Os Cogumelos - Diversidade e Ecologia

Celeste Santos e Silva e Rogério Louro – Universidade de Évora
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Todos os anos, com a chegada do Outono e das primeiras chuvas surgem súbita e misteriosamente os cogumelos silvestres vestindo os nossos prados, florestas, parques e jardins, com uma enorme panóplia de cores e formas, dando origem a um espectáculo de incontestável beleza. Contudo, o que nós observamos é apenas “a ponta do iceberg”.

Tal como os frutos produzidos pelas plantas, os cogumelos são estruturas reprodutoras produzidas por fungos, durante uma fase do seu ciclo de vida, e que representam a única parte visível destes mesmos seres vivos. Mas nem todos os fungos possuem estruturas reprodutoras macroscópicas (ou visíveis a olho nu) e como tal o termo cogumelo frequentemente aplica-se apenas às estruturas reprodutoras formadas durante a reprodução sexuada em alguns grupos de fungos, nomeadamente nos Basidiomycota e Ascomycota.

Estimativas recentes apontam para a existência de aproximadamente 1,5 milhões de espécies de fungos em todo o mundo, das quais cerca de 55000 são produtoras de cogumelos (macrofungos). Esta enorme diversidade faz do reino Fungi um dos maiores grupos de organismos conhecidos, podendo ser encontrados praticamente em todos os habitats naturais e semi-naturais, desde as florestas tropicais às planícies geladas da Antártida. Contudo é nos ecossistemas florestais onde estes encontram o seu óptimo ecológico, ou seja, as condições ideais para se instalarem. Estas condições diferem de espécie para espécie e estão relacionadas, principalmente, com o seu modo de nutrição.

Fig. 1 – Sancha (Lactarius sanguifluus)

À semelhança dos animais e contrariamente às plantas, os fungos não possuem clorofila e são por essa razão incapazes de produzir o seu próprio alimento, dependendo de outros seres vivos ou de matéria orgânica para obter a energia e os nutrientes de que necessitam. No entanto, os fungos não possuem os sistemas nem os órgãos especializados característicos da maioria dos animais e não partilham da sua mobilidade estando geralmente confinados num substrato (p. ex. no solo, em troncos, restos vegetais e animais). Para se susterem adoptaram diversas estratégias nutricionais podendo: alimentar-se dos nutrientes que extraem da decomposição dos substratos que colonizam (fungos sapróbios), parasitar animais e ou plantas para conseguirem retirar os nutrientes essenciais para o seu metabolismo (fungos parasitas) ou estabelecer relações de simbiose com as plantas, facilitando a absorção de água e nutrientes para a planta e recebendo em troca os nutrientes de que necessitam (fungos micorrízicos).

A evolução das plantas está tão profundamente relacionada com a dos fungos, que de certa forma pode dizer-se que os estes grupos evoluíram em conjunto. Por este motivo, algumas espécies de fungos podem ser exclusivas de determinado habitat e/ou associarem-se apenas a uma espécie vegetal, enquanto outras podem ser menos exigentes quanto a requisitos de habitat ou espécies hospedeiras. Em seguida, referem-se algumas espécies de macrofungos características dos ecossistemas mais relevantes de Portugal.

 

Pinhais de Pinus pinea (pinheiro-manso) e Pinus pinaster (pinheiro-bravo)

Bastante frequentes a norte do Tejo, em toda a península de Setúbal e menos vulgarmente a sul (em pequenos núcleos), a diversidade micológica destes pinhais varia em função da altitude a que se encontram e da sua orientação. Contudo, várias espécies de macrofungos, tais como as sanchas (Lactarius deliciosus, L. sanguifluus (Fig. 1), L. semisanguifluus) e os tortulhos (Boletus pinophilus), consideradas como excelentes comestíveis, são comuns nestes bosques ou podem ser encontradas associadas a estes pinheiros.

