Estuário do Sado: Atividades humanas e degradação da qualidade da água ameaçam biodiversidade

Quercus - Assoc. Nac. de Conservação da Natureza (02-10-2014)
Imprimir
Texto A A A

As atividades humanas e a degradação da qualidade das águas superficiais e subterrâneas constituem duas das ameaças à biodiversidade da Reserva Natural do Estuário do Sado, alerta a Quercus numa altura em que protegida completa 34 anos.

Ontem, dia 1 de Outubro, comemorou-se o 34º aniversário da criação da Reserva Natural do Estuário do Sado (RNES). A Quercus faz uma retrospetiva do que foi feito de positivo e negativo nesta Área Protegida e traça cenários com base na definição de ameaças e na identificação de oportunidades.

Os estuários constituem um recurso natural de notável importância pelo alto nível de produtividade primária que evidenciam, pela diversidade de habitat que englobam, pela riqueza de fauna e flora que encerram, por constituírem locais de reprodução e “viveiros” para muitas espécies, pela capacidade de produção de proteínas animais, por serem suporte de numerosas cadeias alimentares e estarem na base de sistemas mais vastos de grande interesse económico.

Foi para garantir a salvaguarda e a sustentabilidade dos recursos que, em 1980, foi criada a Reserva Natural do Estuário do Sado, na altura um espaço natural muito ameaçado pelas atividades económicas na sua envolvente, mas que apresentava ainda um elevado valor ecológico, científico e económico que era urgente defender.

Assim sendo, foram protegidos 23 160 hectares, onde estão identificados mais de 30 tipos distintos de habitats classificados, entre os quais se destacam as formações dunares, as comunidades das zonas submersas e entre-marés, sapais extensos, habitats de água doce.

Ao nível da flora o elenco é vastíssimo e também muito importante no contexto nacional. O património faunístico é igualmente bastante expressivo, estando registadas 261 espécies de vertebrados, sendo as aves as espécies mais representativas, em particular as aquáticas. O estuário do Sado constitui um verdadeiro local de crescimento para inúmeras espécies de peixes e de moluscos com grande interesse biológico e comercial e é ainda uma região de grande importância para o roaz-corvineiro (Tursiops truncatus), também conhecido localmente por "Golfinho-do-Sado", onde se encontra atualmente presente uma comunidade de cerca de três dezenas de animais.

Devido às suas características, a Reserva Natural do Estuário do Sado está inserida quase na sua totalidade na Rede Natura 2000 através da criação da Zona de Proteção Especial para Aves Selvagens “Estuário do Sado” e do Sítio de Importância Comunitária “Estuário do Sado” e, está ainda inserida na Lista de Sítios da Convenção de Ramsar, que inclui as zonas húmidas de importância internacional.

Para aumentar o valor de conservação do património natural da reserva ao longo destes 30 anos foi regulamentada a atividade de observação de cetáceos nas águas de Portugal Continental, foram estabelecidas restrições ambientais à utilização turística, foram estabelecidos modelos de gestão agrícola e florestal, para exploração pecuária e aquícola, foi interditada a exploração de inertes e desenvolvida investigação científica no domínio da gestão de zonas húmidas.

Apesar de todos os valores naturais que tornam a RNES um local único para a conservação da biodiversidade, esta tem vindo a ser afetada por vários fatores que degradam o ecossistema e colocam em causa os objetivos da sua criação. A degradação paisagística decorrente das atividades humanas em redor constitui um grande flagelo nesta área protegida, com a crescente ocupação urbana, construção de segundas habitações e empreendimentos turísticos, implementação de áreas industriais e de terminais portuários no estuário, aumento da navegação, areeiros em exploração ou abandonados e sucatas.

A degradação da qualidade das águas superficiais e subterrâneas, pese embora se verifique uma melhoria assinalável, deve-se ao deficiente funcionamento das ETAR dos aglomerados da bacia hidrográfica e dos sistemas de tratamento de indústrias, bem como ao fenómeno de poluição difusa, provocado pelo uso inadequado de fertilizantes, resultantes da exploração agrícola e florestal extensiva, bem como da cultura intensiva do arroz praticada na área do Aproveitamento Hidroagrícola do Vale do Sado.

