Ficha do Cachalote

Miguel Monteiro
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O Cachalote pode ser encontrado em todos os oceanos do Planeta. Único na aparência, com uma cabeça quadrangular e volumosa, que corresponde a mais de um terço do corpo, este mamífero marinho tem sido personagem de muitas histórias e lendas.

 

 

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O Cachalote, Physeter macrocephalus, é um cetáceo pertencente à sub-ordem Odontoceti (baleias com dentes) e à família Physeteridae. É facilmente identificável pela enorme cabeça rectangular, que representa de 1/4 a 1/3 do comprimento total do corpo. Tem apenas um espiráculo situado na região frontal do rostro, ligeiramente do lado esquerdo, sendo o “sopro” projectado num ângulo de 45º, e a uma distância de 5 m. A pele tem um aspecto enrugado e pode apresentar diversas cicatrizes. Não possui barbatana dorsal, existindo apenas uma protuberância a meio do dorso, seguindo-se uma pequena crista em direcção à região posterior. As barbatanas peitorais são pequenas e têm forma de folha. A barbatana caudal, bastante musculada, é facilmente observável quando o animal mergulha. O corpo é geralmente cinzento ou castanho-acinzentado, com áreas brancas nos lábios, maxila inferior e por vezes na região genital. Raramente são encontrados indivíduos de cor preta ou completamente brancos.

Os cachalotes apresentam um acentuado dimorfismo sexual, devido a uma desigual taxa de crescimento entre machos e fêmeas após os 2-3 anos de idade. São as maiores baleias com dentes, podendo os machos atingir os 20 m de comprimento (e.g. 15-18 m) e pesar 50 toneladas (e.g. 35-45). As fêmeas têm dimensões menores, geralmente medindo entre 10-12 m e pesando entre 13-20 toneladas. Apenas dispõem de dentes na maxila inferior – entre 18 e 25 em cada lado – encaixando-se estes em pequenas depressões circulares da maxila superior. Os dentes são enormes, podendo os dos machos atingir um máximo de 27 cm e pesar 1 kg.

HABITAT E DISTRIBUIÇÃO

Esta espécie ocorre em todos os oceanos, geralmente em águas com profundidades superiores a 200 m, estando apenas ausentes das regiões mais próximas das calotes polares – os machos de maiores dimensões ocorrem até latitudes de 65º N e 70º S. É uma espécie comum em canhões submarinos e a partir do bordo da placa continental. Pode ainda ocorrer junto a ilhas vulcânicas, onde a profundidade da água aumenta rapidamente com o afastamento da costa. Nos Açores é mais abundante a norte da ilha de S. Miguel e a sul das ilhas Faial e Pico. Está presente no Mediterrâneo, embora não costume entrar em mares semi-fechados.


ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO E ABUNDÂNCIA

O cachalote está incluído no Anexo III da Convenção de Berna e no Anexo I da Convenção de CITES. A UICN atribui-lhe o estatuto de Insuficientemente Conhecido.

 


Desde o início do séc. XVIII que este animal é perseguido pelo homem. Na cabeça destes animais encontra-se um órgão, denominado espermacete, rico em óleo e mais abundante nos machos devido à maior dimensão da cabeça. Produzem também o âmbar-cinzento, substância muito valiosa para a indústria dos perfumes e em alguns países consome-se a sua carne. Os dentes são ainda hoje bastante procurados devido ao seu marfim, que permite gravar e esculpir delicadas peças.

Ao longo do séc. XX, com o desenvolvimento das artes de pesca, a procura destes produtos valiosos terá reduzido a população mundial de cachalotes para metade. Em 1963/64 estima-se que tenham sido capturados 29.300 animais. Apenas em 1986 a captura comercial do cachalote foi banida, embora ainda hoje continue a ocorrer em países como o Japão ou a Noruega. A pesca selectiva de machos de maiores dimensões provocou perturbações no “sex-ratio”, afectando a taxa de natalidade da espécie.

Não existem actualmente estimativas concordantes do efectivo mundial da espécie. Alguns autores referem mínimos de 500.000 indivíduos, enquanto outros apresentam os valores de 2.000.000 (a população de pré-exploração está estimada em 2.700.00).

Devido ao seu enorme tamanho, o cachalote tem poucos inimigos naturais. No entanto, as crias são por vezes atacadas por orcas e tubarões de grandes dimensões.


ALIMENTAÇÃO

Alimentam-se a grandes profundidades, tanto de dia como de noite, podendo ficar submergidos até 2 horas e descer até 3.200 metros. No entanto, os mergulhos mais frequentes são os com 30 a 60 minutos de duração, a profundidades de 1000-1200 metros. As suas presas principais são as lulas (por vezes lulas gigantes) e outros cefalópodes. Os peixes têm pesos variáveis na dieta dos cachalotes, sabendo-se que em alguns locais, como na Islândia, chegam mesmo a ser a presa principal. Fazem ainda parte da dieta crustáceos (caranguejo e lagosta), alforrecas, focas, raias e inclusive tubarões.

O processo de captura das presas é difícil de estudar, pois ocorre a grandes profundidades. Algumas hipóteses são avançadas, entre as quais o uso de ecolocação na procura das presas; a detecção das lulas através dos seus órgãos luminescentes; nadar de boca aberta, capturando presas aleatoriamente; o uso da parte branca da boca como chamariz para atrair as presas; atordoamento das presas através de sons ultra-sónicos, entre outras.

