Os senhores da Terra

Pedro Cardoso
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Os artrópodes são os animais mais bem sucedidos do planeta. Existem há 500 milhões de anos, têm uma muito vasta distribuição, são extremamente adaptados ao meio onde vivem e são indispensáveis ao equilíbrio e mesmo existência de qualquer ecossistema.

God must have "An inordinate fondness for beetles"
J.B.S. Haldane

Os artrópodes (Phylum Arthropoda), que incluem, entre outros, insectos, aracnídeos e crustáceos, são o maior grupo de seres vivos que existe. Na verdade, cerca de 80% das espécies animais conhecidas são artrópodes. Perto de um milhão de espécies estão descritas e estima-se que cerca de 10 milhões permaneçam por descobrir, variando este valor entre 5 e 100 milhões de espécies, dependendo do autor e da abordagem utilizada nas estimativas. A sua diversidade é tão grande que são conhecidas quase 10 vezes mais espécies só de coleópteros (escaravelhos) do que de todas as espécies de vertebrados conhecidas ou 100 vezes as espécies de mamíferos. Estes números deverão ser, na realidade, pelo menos uma ordem de grandeza superiores, visto que estes últimos grupos já são relativamente bem conhecidos.

A sua abundância em qualquer local é certamente surpreendente. Estudos realizados em Inglaterra estimaram que um hectare de pastagem suportava mais de 1.000.000.000 indivíduos de artrópodes, dos quais quase 400.000.000 eram insectos e 600.000.000 eram ácaros, com mais alguns milhões de indivíduos de outros grupos. Alguns trabalhos registaram colêmbolos em densidades da ordem de 100.000.000 por metro quadrado em solo cultivado nos Estados Unidos. Em África, nuvens de ortópteros (gafanhotos da espécie Schistocerca gregária) podem englobar até 28.000.000.000 indivíduos. Apesar de cada um apenas pesar cerca de 2,5 gramas, este número totaliza 70.000 toneladas de gafanhotos. Uma única colónia de Formica yessenssis na costa do Japão foi descrita como tendo cerca de 1.080.000 rainhas e 306.000.000 obreiras em 45.000 ninhos interligados. Alguns cientistas acreditam que cerca de 30% da biomassa animal da bacia do Amazonas é constituída por formigas e que só as formigas e térmitas constituem mais de 20% da biomassa animal a nível mundial.

 

Os artrópodes são, segundo quase qualquer ponto de vista, os animais mais bem sucedidos do planeta. Existem na Terra desde o Câmbrico (cerca de 500 milhões de anos), muitas espécies (como as libélulas gigantes com 70cm de envergadura de asas, contemporâneas dos dinossauros) extinguiram-se, mas houve outras (como as baratas) que se mantiveram quase inalteradas até os nossos dias. Actualmente, os artrópodes têm uma grande amplitude de distribuição, são extremamente adaptados ao meio onde vivem e são indispensáveis ao equilíbrio, e mesmo existência, de qualquer ecossistema.

Mas porque têm os artrópodes tanto sucesso?

. Adaptações e aperfeiçoamentos permitem-lhes habitar qualquer ambiente e desempenhar quase qualquer função ecológica.

. O exosqueleto, cutícula segregada pela epiderme, que serve de sustentação do corpo, protege e permite a formação de estruturas como mandíbulas, órgãos sensoriais ou asas (na verdade os insectos foram as primeiras criaturas a desenvolver o voo como meio de locomoção).

. Apêndices articulados, permitem a locomoção e a manipulação de alimento de forma mais eficiente.

. O ar é distribuído directamente às células e tecidos através de traqueias, o que permite a manutenção de um alto metabolismo.

. Órgãos sensoriais altamente desenvolvidos como olhos compostos (ou visão tridimensional e a cores no caso de algumas aranhas) e receptores olfactivos, tácteis ou sonoros.

. Competição intra-específica reduzida através de metamorfoses que permitem que juvenis e adultos ocupem nichos ecológicos diferentes.

. Padrões de comportamento complexos, tanto instintivos como aprendidos. Alguns são mesmo capazes de aprender por tentativa e erro.

. A capacidade de voo da maioria dos insectos que lhes permitem explorar novos recursos ou escapar de condições adversas.

Apesar das características de sucesso, os artrópodes basicamente funcionam numa escala a que não estamos habituados. As suas espécies tendem a apresentar distribuições mais limitadas que os vertebrados e maior grau de endemismo do que qualquer grupo em quase todos os locais, permitindo uma maior precisão em estudos biogeográficos e evolutivos. No entanto, apesar do seu sucesso evolutivo e face ao crescente distúrbio humano dos habitats, vários estudos apontam para que maior percentagem (já para não falar de números absolutos) de artrópodes esteja ameaçada de extinção do que de qualquer outro grupo animal. Em termos científicos, eles apresentam assim enormes desafios e dificuldades também no que se refere à sua conservação.

É preciso não esquecer três graves problemas que se põem a quem estuda a sua diversidade:

. Na maioria dos casos pouco mais se conhece de cada espécie que um nome científico, uma breve descrição morfológica e uma ou poucas localidades de origem.

. A maioria da diversidade é ainda desconhecida em absoluto, mais de 10000 novas espécies são descritas por ano e o trabalho revela-se infindável.

. O interesse que os artrópodes despertam na opinião pública é muito baixo, o que influencia negativamente as possibilidades de trabalho com o grupo.

Estes três pontos levantam uma questão fundamental. Ao ritmo actual levaremos um milénio a descrever todas as espécies, mas dada a constante e crescente destruição dos seus habitats muito provavelmente uma grande percentagem das espécies extinguir-se-á antes mesmo de chegar a ser descrita. E quantas não se terão já extinto por nossa acção antes de as termos descoberto?

 

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