Fig. 2 – Rapazinho (Cantharellus cibarius)

Carvalhais de Quercus robur (carvalho-alvarinho), de Q. pyrenaica (carvalho-negral), de Q. faginea (carvalho-português)

Distribuídos por quase todo o território nacional, destes bosques restam actualmente pequenas manchas florestais sobretudo a norte do Tejo, que no entanto exibem algumas das mais belas espécies de macrofungos bem como outras bastante apreciadas do ponto de vista gastronómico. De entre as espécies de cogumelos comestíveis existentes nestes bosques destacam-se, os rapazinhos (Cantharellus cibarius (Fig. 2)), as amanitas dos césares (Amanita caesarea (Fig. 3)), as línguas-de-gato (Hydnum repandum) e os tortulhos ou cepas (Boletus edulis (Fig. 4) e Boletus aereus).

Fig. 3 – Amanita dos césares (Amanita caesarea)

Soutos e castinçais de Castanea sativa (castanheiro)

Mais abundantes na região a norte do Tejo, em zonas com altitudes superiores a 500 metros e com baixas temperaturas no Inverno, apresentam uma enorme riqueza em espécies de macrofungos, sendo que Russula, Lactarius, Amanita, Inocybe e Cortinarius são alguns dos géneros de macrofungos melhor representados nestes ecossistemas. De destacar ainda a presença de várias cogumelos comestíveis, tais como, os rapazinhos (Cantharellus cibarius), as amanitas dos césares (Amanita caesarea), os tortulhos ou cepas (Boletus edulis), entre outros.

Fig. 4 – Tortulho (Boletus edulis)

Montados de Quercus suber (sobreiro) e Q. rotundifolia (azinheira)

Dominando as paisagens do sul de Portugal, estes ecossistemas semi-naturais resultantes da transformação dos bosques de sobro e azinho originais, exibem uma enorme diversidade micológica, fruto da abundância de nichos ecológicos criada pela multiplicidade de usos tradicionalmente associada à exploração dos montados. Como tal, poderemos encontrar nestes ecossistemas não só espécies de macrofungos habitualmente associadas ao sobreiro e à azinheira mas também espécies que surgem em zonas dominadas por arbustos, como por exemplo a túbera (Terfezia spp. (Fig. 5)) e a silarca (Amanita ponderosa (Fig. 6)), os cogumelos “Ex libris” da região Alentejo. Outras espécies de cogumelos comestíveis existentes nestes bosques incluem, os rapazinhos (Cantharellus cibarius), as amanitas dos césares (Amanita caesarea), os pé azul (Lepista nuda) as línguas-de-gato (Hydnum repandum) e os tortulhos ou cepas (Boletus edulis, Boletus aereus, Boletus reticulatus).

Fig. 5 – Túbera (Terfezia arenaria)

Fig. 6 – Silarca (Amanita ponderosa)

Prados, pastagens e outras áreas ocupadas por vegetação herbácea

Não possuindo grande expressão em Portugal e em muitos casos apresentando sinais claros de degradação devido à intensidade de pastoreio e outros factores antropogénicos, estes ecossistemas são bastante ricos em espécies sapróbias pertencentes aos géneros Agaricus, Bovista, Clitocybe, Melanoleuca, Lepista, Coprinus e Psilocybe, muitas das quais produzem os célebres “anéis de fadas”. De destacar ainda a presença de várias cogumelos comestíveis, tais como, o champignon comum (Agaricus bisporus), a bola de neve (Agaricus arvensis), o champignon do campo (Agaricus campestris), o coprino cabeludo (Coprinus commatus), o pé azul (Lepista nuda) e as púcaras ou fradinhos (Macrolepiota procera (Fig. 7)), este último sem sombra de dúvida o cogumelo silvestre comestível mais conhecido de Norte a Sul de Portugal.

Fig. 7 – Púcaras ou fradinhos (Macrolepiota procera)

 


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