O Fogo na Paisagem Mediterrânea

Nuno Leitão
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Na Bacia do Mediterrâneo não existem espécies que dependam totalmente do fogo para poderem completar os seus ciclos de vida, mas esta situação ocorre noutras regiões com o mesmo tipo de clima, como na Austrália ou na África do Sul.


A paisagem Mediterrânea tem sofrido um impacto humano progressivo, ao longo de milhares de anos, tendo já passado por várias fases de uso do solo. Este processo de transformação da paisagem conduziu, em muitos locais, ao estabelecimento de novos equilíbrios entre as árvores, arbustos e vegetação herbácea, criando a atractiva diversidade biológica da região, onde o fogo foi remetido para um papel secundário e relativamente controlado. Os impactos mais recentes têm levado à degradação, não só do coberto vegetal original, mas também de parâmetros como o regime hídrico, o solo e o microclima superficial, situações que poderiam resultar da ocorrência de fogos, mas que se devem às actividades humanas e que também têm ocultado o papel do fogo.


Apesar da quase omissão do seu papel ao longo dos últimos séculos, não deixa de ser verdade que a vegetação da região é o resultado de repetidos fogos, primeiro de causas naturais, anteriores à significativa intervenção do Homem, seguindo-se o uso do fogo pelo homem primitivo para abrir as florestas na tentativa de melhorar as condições para a caça, ao que se seguiu a utilização do fogo para promover terras agrícolas e de pastoreio.


Hoje em dia, em cada ano, o fogo actua em mais de 200 000 ha na bacia do Mediterrâneo. No entanto, muitos locais continuam a ser poupados deste factor abiótico, com a manutenção de práticas centenárias, nomeadamente o pastoreio, que recorre ao fogo no Inverno para rejuvenescimento das pastagens e onde o próprio gado é responsável pelo controlo da massa de combustível. Contrariamente a esta situação, o abandono agrícola que se tem verificado e a promoção de zonas de protecção, onde as práticas tradicionais são abandonadas, levou à recuperação dos matos e florestas típicas com acumulação de combustível seco e, consequentemente, à reposição das condições naturais de susceptibilidade ao fogo. Um instrumento que permite combater esta reconversão é o fogo controlado, usado vulgarmente na Califórnia (que apresenta o mesmo tipo de clima e vegetação) e que em certa medida foi utilizado tradicionalmente na Bacia do Mediterrâneo, por pastores e agricultores.

De facto, o abandono das terras e das práticas tradicionais verificado, sobretudo, na Europa Mediterrânea tem contribuído para um aumento progressivo da ocorrência de fogos, tal como se verificou com o desenrolar da segunda metade do século passado. Desde os anos 60, altura em que os fogos anuais consumiam cerca de 50 000 ha de vegetação mediterrânea, que estes mesmos fenómenos passaram a consumir anualmente os já referidos 200 000 ha.


Este aumento tem uma conotação mais grave quando se leva em consideração que os esforços de combate e prevenção ao fogo são muito superiores aos que antes se adoptavam.

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