Reproduzir para Preservar – Conservação de Espécies Piscícolas Ameaçadas

Carla Sousa Santos – Centro de Biociências, ISPA
Imprimir
Texto A A A

A reprodução ex situ depende por outro lado, para ser economicamente viável, da adopção de procedimentos tão económicos quanto possível implicando, por isso, a escolha das técnicas de manutenção, reprodução e criação dos animais que promovam a melhor relação entre custos e benefícios, respeitando as regras de preservação da biodiversidade referidas acima. Adicionalmente, a reprodução ex situ terá que ser realizada com precauções extremas no sentido de se garantir que não ocorrem misturas de indivíduos de populações diferentes, nem durante a manutenção em cativeiro nem aquando da reintrodução na Natureza.
Por último, a escolha de populações-alvo para a reprodução ex situ no caso dos recursos serem limitados (situação que é a mais usual) deverá obedecer a um compromisso em que se pondere, por um lado, a diversidade genética das diferentes populações e, por outro, o seu tamanho e respectivo risco de extinção em função das ameaças e degradação do habitat.

Embora também aplicada a outros grupos taxonómicos, a reprodução ex situ tem sido desenvolvida em vários países quando urge preservar populações de peixes em risco, existindo já uma experiência considerável a nível internacional neste domínio. Na Europa, existem projectos bem sucedidos de recuperação de stocks nativos de salmão aliados ao melhoramento dos seus habitats de origem e, mais recentemente, projectos de reprodução em cativeiro para posterior repovoamento têm sido aplicados a outras espécies.

Figura 2 – Reprodução ex-situ de Achondrostoma occidentale nas instalações do Aquário Vasco da Gama.

(Autoria: Carla Sousa Santos)

A reprodução ex situ combinada com a criação de Áreas Especiais de Conservação (SACs) nos habitats de origem tem-se revelado uma medida eficaz para evitar a extinção de várias espécies. A este propósito é importante realçar que os estudos apoiados em marcadores moleculares têm demonstrado inequivocamente a superioridade das estratégias apoiadas nos conceitos modernos da Biologia da Conservação quando se comparam os seus resultados com as estratégias mais tradicionais de repovoamento a partir de stocks não indígenas, mesmo quando estes são da mesma espécie.

A experiência mais rica de reprodução em cativeiro e repovoamento refere-se, pelo seu valor recreacional e económico, aos salmonídeos. Os estudos realizados na Península Ibérica, têm demonstrado consistentemente que, apesar de dezenas de anos de repovoamento com stocks não nativos (nomeadamente oriundos da Europa do Norte), continuam a predominar nas populações naturais de truta haplótipos indígenas. Tal demonstra claramente a superioridade destes haplótipos indígenas em termos de adaptação às condições locais e salienta a necessidade de, ao preservar uma espécie, respeitar os stocks de origem em vez de utilizar stocks que evoluíram em habitats muito distintos como se fossem equivalentes. Uma outra conclusão que decorre deste tipo de estudos é a necessidade de monitorização regular com marcadores moleculares da estrutura genética das populações, quer durante o período em que são mantidas em cativeiro, quer depois do repovoamento.

Comentários

Newsletter