Gramíneas

Miguel Porto
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As flores das gramíneas, como já referido, são especiais. Não existem pétalas nem sépalas como estamos habituados, já que estas plantas não precisam delas para atracção de insectos: a polinização é feita pelo vento (polinização anemófila). Tudo o que resta destas peças florais, que terão existido num passado distante, resume-se a duas minúsculas escamas – as lodículas – que ajudam na abertura da flor (afastamento da lema e da pálea), expondo assim os órgãos reprodutores. Todas as outras peças – lema, pálea e glumas – são brácteas, isto é, folhas modificadas que, para além de servirem para a protecção das flores como geralmente acontece, aqui têm também uma função bastante importante na dispersão da semente. Esta função é complementada pela presença, em muitos géneros, da arista – um prolongamento rígido da lema (ou das glumas) provido de diminutos “ganchos” que se ancoram em qualquer superfície minimamente rugosa ou pilosa.


 
Dispersão das sementes nas gramíneas, após uma tarde de campo num montado alentejano. Principais espécies presentes: Bromus diandrus, e Vulpia myurus.

Quando a flor está aberta (na ântese), e dado que as pétalas estão ausentes, observam-se apenas os estames muito protuberantes e pendentes, libertando quantidades copiosas de pólen, e os estigmas densamente plumosos, também protuberantes. Esta morfologia e comportamento dos órgãos reprodutores, que maximiza a dispersão e captura do pólen, é típica de plantas polinizadas pelo vento, e diferentes variantes são usadas por outras famílias nada aparentadas, como as Fagaceae (carvalhos), Salicaceae (salgueiros, choupos) e Plantaginaceae (tanchagens) – um dos inúmeros casos de evolução convergente.

 
 
Pormenor das espiguetas de Glyceria declinata (esquerda, múltiplas flores por espigueta) e Stipa gigantea (direita, uma só flor) mostrando os três estames protuberantes por cada flor (a roxo e amarelo, respectivamente) e os estigmas brancos plumosos (setas).

E o que não são as gramíneas?

A nível mundial existem diversas famílias evolutivamente próximas das gramíneas, incluídas na ordem Poales. Embora algumas sejam de facto muito semelhantes, em Portugal não há motivos para muita dúvida, pois apenas existem quatro destas famílias – Sparganiaceae, Typhaceae, Juncaceae e Cyperaceae – as quais são suficientemente diferentes para não causar confusão após uma observação cuidada da sua estrutura. As duas primeiras famílias constituem plantas de locais pantanosos, morfologicamente bem distintas das gramíneas.

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