Os Sobreirais da Serra Algarvia no contexto do Desenvolvimento Rural

Ana Arsénio, In Loco
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Hoje a serra do Algarve vive a sensação de um futuro incerto. À espera que os sobreiros morram, (que na cura já se perdeu a esperança) que os velhos morram, que a esteva invada e o fogo destrua o que resta… Não se sabe o que vem depois, o que se poderá fazer…?

Projectos recentes multiplicam-se no sentido de recuperar o tempo que já se perdeu, na esperança de resgatar saúde e juventude, de retroceder esta marcha ou pelo menos preparar o espaço e as pessoas para o que vem a seguir.

A população é maioritariamente envelhecida, a propriedade é pequena, o novo proprietário é ausente, a mão-de-obra é reduzida e cara, a gestão florestal parece uma tarefa quase impossível. O apoio técnico só agora começa a ser valorizado e reconhecido por parte dos proprietários florestais. 
 
A gestão até aqui tem-se limitado à reflorestação, limpeza de matos, total ou apenas em “ruas” para retirar a cortiça, incorporando-se só muito recentemente mecanismos de protecção e de vigilância.

Pensa-se nos fogos quando eles estão à porta. Poucos são os casos de diversificação, e em que se associe à produção florestal outros usos e aproveitamentos: criação de gado, aproveitamento energético, aproveitamento de recursos secundários. A gestão florestal não é vista como um investimento a longo prazo mas assunto de gestão corrente.

O proprietário florestal terá que rentabilizar a sua exploração para poder ver retorno dos investimentos efectuados. E para essa rentabilização todos os recursos contam, numa óptica de multifuncionalidade e plurirendimento. A par da produção é fundamental trabalhar a transformação, acrescentar valor, abrir canais e fileiras para escoar.

Mas este cenário deve ser acompanhado de uma mudança radical na administração pública. Para que essa pluriactividade aconteça deverá haver um tecido institucional que facilite e oriente estas iniciativas. Não se tratam de estímulos financeiros, mas de aconselhamento técnico, facilitação, ao contrário da realidade presente de obstaculização burocrática.

Paralelamente deverá haver uma concertação de planos e programas de desenvolvimento e ordenamento. Os planos de conservação e protecção ambiental deverão coexistir com as actividades económicas que permitem uma gestão e manutenção de espaços rurais.

Basta ver na vizinha Espanha, os casos do porco preto, do mel, dos cogumelos e outros produtos silvestres, do artesanato, e, mais recentemente da produção de biomassa. As nossas potencialidades são muitas e iguais às do país vizinho. Não é uma questão de inveja mas de bom-senso. É esta atitude proactiva, generalizada a todos, que faz a diferença. Ela é suficiente para dinamizar um território rural. Ela é a melhor estratégia de desenvolvimento.

A gestão florestal da Serra do Caldeirão passa por ligar o Homem à Terra. Na perspectiva emocional, social, cultural, económica e ambiental.

Se antes a gestão assentava na polivalência de actividades, na exploração de recursos variados ao longo do ano, na manutenção de espaços limpos e produtivos e na presença constante do homem, porque é que actualmente estamos tão afastados deste modelo? Por medo de regressar “às passas do Algarve”? 

Temos que reconhecer que hoje vivemos uma realidade diferente, mas o recurso à inovação e à modernização da forma de realizar as actividades pode ser a chave para a promoção de um desenvolvimento sustentável para o mundo rural.

Estaria aqui a solução para os incêndios florestais. Igualmente haveria uma poupança de recursos públicos evitando accionar planos de emergência e de calamidade.

Para além dos rendimentos financeiros de cada actividade económica, fomenta-se o ordenamento e a promoção do território, a sua dinamização, e o essencial, está-se a contribuir para a conservação da base de todas estas actividades e da sua perpetuação para as gerações futuras. Estamos a garantir que o “solo” seja usado num futuro próximo. Estamos a garantir que se dê continuidade ao que se começou.

A morte dos sobreirais arrasta consigo inevitavelmente outras actividades económicas que estão intimamente ligadas e perfeitamente integradas no espaço rural. E são estas actividades que mantém viva a Serra, mobilizando gentes e recursos, dinamizando espaços e produtos. Assim estas tornam-se na principal preocupação do Desenvolvimento Rural, pilares para uma estratégia de revitalização e sustentabilidade.

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