Mocho-galego, o caçador do crepúsculo

Carolina Bloise
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Entre as aves de presa nocturnas, o mocho-galego é a que pode ser mais facilmente observada, por possuir hábitos crepusculares e por vezes diurnos. Ao entardecer, é possível vê-lo pousado em fios, telhados e postes, um pouco por todo o país.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O mocho-galego, Athene noctua, é uma ave da ordem dos Strigiformes, com aproximadamente 23 cm de comprimento e com uma envergadura que varia entre os 54 e 58 cm. É relativamente pequeno, com um aspecto compacto, sem orelhas e com umas sobrancelhas brancas e largas na face. As asas são largas e arredondadas, salpicadas de branco na parte superior. A parte inferior do corpo é esbranquiçada e fortemente listrada de castanho escuro. Tem as patas compridas proporcionalmente ao corpo. As diferenças entre os sexos são imperceptíveis. Os taxonomistas distinguem onze sub-espécies, baseando-se em diferenças de cor e de tamanho. Por exemplo, a mais escura é o A. n. vidalii, que ocorre no Oeste da Europa e a mais pálida, A. n. lilith, habita as regiões secas e arenosas da extremidade Leste do Mediterrâneo.

Vê-se frequentemente durante o dia, tendo um voo ondulante, o que parece ser vantajoso para despistar os predadores (aves de rapina diurnas). Durante a noite voa a direito e a baixa altitude.

Durante a época de reprodução os machos marcam o território através do canto, que consiste num “hooo-oo hooo-oo”, ouvindo-se principalmente ao entardecer e durante a noite.


DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Esta espécie pertence ao tipo de fauna turquestano-mediterrânico. Tem uma distribuição transpaleárctica, ocorrendo desde a Europa Ocidental e Norte de África, até ao Extremo Oriente. No Continente Europeu encontra-se apenas ausente da Islândia, Escandinávia e de algumas regiões do Reino Unido, Europa Central e Rússia. Em Portugal encontra-se distribuída por todo o país, sendo aparentemente mais comum a sul do Tejo. É uma espécie sedentária.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

É uma espécie bastante comum no nosso país, tendo o estatuto de não ameaçada no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. No entanto, em grande parte dos países da Europa, as suas populações têm vindo a sofrer um acentuado declínio, nomeadamente nos últimos 40 anos, causado sobretudo por alterações dos habitats, resultantes da intensificação e mecanização da agricultura, o que se traduz principalmente na escassez de locais de nidificação e no efeito de pesticidas no sucesso reprodutor. Por esse motivo, o mocho-galego está englobado no Anexo II da Convenção de Berna (sobre Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa) e no Anexo II da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção).


HABITAT

Os habitats originais do mocho-galego consistem em regiões de estepe ou semidesérticas. Actualmente, esta espécie coloniza sobretudo habitats relativamente abertos, nos quais é importante haver uma elevada disponibilidade de locais de nidificação e abundância de presas. É, por isso, geralmente encontrado em áreas agrícolas com algumas árvores, áreas de montado, matas, pomares ou áreas de estepe cerealífera com muros, ruínas ou aglomerações rochosas. Aparece por vezes em parques e jardins.

ALIMENTAÇÃO

O mocho-galego alimenta-se basicamente de invertebrados, principalmente insectos, e pequenos mamíferos (roedores). As aves parecem constituir uma fonte de alimento importante apenas durante a época de reprodução. Também se alimenta, ocasionalmente, de répteis e anfíbios. A sua alimentação varia com a localização geográfica, sendo a importância de invertebrados na alimentação crescente do centro da Europa para o Mediterrâneo, provavelmente devido à menor abundância de roedores na região mediterrânica.


REPRODUÇÃO

É uma espécie territorial, que nidifica em cavidades localizadas em árvores, em montes de pedras, em velhas construções, muros ou falésias, sendo ocasionalmente encontrado em tocas de coelho. A época de reprodução estende-se de Março a Julho, sendo as posturas geralmente de 3 a 5 ovos, incubados apenas pela fêmea. O período de incubação é de 28 a 33 dias. As crias saem do ninho 30 a 35 dias depois de nascerem, mas são ainda alimentadas durante mais um mês.

MOVIMENTOS

É uma espécie sedentária em toda a sua área de distribuição, embora se tenham registado movimentos de dispersão, fora da época de reprodução, que podem ir até 300 km.


CURIOSIDADES

O mocho-galego é a mais diurna das rapinas nocturnas, sendo frequentemente observado durante o dia. Na época de reprodução, altura em que se encontra mais activo, pode ser visto a caçar e a levar alimento para o ninho, mesmo às horas de maior luminosidade. Por outro lado, apresenta um elevado mimetismo com as pedras e com os ramos das árvores, sendo frequente confundirem-se os indivíduos desta espécie com aqueles elementos naturais, o que deverá constituir uma protecção contra os predadores.

 

LOCAIS DE OBSERVAÇÃO

Pode ser observado um pouco por todo o país, encontrando-se ausente em áreas de floresta densa e em zonas de alta montanha.

BIBLIOGRAFIA

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