gr. As fêmeas medem entre 16-19 cm, têm 4-5.5 cm de cauda e 40-90 gr de peso.

Em termos de identificação, podem surgir dificuldades em distinguir a Doninha de um outro mustelídeo, o Arminho Mustela erminea. Este último tem no entanto maiores dimensões (comprimento do corpo - 30 a 40 cm; cauda 10-12 cm; peso 150 - 320 gr) e apresenta uma cauda mais comprida com a extremidade preta. No Inverno, o Arminho adquire uma pelagem maioritariamente branca mantendo-se o preto da cauda. Apresenta ainda uma linha de demarcação entre a zona doorsal e ventral rectilínea.


DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Tem uma distribuição bastante vasta. Existe na América do Norte, na maior parte da Ásia e no Norte de África. Apresenta uma distribuição generalizada na Europa, estando apenas ausente na Irlanda, Córsega e Islândia. Foi ainda introduzida na Nova Zelândia e na Austrália com a intenção de ajudar a combater as pragas de coelhos e roedores. Em Portugal é uma espécie comum e tem uma distribuição uniforme de norte a sul do país.


ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

É uma espécie não ameaçada, incluída no Anexo III da Convenção de Berna que engloba as espécies que têm uma protecção menos estrita - a sua captura ou abate é permitida em condições excepcionais. Não é actualmente considerada uma espécie cinegética.

HABITAT

A Doninha é, juntamente com o Toirão Mustela putorius, o mustelídeo que apresenta uma distribuição ecológica mais abrangente estando, no entanto, ausente nas regiões mais húmidas. Está geralmente associada à práctica agrícola (função da diosponibilidade de presas) e à presença de eixos de deslocação (muros de pedra, sebes, moitas) que lhe forneçam protecção.


ALIMENTAÇÃO

A maioria das presas consumidas pertencem à ordem Rodentia (ratos, ratazanas). Em termos de biomassa ingerida é também importante a ordem Lagomorpha (coelhos, lebres). Fazem ainda parte da dieta aves, anfíbios e répteis, insectos e alguma matéria vegetal.

REPRODUÇÃO

A época de acasalamento inicia-se em Fevereiro, nascendo as crias entre Março e Julho após um período de gestação de 34-37 dias. Nascem habitualmente 4-6 crias, que são amamentadas durante um mês e meio - só a mãe participa nos cuidados parentais. Ao fim de 8 semanas as crias estão preparadas para caçar, separando-se a família entre a 9ª e a 12ª semana. A maturidade sexual é atingida ao fim de 3-4 meses. Em anos em que as presas são bastante abundantes pode haver um segundo período reprodutor no final do Verão ou mesmo ter-se um período de reprodução contínuo entre Fevereiro e Dezembro.


ORGANIZAÇÃO SOCIAL

As doninhas são animais solitários com activiade tanto nocturna como diurna. No seio de uma população distinguem-se três grupos de indivíduos: os residentes sedentários, os residentes temporários e os errantes. Os primeiros habitam e defendem o seu território de indivíduos do mesmo sexo, podendo os territórios das fêmeas estar sobrepostos aos dos machos. Aquelas que têm estatuto dominante defenderão também o território dos machos quando estão com crias. Os residentes temporários ocupam um determinado espaço num curto período de tempo. São principalmente machos adultos ou subadultos que não conseguiram estabelecer um território e habitam os limites dos territórios dos machos dominantes. Os indivíduos errantes procuram estabelecer-se numa dada área e não possuem um território marcado. Os animais, ao longo da sua vida, podem alternar o seu estatuto em cada um destes grupos. A dimensão das áreas vitais depende bastante do tipo e condições do habitat, mas em média varia entre 1-4 hectares para as fêmeas e 1-25 hectares para os machos.


DINÂMICA POPULACIONAL

As populações de doninhas apresentam fortes variações devidas a uma grande capacidade de reprodução e a uma elevada mortalidade (75 a 90% por ano). Os ciclos de densidade são de 2 a 4 anos e são resultado das flutuações das populações de presas, nomeadamente de roedores. A resposta ao aumento da densidade das presas por parte das doninhas é inferior a um ano. As populações de M. nivalis são também controladas pela presença dos seus predadores naturais como o Lince-ibérico, o Gato-bravo e o doméstico, e as aves de rapina (tanto as diurnas como as nocturnas).


CURIOSIDADES

Quando persegue as suas presas, a Doninha pode entrar em buracos com apenas 3-4 cm de diâmetro. Por vezes utiliza como abrigo as galerias e tocas das próprias presas. Para proporcionar um melhor abrigo às crias, também a pelagem das presas é utilizada na construção dos seus covis.

Outro aspecto curioso deste pequeno carnívoro é o facto de apresentar uma variada gama de sons que incluem assobios e gorjeios.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

Como foi referido, a Doninha apresenta uma distribuição generalizada de norte a sul do país. Os ambientes agrícolas serão porventura os mais propícios à observação deste carnívoro devido a uma maior presença das suas presas principais - os roedores. A sua presença pode ser detectada através dos vestígios que deixa. As pegadas mostram 5 dedos em cada pata com as garras marcadas; a marca da pata anterior tem 2,5 cm de comprimento por 1,5 cm de largura e a posterior 3,5 por 1,3 cm. Os dejectos são enrolados afunilando para um ponto, têm de 0,2-0,5 cm de diâmetro e 4-8 cm de comprimento.

BIBLIOGRAFIA

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