Cobra-de-água-viperina, como peixe na água

Rui Braz e Maria João Cruz
Imprimir
Texto A A A

A cobra-de-água-viperina é uma das cobras mais comuns em Portugal. Trata-se de uma excelente nadadora, que pode submergir durante mais de 15 minutos, mas que necessita de terra firme para efectuar as suas posturas e para hibernar.

 

 

CARACTERÍSTICAS

A cobra-de-água-viperina (Natrix maura) é uma cobra pequena, com cerca de 65 a 70 cm de comprimento total; no entanto alguns exemplares podem atingir 90 a 100 cm. Possui corpo cilíndrico, cabeça bem diferenciada e olhos com grandes pupilas redondas. As escamas dorsais são fortemente carenadas (com uma saliência longitudinal). O desenho e cor desta cobra são muito variáveis. O dorso é geralmente castanho, esverdeado, alaranjado ou avermelhado, com uma série dupla de manchas escuras que normalmente formam um desenho em ziguezague. Na parte posterior da cabeça possui uma mancha escura em forma de V invertido. O ventre é esbranquiçado com manchas escuras ou negras, de forma quadrangular. Esta cobra é frequentemente confundida com as víboras, que apresentam um padrão semelhante. Porém, as víboras têm pupila vertical, placas cefálicas subdivididas e a cauda mais curta.

As fêmeas são maiores que os machos e a sua cauda é proporcionalmente mais curta. Os juvenis têm cores mais contrastantes que os adultos.


DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Esta espécie ocupa o Norte de África, a Península Ibérica, a França, o sudoeste da Suíça e o extremo noroeste da Itália. Em Portugal encontra-se de Norte a Sul, desde o nível do mar até aos 1800 metros de altitude.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

Esta espécie faz parte do Anexo III da Convenção de Berna. Em Portugal o seu estatuto é não ameaçado (NT).


FACTORES DE AMEAÇA

A cobra-de-água-viperina é uma das cobras mais comuns em Portugal. No entanto, a poluição aquática continental e a degradação e destruição de habitats húmidos têm provocado o declínio e mesmo o desaparecimento de algumas populações. Além destes factores, os atropelamentos são também uma ameaça para esta espécie.


HABITAT

A sua presença está associada a uma grande variedade de habitats aquáticos, tais como lagos, albufeiras, pântanos e charcos, mas também pode ser observada a vários quilómetros de distância da água, já que para a hibernação e posturas precisa de locais secos. Sendo boa nadadora, pode manter-se submersa durante períodos superiores a 15 minutos.

ALIMENTAÇÃO

Alimenta-se na água de peixes, rãs, relas, sapos, tritões e insectos aquáticos. Por vezes também caça invertebrados e micromamíferos em terra.


INIMIGOS NATURAIS

Entre os inimigos naturais da cobra-de-água-viperina incluem-se garças, cegonhas, águias, mochos, cobras, o ouriço, a lontra e o toirão.

 

REPRODUÇÃO

Esta cobra tem dois períodos reprodutores, um na Primavera e outro no Outono, embora este último não seja tão importante e afecte menos os indivíduos. A cópula pode durar mais de uma hora. A fêmea põe entre 4 e 24 ovos em galerias, raízes ou debaixo de pedras. Os ovos são brancos e medem cerca de 3 por 1,5 cm. A incubação dura entre um mês e meio e 3 meses e as primeiras eclosões dão-se em Agosto.

Enquanto que as fêmeas só atingem a maturidade sexual aos 4 ou 5 anos de idade, os machos podem reproduzir-se a partir dos 3 anos.


ACTIVIDADE

Está inactiva entre Novembro e Março, mas não se trata de uma verdadeira hibernação, uma vez que nos dias mais quentes deste período pode sair do seu refúgio (raízes, pedras, madeira, etc.) para apanhar sol.

É fundamentalmente diurna, mas durante o Verão também pode apresentar alguma actividade crepuscular e nocturna.

CURIOSIDADES

Quando se sente ameaçada, esta espécie adopta uma postura idêntica à das víboras, dilata as mandíbulas para que a cabeça pareça triangular (como a das víboras) e emite sons (sibilos). Este comportamento ajuda a manter alguns predadores afastados, com receio de serem mordidos por uma víbora venenosa. Outros mecanismos de defesa incluem fingir que está morta e a libertação de secreções fétidas das glândulas cloacais.

 


LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

Qualquer ribeira, sobretudo no Sul do País. A Primavera é a melhor estação para observar indivíduos desta espécie.

BIBLIOGRAFIA

Arnold, E. N. e Burton (1987). Guia de campo de los reptiles y anfibios de Espanha y de Europa. OMEGA, Barcelona.

Barbadillo, L. J. (1987). La guia de INCAFO de los anfibios y reptiles de la Peninsula Iberica, Islas Baleares y Canarias, Madrid:INCAFO.

Diesener, G. e Reichholf (1992). Reptiles y Anfibios. Blume, Barcelona.

Hailey, A. e P. M. C. Davies (1987). Maturity, mating and age-specific reproductive effort of the snake Natrix maura. Journal of Zoology, Londres, 211: 573-587.

Rosa, H. D. e E. G. Crespo (1998). La conservación de los anfibios y reptiles en Portugal. Pág. 517 a 529 In Distribución y biogeografia de los anfibios y reptiles en España y Portugal, edited by Pleguezuelos, J.M.Granada:Monográfica Tierras del Sur, Univ. de Granada, Asociación Herpetológica Española.

Comentários

Newsletter