As flores
E porque as orquídeas possuem flores tão estranhas? A verdade é que tal como existe uma relação tão estreita entre a orquídea e o fungo, existe também uma relação estreita com os polinizadores, regra geral, tão mais estreita quanto bizarra é a flor. Boa parte das orquídeas têm polinizadores específicos e muitas têm também o hábito de os enganar, prometendo-lhes coisas que não lhes dão.
A história da polinização no género Ophrys é sobejamente conhecida, mas resume-se aqui para ilustrar o ponto a que chegam os estratagemas das orquídeas.
O género Ophrys possui algumas dezenas de espécies cujo centro de diversificação é a bacia do mediterrâneo. Em Portugal existem “cerca de” 10 espécies deste género. As flores destas plantas têm um aspecto bastante bizarro pois o seu objectivo é imitar a fêmea de um determinado insecto para que os machos sejam enganados, indo tentar copular com a flor!
Durante o processo, que é rápido, o insecto leva consigo as polinídias que ficam coladas à sua cabeça ou abdómen através de um pequeno pedúnculo. Simultaneamente, se já trouxer polinídias de outra flor, estas vão-se desagregando, à medida que tocam no estigma. A flor, para além de imitar a morfologia, a cor e a pilosidade do corpo de um insecto fêmea, imita também o seu odor através de substâncias semelhantes às hormonas sexuais do insecto.
Uma vantagem deste esquema é que dispensa a produção de néctar, um produto muito caro em termos energéticos e nem sempre bem sucedido, pois diversos insectos assaltam o néctar das flores sem as polinizarem, por vezes danificando-as, o que não acontece aqui. A taxa de sucesso é, pois, mais elevada, mas, como em tudo, a alta especificidade tem um preço, pois se por alguma razão a espécie de insecto que a orquídea imita deixa de habitar o local (por causas humanas por exemplo), estas orquídeas deixam de produzir sementes, não têm alternativas.

Fig. 3 - Drakaea glyptodon
Na Austrália existem também exemplos fascinantes de orquídeas cuja polinização é conseguida por engano sexual (ex. Drakaea glyptodon). Outros comportamentos fora do normal são também, por exemplo, Epidendrum radicans e Disperis capensis, orquídeas cuja flor imita a flor de outras plantas que se desenvolvem no mesmo habitat, em todos os aspectos excepto na presença de néctar – estas espécies não o têm – pelo que beneficiam dos mesmos polinizadores sem lhes dar nada em troca.
Outras orquídeas constroem armadilhas em que os insectos, uma vez capturados, para conseguirem sair da flor necessariamente levam o pólen, devido à morfologia intrincada do labirinto que a planta constrói. Por vezes algumas possuem um néctar ligeiramente tóxico para os insectos que os “embebeda”, o que leva a um maior tempo de permanência do insecto nas flores. E podíamos assim prosseguir falando de cada caso em particular, mas já assim se percebe que as orquídeas investiram muito do seu tempo de evolução na arquitectura da flor e exploraram o tema da polinização ao máximo.
Com tudo o que já foi dito, já se percebeu que as orquídeas são plantas bastante sensíveis à alteração dos habitats, principalmente aquelas que vivem lado a lado com esta ameaça que é o homem, como é o caso de todas as espécies portuguesas. Em seguida vamos conhecer um pouco sobre as nossas espécies.