Invasoras Lenhosas: Gestão vs. Erradicação

Alexandra Fonseca Marques, GEGREN (Inst. Sup. de Agronomia)
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Apesar do carácter urgente da resolução do “problema das invasoras lenhosas”, a sua definição e gestão continuam a ser controversas. Em Portugal continua a verificar-se um crescimento preocupante da área ocupada por estas espécies.

As invasões biológicas são uma das grandes ameaças aos objectivos de conservação da biodiversidade. A tomada de consciência dos impactos das espécies exóticas nos ecossistemas naturais e semi-naturais motivou o debate em volta das suas definições e dos métodos de controlo e gestão das suas densidades.

Na bibliografia sobre invasões biológicas surgem conceitos como infestante, invasora, adventícia, cuja definição é por vezes ambígua e subjectiva. De um modo geral, estes termos referem-se a plantas indesejáveis e prejudiciais, pois crescem de um modo agressivo, dispersando-se facilmente e desalojando outras plantas do ecossistema.

 

As várias definições inserem-se no contexto dos prejuízos associados à presença das espécies exóticas ou têm em conta o próprio processo de invasão. Deste modo, a natureza dos prejuízos condiciona duas perspectivas diferentes: a perspectiva herbológica (ou antrópica), que evidencia os impactos destas sobre as actividades humanas, onde se inclui o termo infestante; e a perspectiva ecológica (ou conservacionista), estabelecida em função da preservação das comunidades e habitantes, onde se integra o termo adventícia.


Com vista à normalização da terminologia para as espécies vegetais invasoras, Richardson, et al. (2000) propõem as definições apresentadas na tabela 1. Estas pressupõem que a invasão do território por uma planta exótica é um processo que requer a transposição de barreiras bióticas e abióticas, estruturando-se nas seguintes fases: introdução (resulta da transposição de uma barreira geográfica importante, pela planta ou o seu propágulo, através da intervenção humana); naturalização (ocorre quando as barreiras ambientais não impedem a sobrevivência dos indivíduos e são transpostas as barreiras que condicionam a reprodução regular); invasão (consiste na dispersão para áreas exteriores aos locais de introdução).

Tabela 1 – Terminologia recomendada por Richardson, et al. (2000) para plantas invasoras

Ressalta-se que o estatuto de “invasora” não é um atributo intrínseco da espécie, uma vez que a mesma espécie pode ser considerada como invasora numa determinada região do mundo e noutra contribuir significativamente para a produtividade do sector florestal. Por exemplo, o Pinheiro-bravo (Pinus pinaster Aiton) é a essência florestal com maior área de distribuição no nosso país, mas tem estatuto de potencialmente invasora na Austrália.


A lista das espécies da fauna e flora com estatuto de invasoras no nosso país é apresentada nos anexos do Decreto-Lei n.º 565/99, de 21 de Dezembro, que pretende regulamentar a introdução intencional ou acidental de espécies não indígenas em Portugal Continental e nas suas bacias hidrográficas.

De entre as plantas exóticas, as que apresentam porte arbustivo ou arbóreo merecem um especial destaque, devido ao seu maior efeito potencial sobre o ecossistema. Estas alienígenas, também designadas por invasoras lenhosas, incluem espécies como a mimosa (Acacia dealbata), a acácia-das-espigas (Acacia longifolia), a cordeço-alto (Acacia melanoxylon), o ailanto (Ailanthus altissima), a albizia (Albizzia lophanta), o incenso (Pittosporum undulatum), a háquea-picante (Hakea sericea) e a háquea-folha-de-salgueiro (Hakea salicifolia).

O carácter invasor de uma determinada espécie exótica é resultado, por um lado, dos acontecimentos históricos que justificaram a sua introdução no território nacional desde o século XVI, como a importação propositada de plantas ornamentais para jardins, e, por outro, das características eco-fisiológicas que favorecem a colonização da estação e sua proliferação, como por exemplo: vigorosa rebentação de toiça e raiz, abundante produção de semente, a qual se apresenta viável no solo durante longo períodos e com germinação síncrona após o fogo, elevada capacidade de dispersão seminal, elevadas taxas de crescimento nas primeiras idades, elevada resistência a perturbações como o fogo, associada à rápida capacidade de recuperação após a sua passagem.

Como resultado da sua elevada agressividade, que conduz a inúmeros prejuízos de natureza antrópica e conservacionista, a atitude tradicional face à ocorrência de infestações assenta na aplicação de métodos físicos, manuais ou mecânicos, com vista à erradicação total das invasoras. Estas operações mostraram-se insuficientes devido à rápida recolonização através de estratégias de propagação seminal ou vegetativa (Marques, 2001).

