O Montado – estratégias para a sua gestão

Ana Margarida Pinto da Fonseca
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As estratégias de gestão do montado têm evoluido ao longo do tempo, função essencialmente dos produtos e serviços explorados prioritariamente em cada momento. Encontrará aqui um ponto da situação, atendendo a uma perspectiva histórica.

O estudo do Montado é de grande interesse dada a importância que desempenha nas comunidades humanas associadas. Toda uma cultura se desenvolve em torno destes sistemas, com práticas que resultam de séculos de experiência.

A intervenção humana pode adquirir um carácter mais intensivo, com extracção mais frequente de cortiça, lavras regulares e aproveitamento do sub-coberto para pastoreio de gado e cerealicultura. Pode, pelo contrário, assumir um carácter mais extensivo. A pecuária pode ter um carácter intensivo ou reduzir-se a uma actividade esporádica. A cerealicultura pode ser permanente e cobrir a totalidade da superfície arável ou pode ser inexistente. A utilização de maquinaria pode incluir lavras impactantes e alteradoras da estrutura do solo ou restringir-se a trabalhos superficiais, como o controle de matos através de roçadeiras ou a sementeira directa. As próprias estratégias de gestão variam entre aquelas que incluem uma visão de curto prazo, mais dependentes das conjunturas económicas, e as que têm uma visão de longo prazo, mais preservadoras do equilíbrio do sistema.

A influência do Homem neste sistema é tão flagrante que as próprias referências do montado, ao longo da história, são essencialmente referências à actividade humana no Montado ou ao aproveitamento que o Homem faz do sistema.


Nas últimas décadas o Montado tem sofrido alterações profundas. O sistema tradicional baseava-se na exploração de mão-de-obra barata e no recurso à força de trabalho animal. Contudo a disponibilidade de trabalho humano rareia, com a partida das populações para os centros urbanos e o encarecimento da mão-de-obra; enquanto que o trabalho animal foi substituído por maquinaria dependente do petróleo. A utilização dos matos para a carvoaria é agora muito reduzida. No que respeita ao montado de azinho, a perda de importância de alguns dos factores complementares tradicionais, tem conduzido quer a uma intensificação quer a uma extensificação do sistema, resultando na perturbação do seu equilíbrio. No que respeita à produção actual do montado de sobro, a valorização da cortiça tem privilegiado a produção deste produto em detrimento da produção de cereais ou da produção pecuária, que assumem agora o papel de recursos complementares. Estamos, por isso, em muitos casos, perante uma mudança no sentido de uma exploração de carácter mais florestal, à semelhança das épocas iniciais de exploração do bosque mediterrânico pelo homem, com o objectivo de proporcionar o bom desenvolvimento das árvores, uma boa produção de cortiça e um renovo adequado.

Nesse sentido, vêm surgindo preocupações relacionadas com a reflorestação e o aproveitamento da regeneração natural apoiadas por programas como o Reg. 2080/92, com o correcto encabeçamento, com actividades complementares compatíveis com estes objectivos, como a caça, o turismo, a produção de mel, cogumelos e plantas medicinais, a que programas de financiamento como as Medidas Agro-ambientais pretendem dar apoio. Todas estas medidas que deviam resultar numa menor pressão agrícola e pecuária sobre o sistema, proporcionam condições para uma exploração mais adequada e sustentável. 
 
Que lições se podem tirar da história do Montado para a gestão futura deste sistema?

Ecologicamente falando, o montado é um sistema especialmente adaptado aos solos menos férteis por permitir, onde outros sistemas não ofereceriam qualquer rendimento, a obtenção de recursos de uma forma continuada, sem esgotamento, quando bem gerido, do potencial produtivo do solo.

A vocação pecuária do montado, associada à exploração cada vez menos intensiva dos seus solos, são factores que contribuem para a acumulação de matéria orgânica e que devem ser promovidos. Práticas como os malhadios ou o redil de ovelhas, com mudança da sua localização após alguns dias, são formas adequadas de concentração de matéria orgânica sem os inconvenientes de poluição do solo que resultam de não alterar os locais de pernoita do gado com regularidade. O aumento dos teores em matéria orgânica no solo favorecem uma maior capacidade de retenção de água, bem como uma mais elevada capacidade de troca catiónica. Deste modo reduz-se a lixiviação das argilas para o horizonte B de acumulação e evita-se a criação da sola de surraipa tão perniciosa para as culturas e para as árvores do montado.

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