REPRODUÇÃO

As fêmeas atingem a maturidade sexual entre os 7-13 anos, altura em que medem entre 8-9,5 metros. Os machos são sexualmente activos aos 18-21 anos, mas geralmente só se reproduzem alguns anos mais tarde, continuando a crescer até aos 40 anos de idade. Embora a reprodução dos cachalotes não dependa muito das estações do ano, há um certo padrão das épocas de acasalamento consoante o Hemisfério: geralmente no H. Norte ocorrem entre Janeiro e Agosto, com picos de Abril a Maio; no H. Sul ocorrem de Julho a Março, com picos de Setembro a Dezembro. A gestação é de 14,5-16 meses, nascendo então uma cria (muito raramente nascem gémeos) com cerca de 1 tonelada e 4-5 m de comprimento. A cria ingere diariamente cerca de 20 kg de leite, estendendo-se o período de lactação por 1-2 anos (embora alguns indivíduos tenham sido observados esporadicamente a mamar até aos 13 anos). O leite é obtido através do estímulo dos mamilos, que se encontram inseridos em fendas mamárias.

 

Os cachalotes podem viver até à idade de 60-70 anos.


ORGANIZAÇÃO SOCIAL

São animais gregários, reconhecendo-se geralmente três tipos de grupos, resultantes de uma segregação sazonal e geográfica por idade, estatuto social e sexual. O de maior dimensão é constituído por fêmeas reprodutoras e as respectivas descendências. Este conjunto, bastante estável ao longo dos anos, compreende cerca de 10-20 indivíduos (poderá atingir os 50, formando-se subgrupos que comunicam entre si a longa distância). Da coesão do grupo resulta o cuidado para com elementos feridos e crias doutras fêmeas, permitindo a ausência das mães em busca de alimento. Encontram-se habitualmente em águas tropicais e temperadas. Os machos que já atingiram a maturidade sexual, mas não a social, andam geralmente juntos, mas em grupos de menores dimensões. Afastam-se frequentemente do Equador e das regiões temperadas em busca de melhores áreas de alimentação e procurando evitar contactos com machos reprodutores. Finalmente, os machos socialmente maturos formam grupos de 5-6 indivíduos, podendo inclusive os mais velhos serem observados sozinhos, em latitudes mais elevadas (acima dos 40º).

COMUNICAÇÃO

Os cachalotes utilizam um reportório simples de sons na comunicação e, como já referido, provavelmente na caça, detecção de presas e navegação. Além de um som que lembra uma trombeta, o resto das vocalizações consiste numa repetição de simples estalidos, que podem, no entanto, variar bastante na frequência e também no padrão e ritmo da repetição. Os estalidos regulares são emitidos a um ritmo de 1-2 por segundo, a frequências que variam entre 0.1 e 30 KHz. Produzem, a título de exemplo, um “chiar” que resulta de uma elevada repetição dos estalidos (cerca de 220 por segundo, durante 5-15 segundos) e um som estridente, resultante de uma taxa de repetição baixa e uniforme. Os sons percorrem uma distância de 10 km através da água.

Os saltos fora de água e o bater na superfície com as barbatanas pode igualmente ser uma forma de comunicação, embora o seu verdadeiro significado esteja ainda por desvendar.


MOVIMENTOS

Os movimentos migratórios desta espécie acompanham as estações do ano: quando chega o Outono os animais deslocam-se para regiões mais quentes (tropicais e temperadas); no começo da Primavera afastam-se em direcção aos pólos. Como já foi referido, são os machos que se dispersam para latitudes mais elevadas.

Na água, o deslocamento dos cachalotes faz-se a uma velocidade média de 7.5 km/h. No caso de se sentirem ameaçados podem atingir velocidades de 30 km/h. Quando mergulham, descem aproximadamente 80 metros por minuto.


CURIOSIDADES

A baleia-branca do clássico de Herman Melville, ‘Moby Dick’, era um cachalote:
- “Uma bossa como uma colina de neve! É Moby Dick! (…) Ele viu o imenso intrincado de rugas da cabeça (…) o vulto branco e cintilante da testa larga e leitosa (…) o seu jacto silencioso para o ar (…) a grande doçura do repouso na velocidade (…) a hediondez ignóbil da sua mandíbula (…) duas longas filas recurvadas de dentes brancos ofuscantes.”

 

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

Para observar esta espécie sugere-se uma deslocação aos arquipélagos da Madeira ou dos Açores. Neste último, como acima referido, os cachalotes são mais abundantes nas ilhas de S. Miguel, Faial e Pico. Várias empresas de “Whale-Watching” encarregam-se de, em segurança, levar os visitantes a um contacto com estes magníficos cetáceos no seu ambiente natural.

BIBLIOGRAFIA

Clarke, M. R. (1976). Observation on sperm whale diving. Journal of Marine Biologist Association of the United Kingdom, 56: 809-810.

Goold, J. C. (1999). Behavioral and acoustic observations of the sperm whale in Scapa Flow, Orkney Island. Journal of Marine Biologist Association of the United Kingdom, 79: 541-550.

Holthius, L. B. (1987). The scientific name of the sperm whale. Marine Mammal Science, 3: 87-89.

Macdonald, D. e Barret, P. (1993). Mammals of Britain and Europe. Harper Collins Publishers, London.

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