Ficha da Enguia

Maria João Correia
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A enguia é um peixe serpentiforme, que vive grande parte da sua vida em água doce, migrando para o mar para se reproduzir. A sua exploração comercial e a construção de obstáculos à sua migração são considerados importantes factores de ameaça.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

A enguia (Anguilla anguilla Linnaeus, 1758) é um peixe de corpo alongado e cilíndrico, que se comprime na região caudal. A cabeça é larga e no focinho são evidentes os orifícios nasais em forma de tubo. Os olhos são pequenos e redondos, e a boca é grande, com a mandíbula inferior proeminente. Ambas as mandíbulas possuem faixas de pequenos dentes cónicos.

Possui barbatanas peitorais, dorsal e anal, sendo que as duas últimas se fundem numa só barbatana contínua, que se inicia atrás da cabeça e se prolonga até ao ânus. O corpo, coberto por uma mucosidade abundante, aparenta não possuir escamas, pois estas são muito pequenas. A cor da enguia é variável, dependendo do estado de maturação sexual do indivíduo. Quando estão em água doce o dorso é acinzentado e o ventre amarelo e quando iniciam a descida dos rios até à foz, na época de reprodução, o dorso torna-se negro e o ventre e flancos prateados.

As enguias podem alcançar até um máximo de 140 cm e mais de 10 kg de peso.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

A distribuição desta espécie é muito ampla. Ela é encontrada desde os países nórdicos até às costas africanas (a cerca de 25º de latitude S) no Atlântico e em todo o Mediterrâneo.


HABITAT E COMPORTAMENTO

A enguia é uma espécie catádroma, ou seja, passa grande parte da sua vida em água doce, migrando depois para o mar onde se reproduz. A maturação sexual das enguias é um pouco tardia. Nos machos ocorre entre os 6 e os 12 anos e nas fêmeas entre os 8 e 13 anos. Uma vez alcançada a maturidade sexual os exemplares efectuam uma migração para jusante, em direcção ao mar, onde se dirigem para o mar dos Sargaços (entre os 20º e 30º de latitude entre a Europa e América). Durante esta viagem, que pode durar alguns meses, as enguias não se alimentam, o que resulta na morte dos adultos após a reprodução, que decorre normalmente no mês de Fevereiro. As larvas, que eclodem cerca de 24 horas após a fecundação, são arrastadas pela corrente do golfo em direcção a noroeste, ajudadas também pela sua forma foliar.

 

Aproximadamente aos 2 ou 3 anos chegam às costas europeias e ao alcançarem a plataforma continental transformam-se em angulas (formas quase transparente e esbranquiçadas) e iniciam a sua migração para o interior dos rios (a partir de Novembro e Dezembro), onde adquirem a coloração amarelada típica.

ALIMENTAÇÃO

A enguia é particularmente activa durante o período nocturno, quando se alimenta de pequenos peixes, crustáceos, moluscos e larvas de insectos aquáticos.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

A enguia distribui-se por todas as bacias hidrográficas portuguesas e é, de uma forma geral, abundante, verificando-se no entanto uma tendência para a regressão na parte superior das bacias hidrográficas com barragens. Os principais factores de ameaça a esta espécie são os obstáculos à migração (barragens, açudes, etc.) e a exploração furtiva intensa de angulas nas zonas estuarinas, que lhe conferem o estatuto de espécie comercialmente ameaçada. Apesar de abundante, em virtude do seu carácter migrador pode tornar-se vulnerável, devido, principalmente, à existência de obstáculos sucessivos e intransponíveis.

 

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