A invasão dos habitats por espécies da flora e fauna exóticas constitui outro grave problema, destacando-se a presença do chorão e de acaciais Acacia spp. com maior incidência  na Península de Troia, de Gambúsia (Gambusia holbrooki) e do Bico-de-lacre (Estrilda astrild).

Entre outros fatores perturbadores da fauna selvagem, estão o abandono de salinas e a inexistência de controlo dos níveis de água originando perda de posturas de aves nidificantes, as atividades humanas como a caça furtiva, a navegação, a pesca ilegal com redes de arrasto e outras artes proibidas, e o turismo desordenado.

Esta área é ainda ameaçada por vários fatores como a intensificação agrícola, a sobre-exploração dos recursos bentónicos, a poluição industrial, urbana e agrícola, o abandono das atividades tradicionais, o desenvolvimento de grandes projetos industriais e turísticos essencialmente na faixa litoral e, ainda, riscos potenciados pelos efeitos das alterações climáticas, como a erosão do solo, o assoreamento de zonas húmidas e a perda de habitats e de solos agrícolas devido à subida do nível médio do mar.

Neste contexto, a Quercus volta a reiterar a necessidade de se adotarem medidas de gestão apropriadas, de modo a alcançar o cenário de renaturalização dos habitats que consta no Plano de Ordenamento da Reserva Natural do Estuário do Sado, que visa a diminuição da ocupação humana e das atividades económicas existentes na reserva e a renaturalização dos povoamentos florestais, em que a conservação da natureza deve constituir o eixo central para orientar o planeamento de gestão da reserva. Entre os aspetos que carecem de atenção contam-se os seguintes:

  • Implementar medidas que visem a conservação dos habitats litorais, das zonas húmidas, das aves nidificantes, de espécies vegetais endémicas raras ou ameaçadas e de habitats aquáticos e palustres e comunidades de aves associadas;
  • Implementar um programa de erradicação de espécies exóticas, com a subsequente recuperação de habitats e a instalação de espécies autóctones, que permita resultados duradouros;
  • Melhorar a fiscalização e vigilância na área da Reserva, com mais recursos humanos e meios materiais, permitindo um maior controlo sobre as atividades de caça e pesca, as atividades turísticas, o abate de espécies protegidas, a recolha ilegal de espécies da flora e a prevenção de incêndios;
  • Criar um programa de sensibilização e de incentivos a práticas agrícolas sustentáveis e tradicionais;
  • Promover a manutenção das salinas indispensáveis à conservação de uma série de valores naturais, evitando ou corrigindo determinadas práticas de pesca lesivas dos recursos haliêuticos;
  • Assegurar um correto tratamento de efluentes industriais e domésticos;
  • Assegurar o correto ordenamento da ocupação humana turística e dos usos recreativos, de forma a conciliar o seu usufruto com a conservação dos valores naturais em presença;
  • Criar um programa específico de adaptação às alterações climáticas, dirigido a todos os estuários e lagunas costeiras, considerando a sua particular vulnerabilidade e os riscos de uma interrupção no fluxo de serviços dos ecossistemas.

Para avaliar a Área Protegida foi elaborado um quadro, que é colocado em baixo, com base numa análise que apresenta o diagnóstico (Forças e Fraquezas) e o prognóstico (Oportunidades e Ameaças).

 

*Escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

Leituras Adicionais

Preparação do Plano de Acção para proteger os golfinhos do Sado entra na fase final

Crias dos Golfinhos roazes do Sado em perigo

Documentos Recomendados

Diversidade da Avifauna Invernante do Baixo Alentejo

A Cartografia das Fitogeocenoses aplicada  à gestão de Áreas Protegidas

Produtos Sugeridos

Cetáceos de Portugal, Passado, Presente e Futuro

A Criação - Um Apelo para Salvar a Vida na Terra

Comentários

Newsletter