Perante este cenário têm-se desenvolvido esforços no sentido da implementação de uma nova abordagem ao “problema das invasoras lenhosas”, que preconiza a gestão das suas densidades a níveis compatíveis com os interesses de ordenamento da área florestal, de modo a tirar partido das vantagens que poderão advir da sua presença. Estes benefícios poderão ter justificado a sua introdução no local, como aconteceu com as acácias, originárias da Austrália, plantadas para a fixação das dunas litorais e melhoria das condições de fertilidade do solo.

A gestão de invasoras lenhosas assenta num processo continuado, que visa determinar a extensão real da invasão no local em causa e ponderar as melhores estratégias de intervenção face aos recursos disponíveis. Os meios de recolha de informação descritiva sobre o local, as espécies invasoras identificadas e o delineamento das estratégias de gestão a implementar são sintetizados num Plano de Gestão de Invasoras Lenhosas. Pretende-se que estas estratégias de gestão decorram concertadamente, pois é da sua implementação conjunta que irá resultar o controlo das invasoras, num médio a longo prazo. Assim, consideram-se como principais estratégias de intervenção: a prevenção, a restauração e o controlo.

 

A prevenção destina-se a impedir o estabelecimento de infestantes na estação ou realizar a sua detecção prematura e controlo atempado. Para tal há que realizar inspecções periódicas dos locais de risco e implementar medidas com a finalidade de limitar a dispersão a partir de locais infestados e minimizar as perturbações da estação, uma vez que as comunidades vegetais degradadas pela má gestão florestal são mais susceptíveis à invasão (Colorado Natural Areas Program, 2000).

A restauração integra o conjunto de actividades de gestão destinadas a manipular ou mimetizar um ou mais processos ecológicos, como a sucessão, o fogo e a herviboria, com vista à prevenção das invasões ecológicas (Heffernan, 1998).

O controlo diz respeito à aplicação de métodos destinados à eliminação de invasoras já estabelecidas na estação, de acordo com uma prioridade determinada em função dos impactos actuais e potenciais da espécie sobre os objectivos de gestão. As intervenções de controlo devem ser faseadas e escalonadas ao longo de um período de combate, integrando como etapas: o controlo inicial (destinado à redução drástica da densidade das infestações), o controlo subsequente (para eliminação das plantas originadas a partir dos propágulos existentes no solo), e o controlo de manutenção (a fim de manter baixas densidades de infestação, uma vez que a erradicação é irrealista). Em cada etapa há que recorrer à combinação de métodos de controlo físico, químico e/ou biológico, atendendo ao estado de infestação do local (Campbell, 1999).

A monitorização e avaliação do plano e do seu modo de execução são aspectos vitais para uma gestão adaptativa de invasoras lenhosas.

 

As estratégias descritas devem ser complementadas com a implementação de um plano de arborização, com recurso a espécies nativas de crescimento rápido, de modo a permitir o ensombramento do solo e a competição pelos recursos da estação, o que limitará a reinfestação (Marques, 2001).

Em suma, a presença de plantas invasoras por si só poderá não justificar as acções de controlo. O gestor terá que aprender a viver com muitas plantas alienígenas e controlar prioritariamente aquelas que interferem com os objectivos de gestão. Mesmo quando são identificados sérios problemas de infestação, a gestão pode não ser exequível por inúmeras razões, como a falta de recursos, a distribuição da invasora na estação ou a ausência de métodos eficientes de controlo (Heffernan, 1998).

 

Bibliografia citada

Campbell, P.L. (1999). Integrates control estrategies for wattle. In: 1º Encontro sobre Invasoras Lenhosas, 16 a 18 de Novembro, Gerês, pp 81-87.

Colorado Natural Areas Program (2000). Creating an Integrated Weed Management Plan – A Handbook for Owners and Managers of Lands with Natural Values. Caring for the Land Series. Volume IV. 339 pp.

Heffernan, K.E. (1998). Managing Invasive Alien Plants in Natural Areas, Parks, and Small Woodlands. Natural Heritage Technical Report 98-25. Virginia Department of Conservation and Recreation, Division of Natural Heritage. Richmond, Vrginia. 16 pp.

Marques. A.F. (2001). Gestão de Invasoras Lenhosas no Parque Florestal de Monsanto. Relatório do Trabalho de Fim de Curso de Engenharia Florestal. ISA-UTL. Lisboa.

Richardson, D.M.; PyseK, P.; Rejmánek, M; Barbour, M.G.; Panetta F.D.; West, C.J. (2000). Naturalization and invasion of alien plants: concepts and definitions. Diversity and Distributions (2000) 6. Blackwell Science Ltd. pp: 93-107.

Alexandra Marques
alexmarques@isa.utl.pt

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