Gestão florestal e a conservação das comunidades de vertebrados

Paulo Pinheiro
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A composição vegetal específica dos estratos arbustivo e herbáceo encontra-se dependente das medidas de gestão florestal, influenciando as comunidades faunísticas em virtude da alteração dos habitats de alimentação e abrigo. Em áreas de silvicultura intensiva, o aspecto mais limitativo quanto à capacidade de suporte do meio relativamente aos mamíferos herbívoros é a escassez de alimentos. Para contrariar este facto, pode ser elevada a disponibilidade de espécies vegetais ao nível arbustivo, mantendo no interior dos povoamentos produtivos faixas ou manchas de mato. A criação destas áreas de alimentação e/ou refúgio pode ser realizada de diversas formas, a saber: por eliminação do arvoredo; não efectuando a plantação de espécies lenhosas nestes locais; ou instalando povoamentos com compassos mais largos.

Relativamente à vegetação herbácea, esta pode ser favorecida em clareiras e no sob coberto, através da utilização da técnica de fogo controlado. Uma outra alternativa é aproveitar as faixas existentes ao longo das margens dos caminhos, corta fogos, asseiros e arrifes, para semear culturas para a fauna. Estas pastagens, constituem cobertos de alimentação que atraem diversos taxa da fauna bravia, limitando igualmente os impactes destes últimos nas espécies lenhosas, sobretudo imediatamente após a fase de sementeira/plantação.

Um outro factor a ter em consideração é a preparação do terreno, que apresenta grandes impactes quando se recorre a maquinaria pesada, eliminando totalmente o coberto vegetal, o que se traduz num desaparecimento quase completo das zoocenoses. Para minimizar estes impactes, deve ser utilizada a plantação à cova – que raramente é aplicada devido ao elevado custo – sendo a limpeza do mato efectuado exclusivamente num círculo à volta da cova. Uma opção mais viável é a remoção do mato exclusivamente ao longo das linhas de plantação, de forma a conservar uma área com coberto vegetal antecedente ao crescimento da estrutura florestal.

PERFIL HORIZONTAL

No que concerne ao perfil horizontal, são habitualmente consideradas duas variáveis: a dimensão dos povoamentos individuais, e o seu arranjo espacial no seio da área florestada. Um mosaico de povoamentos tão vasto quanto possível, combinando de modo equilibrado estruturas com diversas idades e regimes, favorece a existência de biótopos variados, apresentando consequentemente uma superior diversidade ao nível das zoocenoses. De uma forma geral, é desejável que no interior de extensas áreas florestais existam alguns povoamentos puros de outras espécies, preferencialmente quercíneas autóctones, ocupando 5-10% da unidade de ordenamento. Com o intuito de beneficiar um leque mais amplo de vertebrados, devem ser interpostos alguns povoamentos com compassos mais largos, e explorados em revoluções longas (80-90 anos), deixando uma pequena percentagem destes últimos atingirem a plena caducidade. É igualmente interessante que a unidade de ordenamento possua aproximadamente 10 % da área com plantações em fases juvenis, ou ocupada por habitats abertos – pastagens ou matos –, situação que favorece preferencialmente os carnívoros.

A nível prático, pode referir-se que quando o objectivo do ordenamento for a preservação de espécies ou guildas que necessitem de grandes extensões florestais homogéneas, a intervenção tem que ser efectuada obrigatoriamente a nível regional, definindo-se áreas ecologicamente sensíveis, habitualmente designadas como reservas. Para o efeito, o mais razoável é a delimitação uma zona florestal central submetida a poucas perturbações do exterior, explorada em revoluções longas e constituída por povoamentos mistos, de preferência com estrutura jardinada – o que paralelamente pode ser aproveitado para produzir madeira de qualidade. A envolver esta região é desejável que se encontre um “buffer” (ou zona tampão), explorado através de cortes salteados por pés de árvores. Externamente, deve ser criada uma segunda zona tampão, menos limitativa quanto a sistemas de produção florestal, e com alguma actividade agrícola, ou com sistemas agro-florestais. É de salientar que quanto menor for a dimensão da reserva, mais relevante é o papel das áreas tampão, por forma a amortizar as agressões externas.

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