A vegetação ripícola como filtro biológico de nutrientes

Nuno Leitão
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Uma das razões que tornam as galerias ripícolas uma componente essencial para o funcionamento dos ecossistemas fluviais é a sua acção como filtros biológicos de nutrientes e de diversas substâncias poluentes.

As zonas ripícolas englobam os habitats e respectivas comunidades das zonas marginais de rios e lagos, cujas fronteiras são complicadas de definir. É um sistema em forma de faixas que interliga e interactua com os sistemas terrestres e aquáticos.

A vegetação ripícola é uma estrutura distinta na paisagem. Embora pareça uma mera componente florística, ela constitui um sistema essencial para os ecossistemas fluviais, ao representar habitats únicos, fomentar a biodiversidade e a produtividade biológica, contribuir com matéria alimentar para os sistemas aquáticos, reter os sedimentos da erosão hídrica, reter nutrientes de lixiviação, para além da sua importância a nível paisagístico.

 

  Uma das mais importantes funções das faixas de vegetação ripícola é a sua acção como filtro biológico de nutrientes e de outras substâncias poluentes, principalmente quando sistemas terrestres adjacentes são responsáveis por elevados inputs, como é o caso dos sistemas agrícolas, que originam intensos fluxos de nutrientes, normalmente responsáveis pela eutrofização dos sistemas aquáticos.

A aplicação de fertilizantes nas culturas conduz, inevitavelmente, a alguma lixiviação dos nutrientes mais móveis, como o azoto e o potássio. Os excessos de fertilização contornam, certamente, a possibilidade de todos os nutrientes aplicados ficarem retidos nas culturas ou adsorvidos nos solos, acabando por ser arrastados pelas águas de escoamento (superficial e subsuperficial), ou associados aos sedimentos que resultam da erosão, até às linhas de água. O azoto é normalmente o nutriente mais arrastado, e com os compostos fosfatados, embora tenham menor mobilidade na água, podem causar significativas nos ecossistemas aquáticos.

Os habitats dominados pela vegetação ripícola contribuem de forma significativa para a redução do fluxo de nutrientes, especialmente no caso da vegetação arbórea e arbustiva. A actuação do sistema ripícola varia com a densidade das faixas de vegetação, com o estado de desenvolvimento das árvores e arbustos, com a época do ano (devidos às épocas menos activas das plantas) e ainda com a diversidade de plantas (por poderem estar desfasadas na época de actividade de absorção e repouso vegetativo).

Através da absorção radicular (principalmente das árvores e dos arbustos), durante um ano e num hectare, estas plantas chegam a absorver mais de 200 kg de azoto, que incorporam na sua biomassa.

As galerias ripícolas actuam como filtro biológico ainda através da desnitrificação levada a cabo pelas bactérias desnitrificantes, em condições de anaerobiose, e através da retenção microbiana. As zonas localizadas em torno das raízes, a rizosfera, suportam elevada biomassa de microorganismos capazes de degradar, com grande eficiência, herbicidas, insecticidas, entre outros compostos. 

Estes sistemas actuam também como barreiras lineares entre as superfícies terrestres e aquáticas, estabilizando as margens, o que reduz a erosão provocada pelo curso de água, e retendo os sedimentos resultantes da erosão hídrica em zonas adjacentes, que para além de evitar a deposição dos sedimentos no sistema aquático com todas as sua implicações, reduz a mobilização de nutrientes que estão associados às partículas sedimentares.

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