Ficha do Carrasco

Nuno Leitão
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O Carrasco é um carvalho que possui geralmente hábito arbustivo, mas que em certos locais atinge o porte arbóreo. As suas características morfológicas e ecológicas são das que melhor definem a vegetação da Região Mediterrânea.

 

 

TAXONOMIA

O Carrasco (Quercus coccifera) pertence à ordem Fagales e família Fagacea, sendo uma folhosa, ou seja uma angiospérmica dicotiledónea.


CARACTERÍSTICAS MORFOLÓGICAS

Geralmente apresenta-se na forma arbustiva, com uma altura de cerca de 2 m, mas atinge excepcionalmente o porte arbóreo, existindo exemplares com 8 e 12 m de altura. As folhas persistentes, sempre verdes (verde intenso e brilhante), são geralmente rígidas, de forma ovada a lanceolada, com a margem serrada a dentada e espinhosa. A glande (bolota) tem um pedúnculo curto e uma cúpula com escamas salientes, ou mesmo espinhosas, e é a bolota mais globosa relativamente a bolotas de outras quercíneas. Floresce entre Abril e Maio e frutifica em Agosto do ano seguinte.

OCORRÊNCIA

É uma espécie comum a toda a região mediterrânica, sendo apontada como uma espécie típica da região. Em Portugal tem ocorrência espontânea no Centro e Sul.


PREFERÊNCIAS AMBIENTAIS

O Carrasco prefere os climas quentes e secos, característicos da região mediterrânica, e adapta-se bem a solos pobres e secos, especialmente no caso dos solos calcários. É uma espécie de luz, intolerante ao ensombramento, pelo que aparece nas zonas ensolaradas e secas, sendo uma espécie muito xerófila. Embora se adapte a precipitações que variam entre os 200 e 1 500 mm, é mais frequente nas regiões com precipitação entre os 400 e os 800 mm. Nos ambientes mesomediterrânicos, com substrato calcário, aparecem geralmente exemplares com porte arbóreo, como é o caso da Serra da Arrábida.


O CARRASCO NO ECOSSISTEMA

A importância do Carrasco no ecossistema varia bastante, podendo ser a espécie climácica nos típicos matorrais mediterrânicos, ou apenas a representante de uma série de sucessão ecológica. De uma maneira geral, nos ecossistemas que domina com a forma arbustiva, cobre cerca de 75% da área e impede o desenvolvimento de substratos herbáceos bem constituídos. Com porte arbóreo, aparece muitas vezes associado com outras árvores, destacando-se a Azinheira, com a qual hibrida regularmente.

 

Para além de se adaptar bem a regiões pobres, secas e pedregosas, a sua grande vantagem competitiva deve-se à facilidade e rapidez com que utiliza a reprodução vegetativa após um fogo ou ataques de herbívoros.

O CARRASCO E O FOGO

As espécies de quercíneas arbustivas, como o Carrasco, estão melhor adaptadas à ocorrência de fogos intensos e frequentes do que as espécies arbóreas, produzindo bolotas em ramos com apenas 3 anos e vegetando com mais vigor sob a grande insolação que surge após a abertura do coberto pelo fogo. O Carrasco rebenta vigorosamente, especialmente das raízes, ao longo da sua vida, e mesmo após repetidos fogos continua a fazê-lo, a não ser nos casos em que o empobrecimento do solo seja excessivo, onde as populações de menor qualidade começam a degenerar. Nos primeiros anos após um fogo, o Carrasco é a espécie arbustiva dominante nas regiões onde ocorre espontaneamente.

 

UTILIDADES

O Carrasco é tipicamente utilizado para separar terrenos agrícolas, formando densas sebes.

O carrascal tem grande importância ao nível da cinegética, proporcionando bons refúgios para as perdizes, coelhos, lebres, entre outras espécies, e importância para a conservação da biodiversidade. Nos terrenos empobrecidos, pode ser essencial para a protecção dos solos, especialmente nas zonas sujeitas a repetidos fogos ou intenso pastoreio, onde tem grande capacidade de resistir, relativamente a outras espécies. Devido às suas folhas espinhosas e recortadas e à facilidade em rebentar nova e continuamente, resiste bem à herbivoria.

A madeira do Carrasco é semelhante à da Azinheira, de boa qualidade, muito sólida, dura e pesada, mas devido à dimensão reduzida não tem praticamente nenhum aproveitamento. Contudo, as raízes mais grossas são muitas vezes utilizadas para a produção de carvão e, eventualmente, para lenha.

 

Relativamente à bolota, ela pode ter algum valor para o pastoreio, especialmente para as cabras e para os animais silvestres, particularmente no caso dos cervídeos, mas não tem a qualidade das bolotas de outras quercíneas, pois são muito amargas.

Estas bolotas tostadas chegaram a ser utilizadas para falsificar o café, e picadas para mascarar vinhos adulterados.

 

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