Entre o mar e a pedra - o Percebe e os Percebeiros

Dora Jesus
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O percebe, ainda dentro dos sacos, é lavado numa poça e liberto de um outro habitante desta zona, o seu vizinho inseparável – o mexilhão, que em menos de nada se torna a agarrar às rochas com os seus filamentos.


Transferido para dentro da saca de serapilheira, para evitar a perda de humidade, o percebe é colocado às costas e inicia-se então a etapa mais difícil que remata a jornada: escalar o caminho de volta com um peso extra.


De volta ao carro, a saca é colocada dentro de um alguidar, e troca-se de roupa novamente. O resto do trabalho é feito em casa ou armazém ou numa garagem.


O dia ainda vai a meio, o percebe tem de ser “limpo” do pouco mexilhão que teimou em continuar agarrado e das algas que surgem muitas vezes pelo meio das pinhas, e separado do pouco percebe que pelo seu tamanho poderá desvalorizar o restante, “fica para comer em casa”, dizem (mas acreditem, é tão pouco que nem para um dá).


Para acabar o dia, falta a venda, mas mercê da sua experiência, da qualidade do seu trabalho e da qualidade do produto que apanham, desenvolveram com os clientes, essencialmente restaurantes, uma relação de confiança que lhes permite não andarem a correr para passar à frente de outros, têm a venda garantida e nós, consumidores finais, a qualidade do rei do marisco.


O dia de amanhã destes homens será o que o “patrão” deixar...

 

Referências bibliográficas sobre o percebe e a apanha do percebe

Geral:

Baptista, C.M. (2001). Os Marisqueiros de Vila do Bispo – Ensaio Etnográfico. Edição da Junta de Freguesia de Vila do Bispo.

Mariano, J. (1998). Guerreiros do Mar. 1000 Olhos – Imagem e Comunicação, Lda. (www.1000olhos.com)

Cientificas:

Cruz, T. (1991). Percebe: recurso ameaçado. Actas do IV Congresso sobre o Alentejo. Sines 31/05 a 01/06: 21-28.

Cruz, T. (2000). Biologia e Ecologia do Percebe, Pollicipes pollicipes (Gmelin, 1790), no litoral sudoeste português. Dissertação para obtenção do grau de Doutor em Biologia Marinha, Universidade de Évora, 306 pp.

Cruz, T. e Araújo, J. (1999). Reproductive patterns of Pollicipes pollicipes (Cirripedia: Scalpellomorpha) on the southwestern coast of Portugal. Journal of Crustacean Biology, 19: 260-267.

Cruz, T. e Hawkins, S.J. (1998). Reproductive cycle of Pollicipes pollicipes at Cabo de Sines, southwest coast of Portugal. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 78: 483-496.

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