Garça-real, pescadora elegante

Teresa Catry
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Presente por toda a Europa, a Garça-real, a maior das garças europeias, nidifica em colónias, algumas com centenas de anos. Possuindo uma larga área de distribuição, as suas populações apresentam uma tendência geral de crescimento.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

A Garça-real (Ardea cinerea), pertencente à família Ardeidae, é a maior das garças da Europa, com 90 cm de comprimento, entre 175 e 195 cm de envergadura e cerca de 2 kg de peso. É uma espécie conspícua, facilmente observável e reconhecível no campo, mesmo pelos observadores menos experientes. As garças apresentam um voo impetuoso, com o pescoço retraído formando um “s” e emitem frequentemente um grasnar rouco característico. A plumagem das aves adultas é idêntica para os dois sexos, dominando os tons de cinzento, preto e branco. A cabeça e pescoço são maioritariamente brancos, com excepção de uma nítida coroa preta prolongada, na plumagem nupcial, por duas ou três penas também negras. O dorso é cinzento, bem como parte das asas em que somente as penas de voo (primárias e secundárias) são pretas. O bico é amarelo e as patas cor de carne. Os juvenis apresentam uma maior uniformidade no cinzento da plumagem.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Distribui-se praticamente por todo o Paleárctico, desde o Norte de África e Eurásia até à Manchúria. Nidifica ainda em alguns países do sudoeste africano e também na Índia, Sri Lanka, China, Tailândia, Coreia e Japão. Na Europa, tanto a área de distribuição como o efectivo populacional têm registado incrementos, embora se verifiquem algumas flutuações associadas, em parte, a condições climatéricas que têm contribuído para a expansão da espécie em direcção a norte e para a sua regressão na Europa Central. Em Portugal a população nidificante, estimada entre 200 e 300 casais em 1991, está maioritariamente concentrada no Alto Alentejo. A abundância da espécie aumenta, no entanto, nos meses de Inverno, sendo parte da população oriunda da Dinamarca, Países Baixos, Alemanha, França e Espanha.


ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

De um modo geral, nos últimos anos, a população europeia de Garça-real tem vindo a aumentar. Esta espécie não se encontra ameaçada na Europa, nem em Portugal. Está incluída na Convenção de Berna (Anexo III).

FACTORES DE AMEAÇA

As principais causas de mortalidade nesta espécie estão associadas às actividades humanas, nomeadamente à agricultura e à piscicultura. No que respeita à primeira, a contaminação das aves por pesticidas parece constituir o principal factor de ameaça. Em relação à segunda, em Inglaterra, o abate de garças que se alimentavam nas pisciculturas quase levou à extinção da espécie nos anos 70. As Garças-reais são ainda particularmente sensíveis a Invernos rigorosos, podendo sofrer baixas importantes nas suas populações, das quais só recuperam num período de 2 a 3 anos.


HABITAT

Ocorre principalmente nas latitudes médias até às latitudes limite, onde os Invernos são demasiado rigorosos e o solo fica sob neve ou gelo, sendo menos abundante e mais dispersa nas zonas mediterrânicas, subtropicais e tropicais. Ocupa habitats de baixa altitude, geralmente associados a corpos de água e a zonas florestadas, sendo a garça mais arbórea, com excepção do Goraz (Nycticorax nycticorax). Prefere corpos de água pouco profundos, de água corrente e ricos em alimento e a sua grande capacidade de adaptação permite-lhe habitar estuários, deltas, rios, pauis, lagoas, arrozais, diques, canais, entre outros.


ALIMENTAÇÃO

A Garça-real alimenta-se, em geral, em águas pouco profundas, não sendo raro, no entanto, observá-la nesta actividade em zonas de terra seca. Alimenta-se maioritariamente durante o dia, de manhã cedo e ao entardecer. Captura principalmente peixe, mas também anfíbios, pequenos mamíferos, insectos e répteis; ocasionalmente consome, ainda, crustáceos, moluscos, aves e matéria vegetal.


Fotografias de José Romão

REPRODUÇÃO

A Garça-real raramente se reproduz isoladamente, nidificando de um modo geral em colónias, cujo tamanho parece ser proporcional à riqueza das áreas de alimentação num raio aproximado de 25 km. Na Europa, as colónias de maior dimensão estão situadas em áreas costeiras, presumivelmente devido à sua proximidade a extensos pauis, lagoas, estuários e costa litoral, habitats que incluem uma grande variedade de áreas de alimentação. Os ninhos, construídos em árvores altas acima dos 25 metros, mas também em arbustos ou sobre caniços, e mais raramente em edifícios, pontes e no solo, são frequentemente ocupados em anos consecutivos. As posturas, com 3 a 5 ovos, são iniciadas no mês de Março, prolongando-se a incubação por cerca de 25 dias. As crias atingem a idade de emancipação por volta dos 50 dias de idade, mas ao fim de 25 dias são suficientemente crescidos para se defenderem e aventuram-se fora do ninho, subindo pelos ramos que os suportam.

 

MOVIMENTOS

Na Europa, as populações do Norte são migradoras, enquanto que as do Centro e do Mediterrâneo são residentes ou migradoras parciais, podendo deslocar-se para Sul, para África, em Invernos mais rigorosos. Antes da verdadeira migração, nos meses de Verão, as Garças-reais, especialmente os juvenis, dispersam em todas as direcções. A migração de Outono inicia-se em Setembro e prolonga-se até final de Outubro. Em Fevereiro tem lugar a migração nupcial, sendo as colónias geralmente reocupadas em Março.


CURIOSIDADES

As maiores colónias de Garça-real localizam-se em França. Nos anos 80 a maior colónia francesa albergava cerca de 1100 casais.


LOCAIS FAVORÁVEIS À OBSERVAÇÃO

Em Portugal, os locais onde a espécie é mais abundante correspondem a estuários e lagoas costeiras, nomeadamente os Estuários do Tejo e Sado e a Lagoa de Santo André, onde abundam as potenciais áreas de alimentação. No interior do país a distribuição da espécie acompanha as bacias hidrográficas dos rios Sado e Guadiana, estando os indivíduos associados a cursos de água. No Alentejo ocorre ainda em açudes e barragens.

BIBLIOGRAFIA

Elias, G. L., Reino, L. M., Silva, T., Tomé, R. e P. Geraldes (Coods.) 1998. Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Lisboa.

Sauer, F. 1983. Aves Aquáticas. Editorial Publica.

Snow, D.M. e C.M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.

Voisin, C. 1991. The Herons of Europe. T & AD POYSER. London.

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