A simbiose
Porém, há casos mais estranhos ainda, e estão relacionados com uma característica fantástica comum a todas as orquídeas, e que explica muitas das suas particularidades. As orquídeas têm um parceiro invisível, um fungo que vive em simbiose com elas, formando o que se chama de micorrizas. Existem micorrizas na maior parte das plantas que conhecemos, mas as orquídeas têm a particularidade de estarem totalmente dependentes delas. Nas outras plantas em geral, a associação entre o fungo e a planta é facultativa, sendo certo que uma planta micorrizada tem sempre uma grande vantagem perante “a sua irmã” não micorrizada, pois tem um acesso muito mais fácil aos nutrientes do solo que lhe são “entregues” pelo fungo ligado às raízes. Estas micorrizas são particularmente abundantes e importantes nos meios florestais, por exemplo, nos nossos sobreirais, onde o sobreiro é bastante mais saudável e resistente a doenças quando está associado às várias espécies de fungos no solo.
Numa associação micorrízica típica, o fungo dá à planta nutrientes minerais que ele consegue mais eficazmente retirar do solo, e a planta dá ao fungo hidratos de carbono que produz por fotossíntese.
No caso das orquídeas, esta associação é levada ao extremo porque a germinação das suas sementes é totalmente impossível se não houver contaminação da semente por parte do fungo. A razão é simples: as sementes destas plantas não têm tecidos de reserva – são apenas um embrião envolvido por um tegumento – e por isso são incapazes de germinar se não lhes forem fornecidos nutrientes, tarefa executada pelo fungo. Uma vantagem óbvia que isto traz é a possibilidade de produzirem quantidades astronómicas de sementes, pois requerem muito pouco investimento energético.
Estas sementes são minúsculas, em tamanho comparáveis a alguns esporos, dispersando-se muito facilmente. Em contrapartida, uma desvantagem óbvia é a dificuldade que representa haver todas as condições para a semente germinar. Se o local onde a semente cai não tem o fungo específico, não há germinação. E para que haja uma comunidade de fungos que seja capaz de suportar as orquídeas é preciso que haja um equilíbrio do ecossistema que facilmente pode ser destruído pelo homem, por exemplo, pela perturbação mecânica do solo ou pela introdução de químicos tóxicos. Para completar o cenário, o cultivo das orquídeas é também dificultado pois têm de ser reproduzidas de outras formas, vegetativamente pelos tubérculos ou porções da planta, ou, se através das sementes, então em laboratório em meios de cultura que fornecem os nutrientes necessários para que ocorra germinação (o que não é possível fazer para todas as espécies).
Claro que em última análise são as orquídeas que sofrem, pois são muitas vezes tiradas do seu habitat natural para cultivo, já que estes métodos de cultura de tecidos não estão acessíveis a toda a gente; e para piorar a situação elas geralmente não sobrevivem mais do que poucos anos, uma vez que quando tiradas do seu meio e postas num vaso, perdem o seu parceiro micorrízico, o que dificulta muito a sua manutenção.

Fig. 2 - Limodorum abortivum
Esta ligação ao fungo, na generalidade das orquídeas, é apenas estritamente obrigatória no início de vida, contudo algumas espécies muito particulares estão totalmente dependentes dele durante toda a vida. São plantas que não têm clorofila, logo, não captam a energia solar, tirando toda a sua energia do fungo, na forma de hidratos de carbono – são mico-heterotróficas. Não é muito claro o estatuto de cada parceiro nesta relação, isto é, o que é que cada um dá e recebe, e onde é que o fungo vai buscar os nutrientes para dar à orquídea. Parece ser um misto: a orquídea recebe, por via do fungo, nutrientes vindos da decomposição da matéria orgânica levada a cabo pelo fungo, e nutrientes “roubados” pelo fungo a outros parceiros “simbióticos” ao qual ele está ligado, nomeadamente árvores como o sobreiro. Claro que os benefícios que o fungo traz à árvore compensam bastante este quinhão que a orquídea reclama. Mas o que é que uma orquídea que não fotossintetiza dá ao fungo? Nada, tanto quanto se sabe. Por muito estranho que possa parecer, a orquídea está a parasitar o fungo! E assim, indirectamente a parasitar outras plantas às quais ele se liga.
Esta estratégia, a mico-heterotrofia, parece ser mais comum, nas orquídeas, do que se pensa, já que alguns autores defendem que mesmo as orquídeas “normais”, durante o seu estado adulto, se alimentam parcialmente por mico-heterotrofia.
Em Portugal existem três espécies de orquídeas totalmente mico-heterotróficas, o género Limodorum, com duas espécies que ocorrem em sobreirais e pinhais bem conservados; e Neottia nidus-avis, muito rara em Portugal, habitante de bosques caducifólios.
Esta situação, que já é fantástica, atinge o seu extremo num género de orquídeas australianas, Rhizanthella. Estas plantas são mico-heterotróficas da mesma forma que Limodorum, mas completam todo o seu ciclo de vida sem nunca emergir da terra, nem mesmo a flor! Estas são polinizadas por formigas e pequenos mosquitos que atraídos pelo odor intenso se infiltram na manta morta em busca das flores.